Há uns dias, nas ruas Maputo, um miúdo, não mais de 10 anos, acercou-se à janela do carro onde eu seguia na companhia de um jornalista luso-moçambicano. Como parecia ser hábito, o rapaz comentou o que saíra no jornal onde o meu cicerone é editor. Lê tudo. As notícias, as crónicas, as reportagens. E sobre tudo tem opinião. Como passa os seus dias na rua, o mais provável é que o rapaz venha a pertencer ao interminável exército de miseráveis que povoam Moçambique. Uns dias depois, numa viagem de 'chapa' (carripanas apinhadas de gente) perguntei a outro miúdo, bem mais novo, muito vivo, se já andava na escola. A resposta foi rápida: não há 'pasta'. A pobreza de um país é isto: desperdício.
Portugal já está noutra fase. O desperdício vem mais tarde. Elisabete Matos é protagonista em "O Navio Fantasma", de Richard Wagner, no palco do Teatro Real de Madrid. Os espanhóis referem-se a ela como luso-espanhola e ela gosta. Foi em Portugal, no Conservatório de Braga, que recebeu a sua formação. Mas foi em Espanha que teve todas as oportunidades. Disse ao jornal "Público": "Nunca me senti acarinhada em Portugal, apesar de não haver tantos cantores a fazer carreira internacional".
O que Elisabete diz já ouvimos das bocas de muitos. Nada disto tem a ver com a estafada inveja dos portugueses. Como em Moçambique, apenas num grau diferente, é a pobreza que explica o desperdício. Em Maputo a inteligência e o talento perdem-se na rua enquanto, nos corredores do poder, a ganância sorve os poucos recursos que ali chegam. Aqui, a inteligência foge para o estrangeiro, enquanto a nossa elite, sempre pronta a promover a mediocridade através da 'cunha', se entretém a desdenhar as novas gerações que, diz-se, são ignorantes e analfabetas. Mudámos as nossas escolas. Temos melhores quadros, técnicos, investigadores, artistas. Falta o mais difícil: ou educar quem manda ou pôr outros a mandar.
Rostos árabes
Vi, em 2005, espalhados pelas ruas de Sanaa, capital do Iémen, dois rostos: o de Ali Saleh, presidente da República, e o do xeque Yassin, líder espiritual do Hamas assassinado pelos israelitas um ano antes. Os cartazes do primeiro foram colocados pelo Estado, os do segundo pelo povo. Simplificando, são estas as duas alternativas em muitos países árabes.
Como muitos dos seus congéneres árabes, Saleh é um pequeno tirano incompetente num país miserável e em guerra permanente. Longe de ser um laico, é apoiado por americanos e europeus desde que venceu a frente iemenita da guerra fria ao Iémen do Sul, comunista. Como no Egipto, na Tunísia ou na Jordânia, o Ocidente convenceu-se de que apoiar esta gente seria a melhor forma de travar o crescimento dos islamistas. A simpatia que então pude observar por Yassin é o mais claro dos desmentidos.
São estes corruptos que o Ocidente acarinha e escolhe como protagonistas no combate ao terrorismo. Os apoios que recebem servem, na maior parte das vezes, para esmagar opositores e concorrentes indesejados. São eles que acabam por dar munições políticas aos radicais. Se em países supostamente aliados do Ocidente o Estado só existe para roubar e reprimir não nos devemos espantar que os povos árabes tenham dificuldade em ver-nos como amigos da liberdade e da decência.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010