Perante uma comissão de inquérito, Tony Blair disse que não se arrepende. Voltaria a invadir o Iraque. E é natural que assim seja. O homem não mudou, honra que lhe seja feita: voltou, contra todos os testemunhos, evidências e provas, a mentir sobre as informações que tinha em relação às armas de destruição em massa. Há gente coerente na sua relação com os factos.
Mas a verdade é que será por essas mentiras, pelas mortes inúteis e pelos crimes cometidos no Iraque que será lembrado. As vitórias eleitorais e tudo o que tenha conseguido no Reino Unido tornaram-se insignificantes aos olhos do Mundo quando comparadas com esta guerra. Ninguém quer hoje aparecer colado à sua imagem.
George W. Bush é George W. Bush. E será recordado como o pior Presidente da história dos Estados Unidos. De tal forma que todas as qualidades que alguém pode imaginar num estadista quase se podem definir por oposição ao seu mandato. E para isso contribuiu de forma decisiva o atoleiro em que enfiou os EUA e os seus aliados.
José Maria Aznar saiu sem glória. Porque repetiu, na véspera das eleições, os seus dois pecados anteriores: a mentira, sempre ela, e o aproveitamento de um acto terrorista e dos traumas que ele causou para ganhos políticos de circunstância.
Se olharmos para o retrato das Lajes ninguém fica hoje bem na fotografia. E foi exactamente naquele momento que determinaram como seriam lembrados no futuro. Aí gravaram, da pior maneira, o seu epitáfio político.
Apenas um se safou: José Manuel Durão Barroso. Porque se portou melhor? Não. Porque era apenas um mordomo naquela festa. Ao contrário dos restantes, ninguém lhe deu suficiente importância para lhe exigir responsabilidades.
Para chegar onde está hoje, como para aparecer no retrato das Lajes, soube ver quem estava por cima. Usou a sua fraqueza para subir. Como provaram as escolhas de Catherine Ashton e Van Rompuy, a Europa gosta de dirigentes fracos que não façam sombra aos verdadeiros donos da União, os líderes das principais nações. A escolha de Durão Barroso, que encheu de orgulho o provincianismo nacional, limitou-se a confirmar essa tradição.
A prova da sua irrelevância é, curiosamente, a sua sobrevivência política depois do Iraque. Nunca ninguém quereria ouvir, como quiseram com Tony Blair, as suas justificações. Era só o mordomo. E nada mudou. Continua a ser apenas um mordomo.