Eu queria escrever algo diferente.
Juro que queria.
Queria dizer-vos que não ando distraída.
Que não me "enfronhei" nos processos e deixei de olhar o mundo lá fora.
Aliás, quem me conhece, sabe bem que não é meu feitio "enfronhar-me" em nada e muito menos, em processos. Mas a informação é tanta! Se me manifesto, tenho a mania que sou jornalista e vai de me criticarem porque não faço notícia nem tenho direito a fazê-la; se não me manifesto, ando ao lado, ou de fora, o que é pior.E penso:
-Quero lá saber!
Quero lá saber que Armando Vara vá pedir o levantamento do segredo de Justiça. Até acho muito bem. Ao menos assim fica tudo preto no branco.
Quero lá saber que no meu País se proiba a venda de livros que já estiveram à venda, e que até se lembrem de confiscar os já comprados.-
Quero lá saber que no Conselho Superior da Magistratura estejam advogados que até se podem pronunciar sobre a minha competência profissional e, são advogados em processos que tenho em mãos.
Quero lá saber que o PGR ande preocupado com escutas e não escutas, destruição ou não, apresentação das mesmas à entidade competente, venha dizer que por ele até as divulgava, seja ou não seja Maçon... (Aliás, aqui para nós, ainda não consegui perceber muito bem o tabu que existe à volta da maçonaria).
Quero lá saber! Eu nem sou do MP!
Quero lá saber que a prisão de Guantánamo em Cuba, Terra de Fidel ou lá de quem é, tenha sido legalizada num golpe legislativo, que até arrepia, e se tenha tornado em território de ninguém, ou melhor, em território dos EUA, como se tivessem uma legitimidade divina e, ainda por cima depois de anunciarem o fecho da mesma, adiem agora por mais um ano a estrondosa medida.
Quero lá saber que em Copenhaga se esteja a discutir o mesmo que já se discutiu em Bali e Kioto e que fique tudo na mesma?
Quero lá saber que os Direitos Humanos só sejam defendidos no papel?
Quero lá saber que a Magna Carta - Magna Carta Libertatum - impeça o exercício do poder absoluto, da arbitrariedade, do abuso do poder, implique a sujeição de todo o poder à Lei, se é o Poder que faz a lei?
Quero lá saber!!....
Quero lá saber que a reforma penal ponha os arguidos na rua antes de um Juiz dizer:
- Condenado em x anos de prisão. E que os faça circular mais perto e mais rapidamente junto das vítimas e das testemunhas.
Mais rápido do que, como dizia a minha avó, "o diabo esfrega um olho!".
Quero lá saber que eu seja um aplicador da Lei. Que seja eu quem melhor lhe conhece os meandros, as agruras e as fragilidades se, assim que as aponto, alguém vem gritar:
- Então mudemos a Lei. Sujeitemos a Lei à Lei, e vai de lhe criar mais agruras e fragilidades.
Quero lá saber que os novos Juízes vão fazer estágio a empresas privadas ou a escritórios de advogados... Coitados.
E quero lá saber das NUTS e dos gastos que implicam. Quem lhes pagará as idas, a todos, tendo em conta a retenção orçamental e será que há cabimento,..orçamental?
Eu quero lá saber dos sucateiros ilegais se há por aí tanta sucata ilegal!
Só me apetece dizer: - Estou-me nas tintas! ( Desculpem-me o desabafo.)
.Mas, o problema é que não me consigo estar nas tintas.
Não me consigo estar nas tintas quando o PGR vai falar de corrupção para a China e cá vejo que nunca houve um combate sério à corrupção. Que continuamos a não saber falar de corrupção ou pior, a não saber combatê-la e a não ter os meios devidos para tal. E a perceber que, afinal, a corrupção ficou fora do pacto para a Justiça.
Não me consigo estar nas tintas para o facto de todos os dias saber que a Constituição da República Portuguesa foi trancafiada numa gaveta.
Não consigo estar nas tintas para a guerra das Estrelas tão desejada pelos EUA. Há tanto tempo! Desde o afundamendo do submarino Kursk (19/06/2002) e muito antes disso.
E, também não consigo ficar indiferente, ao facto de saber que, como nunca soubemos porque "se afundou" o Kursk, da mesma forma nunca vamos saber quem matou Anna Politkóvskaya .
Não me estou nas tintas para a queda vertiginosa da imagem dos professores e do ensino no nosso país e, do facto de os homens de amanhã terem cada vez menos exemplos de honra, lealdade e solidariedade.
Não me estou nas tintas para o aumento inflacionário dos bens essenciais, para o aumento de impostos, para a sensação de impunidade que por aí anda e para a maldade na deturpação do que se desconhece e devia ser preservado - a verdade.
Não consigo estar-me nas tintas para as bombas de fragmentação utilizadas contra as populações em Israel ou no Líbano ou onde quer que seja.
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Não me posso estar nas tintas quando, todos os dias, começando por este cantinho à beira mar plantado, tantas crianças ficam em silêncio porque ninguém as olha nos olhos, ou as observa com atenção, a ponto de descobrir a violência de que são vítimas.
Não me posso estar nas tintas para a fome que vai num Mundo que se diz Globalizado.
Não me consigo estar nas tintas para o ignorar de direitos que devem ser de todos porque, se os outros tiverem os mesmos Direitos que eu, eu nunca perderei os meus.
É tramado este estado de alma aqui! ( Desculpem-me o desabafo.)
E fico-me por aqui...Porque este estado de alma, trava-me a capacidade de pensar no que quer que seja mais...Este obriga-me a acordar e a pensar que não me posso estar mesmo nas tintas para nada do que disse supra, e não disse, e há para dizer.
Nem como mãe. Nem como filha. Nem como mulher. Nem como cidadã.
E muito menos como Juiz.
Desculpem-me o desabafo e o nada para dizer.
ACCB