A dimensão dolorosa, social e humana do problema do desemprego talvez explique o exclusivo assumido pelo tratamento puramente quantitativo e estatístico que assume a sua expressão pública.
Salvo raras excepções, poucas são as reportagens ou textos de maior desenvolvimento que tracem um quadro que ultrapasse percentagens e dígitos e note-se como são mesmo praticamente existentes quaisquer dados (e aqui tanto faz os puramente numéricos como os mais descritivos) para o que se sabe ser um crescimento exponencial da emigração, com compreensível destaque para a elusiva emigração sazonal ou ocasional. Que só se revela quando lá longe um patrão estrangeiro se excede na brutalidade da exploração ou uma viatura carregada de trabalhadores portugueses se despista numa auto-estrada espanhola.
A própria imprecisão dos dados, a dificuldade de os obter ou enquadrar em esquemas estatísticos já elaborados é um insidioso índice da profundidade, da terrível sensibilidade humana do problema. Os dados divulgados esta semana referem, por exemplo, dois números tão contundentes como dolorosos: em Dezembro do ano passado havia 563.300 mil portugueses desempregados, correspondendo a 10,1% da população activa, cifra que correspondia a um constante e sistemático aumento semana a semana, mês a mês. Num ano, o crescimento foi de mais de 136 mil. Mas...
Mas, dizem os números, "caso se conte com os inactivos disponíveis para trabalhar (74 mil) e os inactivos que já não procuram emprego porque se sentem 'desencorajados' (33 mil pessoas), o número de desempregados em sentido lato passou a abranger cerca de 670 mil pessoas - ou seja, a taxa de desemprego passou de 9,4 em Dezembro de 2008 para 11,8% um ano depois".
Mais de meio milhão de pessoas cujas famílias se vêem privadas de meios de subsistência é só por si um número aterrador, mas, no relativo da sua expressão qualitativa, o que dizer de 30 mil homens e mulheres desencorajados? Que dramas, para lá das carências da ausência do salário, se escondem por trás desses cinco algarismos? Os que correspondem a esse dado igualmente terrível que é de ser entre os 15 e os 24 e os 35 e 44 anos que o desemprego mais aumentou? Os que correspondem a um ano nas filas dos Centros de Desemprego a partir das primeiras horas da madrugada para regressar a casa sem qualquer resposta? Ao desespero face aos sucessivos cortes no quotidiano, ao sucessivo crescer das dívidas?
E, no final das estatísticas, esclarece-se ainda: nada faz minimamente prever que o problema esteja em vias de solução - o ritmo de criação de emprego situa as perspectivas de retoma num período previsivelmente maior que meia década.
A grande pergunta (não será a grande esperança?) que se coloca é se, neste quadro, irão aumentar os desencorajados - ou crescerão os revoltados?
Ruben de Carvalho
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2009