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Dimitrios Ioannidis (1923-2010)

Um dos autores do golpe militar que impôs na Grécia, em 1967, a Junta dos Coronéis, e ideólogo do regime, nunca ocupou o primeiro plano, sendo conhecido como 'ditador invisível'.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 4 de setembro de 2010

Dimitrios Ioannidis, que morreu na segunda-feira, dia 23, no Hospital Nikea, em Atenas, para onde fora levado da prisão de segurança máxima de Korydalos onde cumpria pena de prisão perpétua depois da pena de morte a que tinha sido condenado em 1975 haver sido comutada, era um militar da cabeça aos pés que, desde a violenta Guerra Civil no rescaldo da Segunda Guerra Mundial que opusera antigos resistentes comunistas em rebelião contra o governo grego a antigos resistentes anticomunistas (Estaline queria alargar a esfera de influência soviética no sudeste da Europa desde a Macedónia jugoslava até ao Mar Egeu mas Churchill, apoiado pelos americanos, decidira que a Grécia deveria ser um dos bastiões do Ocidente) até ao seu encarceramento em 1974, quando depois de três putches bem sucedidos espaçados no tempo, a sorte se virara contra ele e a democracia que ajudara a banir da Grécia em 1967 fora restaurada, se dedicara de corpo e alma à defesa da pátria, ao cultivo dos valores que entendia fazerem-na forte e digna e ao combate sem quartel contra aqueles que a seus olhos minavam e corrompiam esses valores e que, se fossem deixados à solta, acabariam com a glória helénica e deixariam a honra da Grécia pelas ruas da amargura.

A guerra civil fora oportunidade que se lhe oferecera para separar o trigo do joio. A seguir a ela dirigira o campo de internamento de Makronisos destinado a militantes comunistas onde começou a ganhar experiência de rigor e brutalidade no tratamento de presos políticos que viria a fazer parte da sua imagem de marca. Ainda jovem oficial participaria numa tentativa vã de forçar o rei Paulo, pai de Constantino, a nomear primeiro-ministro o chefe de Estado-Maior do exército, marechal Alexandre Papagos (o próprio Papagos desimaginara os rapazes, mandando que se deixassem de patetices). A dinastia reinante, germânica e imposta de fora no século XIX, não era muito popular mas a bête noire de Ionnadis e de muitos outros dos seus camaradas de armas era a classe política que consideravam incompetente e corrupta. Em Abril de 1967 um grupo deles, com o apoio tácito de muitos outros, tomou conta do poder constituindo-se na chamada Junta dos Coronéis. Ioannidis, então subdirector da Academia Militar, teve papel preponderante na preparação do golpe e no estabelecimento da segurança necessária ao bom funcionamento da Junta: a organização responsável pela segurança nacional e a polícia militar, ESA, autónoma em transporte, comunicação e equipamento, de que fez o terror da oposição. Ideólogo mais exigente do que os seus colegas (tinha fibra de Robespierre ou Savonarola), foi o principal responsável pela opressão brutal do regime. O centro de interrogatórios da ESA ganhou por divisa: "Quem entra aqui ou sai amigo ou aleijado".

Em Dezembro de 1967, o rei Constantino tentou derrubar a Junta e foi mandado para o exílio por um referendo. Implantada a república, a repressão continuou mas Ioannidis foi ficando cada vez mais preocupado com os riscos de corrupção e de falta de patriotismo. Em 1973, depois de ter dirigido ataque militar contra estudantes na Politécnica de Atenas, que causou dezenas de mortos e centenas de feridos, promoveu o derrube e substituição do presidente da Junta por general da sua confiança e decidiu ocupar-se de Chipre: o seu patriotismo preconizava a união da ilha com o continente (enosis). Mandou derrubar o Presidente, arcebispo Makarios, que se opunha à ideia e queria que fossem retirados do país os oficiais gregos lá aquartelados. Makarios foi derrubado mas fora aberta uma caixa de Pandora. Para proteger a população turca da ilha, a Turquia invadiu Chipre (até hoje); a Junta foi derrubada e a democracia restabelecida em Atenas; presos, Ioannidis e os seus camaradas receberam penas exemplares.

Era homem de gostos espartanos; durante muitos anos olhou pela mãe doente; para espairecer lia Aristóteles e Platão. Casou em 2003 na cadeia com a viúva de um camarada de armas.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010

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