O seu nome e a sua carreira vão ficar para sempre ligados ao caso Maddie?
Não me preocupo com isso. Trabalhei sempre em equipa com a preocupação e o objectivo de chegar à descoberta da verdade. Nenhum polícia gosta de deixar um caso a meio.
Foi o que aconteceu com esta investigação? Ficou a meio?
Não por minha vontade.
Concordou com a decisão do anterior director da PJ que o afastou do caso?
Não. É uma decisão injusta e perigosa. Eu não fui retirado da investigação por incompetência. Saí por causa do rumo que a investigação estava a tomar. Mas a estratégia não foi decidida só por mim. Foi toda a gente. Envolveu a polícia inglesa e outros polícias portugueses. E o que se estava a investigar era a morte da menina, mesmo acidental.
Depois da sua saída, esse rumo foi mantido?
Não sei. Eu sou muito ingénuo e quero acreditar que a minha saída de Portimão teve como objectivo avançar com a investigação, porque a pessoa que foi para lá é muito mais capaz.
Acredita que Madeleine McCann morreu na noite de 3 de Maio no apartamento?
Sim. É nisso que eu e outras pessoas acreditamos. E não é porque idealizámos que é assim.
Há provas que sustentem essa tese?
Não posso entrar em detalhes do processo. Só digo isto: tenho a certeza que eu e as pessoas que trabalharam comigo fizemos um bom trabalho e duvido que alguém fizesse melhor. Um dia as pessoas hão-de ver o processo, podem concordar ou não, mas não há ali nada que ponha em causa o meu profissionalismo.
O rumo da investigação, homicídio, estava a incomodar o poder político?
Este caso foi mais político do que policial.
Algum político o pressionou?
Eu não fui pressionado, fui demitido.
Se houve homicídio, onde está o corpo?
Isso era o que íamos apurar a seguir. No dia em que fui demitido, estava a realizar diligências para que uma testemunha fundamental viesse a Portugal. Era preciso que a PJ pagasse a viagem, que arranjasse alojamento e isso estava a ser tratado. Mas depois a testemunha importante nunca veio a Portugal e nunca chegou a ser ouvida.
Mas porquê? Porque é que se abre uma excepção?A polícia inglesa foi usada pelos McCann para fazer chegar à PJ informação que não passava muitas de ruído?
Sim. E o casal ter um assessor de imprensa é uma figura que nem sequer está prevista no código processo penal. De alguma forma fomos todos influenciados pela campanha montada e que dizia que a criança está viva e tem de ser encontrada. Não digo que a polícia inglesa andasse a mando dos McCann, mas foi inluenciada, tal como nós fomos. A PJ devia ter arranjado maneira de proteger os investigadores de tudo o resto.
É estranho: diz que ficou estabelecido com a polícia inglesa que o rumo a seguir era o da morte da menina, que havia indícios suficientes, mas parece ter havido uma inflexão.
Sim. E fui demitido. Não sei se há relação directa. Sei que houve colegas da investigação que pediram uma sindicância à direcção da polícia para ver se o trabalho tinha sido mal feito. Se foram cometidos erros.
Acredita que chegou à verdade?
Tenho a convicção de que estávamos no caminho certo e que podíamos chegar não a saber tudo, mas uma grande parte. Agora, aquilo que recolhemos e que consideramos indícios pode não ser valorado da mesma maneira.
Uma das críticas que lhe fazem é que o resultado dos meses em que esteve à frente da investigação são muitas convicções e prova zero. Concorda?
Estive como coordenador da investigação desde 3 de Maio a 2 de Outubro. Cinco meses. Depois de mim vieram outras pessoas que estão lá há nove meses. Não estou a comparar, mas fomos profissionais e não tenho vergonha de nada. E quando o processo for público ver-se-á que não é bem assim não ter nada. Há indícios e estão nos autos. Fizemos centenas de inquirições e de buscas. Milhares de diligências e dali não resulta nada? A miúda esfumou-se?
A pista da morte da criança continuou a ser seguida depois da sua saída?
Não sei. O que posso dizer é que desde o dia que saí soube que o processo ia ser arquivado.
A ser assim, fica uma morte por esclarecer?
Fica. E diligências por realizar.
De quem foi a decisão de constituir o casal McCann como arguidos?
Todos. E o director nacional era informado de todas as decisões.
Alípio Ribeiro concordou com a decisão?
Exactamente.
Mas veio a dizer que a decisão tinha sido precipitada.
Precipitada? Quatro meses depois? Quando houve diligências concretas para reforçar alguns indícios? Quando se esperou pelo resultado de vários exames? E além disso, no nosso código existe o princípio da nau auto-incriminação. Uma pessoa não pode estar a falar eternamente como testemunha e fornecer indícios. É certo que há algum estigma no estatuto de arguido, mas não sei o que será pior. Eles foram constituídos arguidos, isso foi público, por simulação de crime e ocultação de cadáver.
Acha que cometeu algum erro?
Cometi um. O erro da primeira hora. Há coisas que ainda não posso falar. Mas temos consciência que há coisas que poderiam ter sido feitas de outra forma. Ninguém poderia ficar chocado se começássemos logo a investigação a ponderar se os pais tivessem ou não tivessem a ver com o assunto.
Depois de ter saído da investigação, alguma vez falou com o seu sucessor, Paulo Rebelo?
Não. É uma questão interessante de abordar. Se me afastaram pela barbaridade de um desafo, mas não por incompetência, seria de esperar que eu pudesse ser consultado. Mas tal nunca aconteceu.
Se, como tudo aponta, o caso for arquivado, a opinião pública vai responsabilizar a polícia portuguesa. Como reage?
Um arquivamento não é uma declaração de inocência. Um processo pode ser arquivado e reaberto. Um eventual arquivamento neste caso até pode ser uma declaração de alguma incapacidade da polícia, ou pode ser uma valoração diferente.
O que é que diria aos pais de Madeleine?
Não tenho nada a dizer. A minha grande preocupação é a miúda, não são os pais.
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