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Desperdício

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 14 de janeiro de 2010

Há uns dias, nas ruas Maputo, um miúdo, não mais de 10 anos, acercou-se à janela do carro onde eu seguia na companhia de um jornalista luso-moçambicano. Como parecia ser hábito, o rapaz comentou o que saíra no jornal onde o meu cicerone é editor. Lê tudo. As notícias, as crónicas, as reportagens. E sobre tudo tem opinião. Como passa os seus dias na rua, o mais provável é que o rapaz venha a pertencer ao interminável exército de miseráveis que povoam Moçambique. Uns dias depois, numa viagem de 'chapa' (carripanas apinhadas de gente) perguntei a outro miúdo, bem mais novo, muito vivo, se já andava na escola. A resposta foi rápida: não há 'pasta'. A pobreza de um país é isto: desperdício.

Portugal já está noutra fase. O desperdício vem mais tarde. Elisabete Matos é protagonista em "O Navio Fantasma", de Richard Wagner, no palco do Teatro Real de Madrid. Os espanhóis referem-se a ela como luso-espanhola e ela gosta. Foi em Portugal, no Conservatório de Braga, que recebeu a sua formação. Mas foi em Espanha que teve todas as oportunidades. Disse ao jornal "Público": "Nunca me senti acarinhada em Portugal, apesar de não haver tantos cantores a fazer carreira internacional".

O que Elisabete diz já ouvimos das bocas de muitos. Nada disto tem a ver com a estafada inveja dos portugueses. Como em Moçambique, apenas num grau diferente, é a pobreza que explica o desperdício. Em Maputo a inteligência e o talento perdem-se na rua enquanto, nos corredores do poder, a ganância sorve os poucos recursos que ali chegam. Aqui, a inteligência foge para o estrangeiro, enquanto a nossa elite, sempre pronta a promover a mediocridade através da 'cunha', se entretém a desdenhar as novas gerações que, diz-se, são ignorantes e analfabetas. Mudámos as nossas escolas. Temos melhores quadros, técnicos, investigadores, artistas. Falta o mais difícil: ou educar quem manda ou pôr outros a mandar.

Rostos árabes


Vi, em 2005, espalhados pelas ruas de Sanaa, capital do Iémen, dois rostos: o de Ali Saleh, presidente da República, e o do xeque Yassin, líder espiritual do Hamas assassinado pelos israelitas um ano antes. Os cartazes do primeiro foram colocados pelo Estado, os do segundo pelo povo. Simplificando, são estas as duas alternativas em muitos países árabes.

Como muitos dos seus congéneres árabes, Saleh é um pequeno tirano incompetente num país miserável e em guerra permanente. Longe de ser um laico, é apoiado por americanos e europeus desde que venceu a frente iemenita da guerra fria ao Iémen do Sul, comunista. Como no Egipto, na Tunísia ou na Jordânia, o Ocidente convenceu-se de que apoiar esta gente seria a melhor forma de travar o crescimento dos islamistas. A simpatia que então pude observar por Yassin é o mais claro dos desmentidos.

São estes corruptos que o Ocidente acarinha e escolhe como protagonistas no combate ao terrorismo. Os apoios que recebem servem, na maior parte das vezes, para esmagar opositores e concorrentes indesejados. São eles que acabam por dar munições políticas aos radicais. Se em países supostamente aliados do Ocidente o Estado só existe para roubar e reprimir não nos devemos espantar que os povos árabes tenham dificuldade em ver-nos como amigos da liberdade e da decência.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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(1) A verdade e a inverdade
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 0:37 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
Bravo, Daniel Oliveira, a realidade começa revelar-se perante os seus olhos.
Como vê, a “ideia democrática que tudo é possível e que basta muito esforço para chegar ao Céu, acaba por”… NÃO promover a mediania. Os jovens portugueses que muito se esforçaram e esforçam acabam por encontrar o Céu… no estrangeiro. E o Céu é o reconhecimento do valor.

A mediocridade, tem toda a razão, é “promovida” através das “cunhas” e dos "compadrios" políticos. E tem piada, que os tais “melhores entre nós”, que você tanto glorifica, são reconhecidos pelos mesmos processos dos medíocres. E os “melhores entre nós”, também.

Fez bem em reconhecer, pelo menos aqui, na sua coluna, que o “esforço” deve compensar, independentemente ou mesmo sem a necessidade de pertencer a qualquer Partido .

E para os “melhores”, o Céu será o limite. Considerando que ninguém é o melhor e que a qualquer um é concedida a possibilidade de conseguir ser o melhor.

Mas voltamos à mesma. Isto relacionado com os corruptos que o Ocidente acarinha. Você tem complexos em ser do “Ocidente”, gosta de se sentir na pele do explorado do 3º Mundo. E quando se imagina em tal situação, “pensa” , como na sua opinião “eles” deviam pensar.

Se um dia tiver oportunidade “mergulhe” nessas realidades e talvez o ajude a compreender o porquê das pessoas “escolherem” como Líder, quem mais os atemoriza. E quando aceitam revoltar-se é para lutar por alguém que os atemoriza mais ainda.

continua
 
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(2) A verdade e a inverdade
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 0:43 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
continuação
 
E pretende o quê? Que os Ocidentais, pela força, alterem as “situações” internas? Mas isso não é “intromissão”? Aquilo que você condena. Prefere talvez a pressão diplomática. O boicote? Mas sabe que quando isso acontece, quem sofre é o Povo e, muitas vezes fortalece a Ditadura.

Para terminar, talvez seja um atrevimento da minha parte, mas vou deixa-lo com um exemplo:

Você, o conhecido investidor Daniel Oliveira, tem uma indústria numa certa zona do País, que urgentemente precisa ampliar para não perder contratos. Tem tudo: Financiamento, máquinas e pessoal já formado, etc. Tem a maior urgência na autorização do projecto, até por razões sociais, pois muitas famílias dependem dos salários que irá pagar.
Nessa zona, as eleições autárquicas são ganhas por um indivíduo altamente corrupto. Coisa vulgar em Portugal.

Vai ter que negociar com ele. Foi quem a população escolheu. Negoceia e cede em relação “às luvas”, mesmo contra os seus princípios, como pessoa responsável que é.

O jornal local (da oposição) noticia: É este corrupto, que o conhecido empresário Daniel Oliveira acarinha e escolhe como protagonista para o desenvolvimento do seu projecto. Os “apoios” que este corrupto recebe, servem para esmagar os opositores e concorrentes indesejados. Se os Autarcas aliados aos patrões são todos corruptos e a única coisa que fazem é roubar, não nos podemos admirar que as populações tenham dificuldade em ver os empresários, como amigos da decência.
...
 
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E isso ai!!!!!
antespelocontrario (seguir utilizador), 1 ponto , 9:53 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
Parte um: trabalho no mundo e encontro por ai muitos jovens engenheiros/as portugueses/as, ocupando lugares de destaques nas empresas. Da Polonia ao Brasil, da Espanha a China, etc. Vejo estes jovens brilhar no estrangeiro, so porque a mediocridade tem lugar cativo nas estruturas privadas e publicas deste pais, caso contrario estariam aqui.

Parte dois: estou atrabalhar, agora, em dos paises que mencionou. O meu comentario BINGO!!!!!!!
 
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