Cabelo penteado com gel, sapatos de ténis, blusão vermelho, Pereira Coutinho chega atrasado ao café Esplanada do moderníssimo casino Wynn. Desfaz-se em desculpas: vem da marcha da caridade organizada pelo "Ou Mun", o velho jornal comunista de Macau, que juntou mais de 40 mil pessoas na tradicional colecta para o Fundo Beneficência destinado aos seus leitores. O telemóvel não pára de tocar, a que responde em português ou inglês, cantonense ou mandarim.
Tal como os chineses adoptam um nome ocidental - caso do Chefe de Executivo, Ho Hau Wah, a que acrescentou Edmund - também Coutinho arranjou um nome chinês: Gao Tian Ci, que foi buscar a um muito popular imperador.
Um dos líderes de uma oposição incómoda
Nascido em Macau há 52 anos, filho de pais goeses, José Maria Pereira Coutinho vai tirando do bolso vários cartões, todos eles trilingues: membro do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública, deputado à Assembleia Legislativa. Tudo cargos a que acedeu por eleição directa, como faz questão de sublinhar, com orgulho.
Há quem lhe chame demagogo, outros não apreciam o estilo sindicalista, mas é inegável que Coutinho tem todas as características de líder. E que se preparou para o ser, cursando Direito na Universidade de Macau, "mas com professores de Coimbra", e estudando mandarim, incluindo em Pequim.
Há dez anos, não passava de mais um dirigente da associação dos funcionários públicos. Hoje, é um dos mais populares e mediáticos políticos da RAEM, partilhando com o democrata Ng Kuok Cheong a liderança do pequeno mas aguerrido e incómodo grupo de deputados da oposição - quatro num total de 29. Mas se Cheong acedeu ao parlamento em 1992, ainda no tempo português, e chefia os três deputados na Associação Novo Macau Democrático, Coutinho só lá está desde 2005 e sozinho.
Num território onde não são permitidos partidos (à excepção, claro, do Partido Comunista da China), a sua associação, Nova Esperança, concorreu pela primeira vez às eleições em 2001, sem eleger ninguém. Em 2005, porém, dobrou a votação, dez mil votos, e Coutinho passou a ser "o único deputado português eleito", como faz questão de se apresentar.
Um parlamento muito pouco democrático
A Assembleia Legislativa resulta de um sistema híbrido e muito pouco democrático - em todo o caso, desenhado pela administração portuguesa: sete deputados nomeados pelo chefe do governo, dez eleitos de forma indirecta (pelas associações, corporações e outros lóbbies) e só 12 eleitos directamente pelo povo.
Coutinho é não apenas o único português eleito, como o único que não tem nacionalidade chinesa. Com efeito, o outro deputado de origem portuguesa, o influente advogado Leonel Alves, foi eleito por via indirecta e adoptou a nacionalidade chinesa. E enquanto Coutinho tem vindo a reforçar o seu protagonismo parlamentar, Alves foi despromovido, deixando de ser o primeiro secretário da Assembleia, preterido por Chui Sai Cheong, irmão mais velho do futuro chefe do Executivo e eleito pelo mesmo sistema.
Nas eleições de Setembro passado, a Nova Esperança subiu a votação em cerca de 30% e ficou com o segundo deputado à vista: a macaense Rita Santos. A base social é muito mais vasta que a lusófona. "Todos as macaenses e portugueses somados, e elevados ao cubo, não chegariam para eleger um deputado". No hemiciclo, as suas intervenções de fundo "são sempre em português".
O único que não votou na eleição de Chui Sai On
Ao contrário de Leonel Alves e outros macaenses, ou até do português Neto Valente, recusa-se a tomar a nacionalidade chinesa: "Só por cima do meu cadáver". Na recente eleição para o Chefe do Executivo - a cargo de um colégio de 300 membros, criteriosamente seleccionados, como convém -, "fui o único que não votei". Explica: "O boletim de voto não previa o voto contra. E eu queria votar contra, Chui Sai On não era o meu candidato".
O balanço dos dez anos é demolidor: "Vivemos num reino de fartura em tempo de crise. Mas isto não vai durar muito". Apesar dos "cofres superlotados", fala de "má governação". "O fosso entre ricos e pobres é cada vez maior, vivemos numa sociedade de medo e coacção". Quanto à corrupção, o caso de Ao Man Long, o secretário dos Transportes e Obras Públicas, "é apenas a ponta de um enorme iceberg".
O juiz que condenou o governante corrupto...
O escândalo Ao Man Long marcou indelevelmente a gestão de Edmund Ho e a primeira década chinesa. Acusado de 70 crimes (corrupção, branqueamento de capitais, enriquecimento injustificado, que lhe renderam pelo menos 80 milhões e euros), foi condenado a 28 anos e meio de prisão (a pena máxima é de 30).
Membro do governo desde a transição, foi julgado pelo Tribunal de Última Instância, que desempenha as funções de supremo. Formado por três juízes, um deles é Viriato Lima - o português que ocupa o cargo mais elevado na hierarquia da RAEM.
De 55 anos, natural de Moscavide, veio para Macau há 16. O seu gabinete, num moderno edifício com vista para o rio das Pérolas e para a Taipa, está atulhado de livros, códigos e processos. A conversa decorre no mais frequentado dos restaurantes portugueses, o "Fernando", em Coloane, à volta de bacalhau assado e queijo da Ilha. Viriato Lima tem um perfil oposto ao do deputado macaense. Discreto, tímido, mede todas as palavras. Como quase todos os "metropolitanos" que para aqui vieram, não fala chinês.
... e o líder da tríade "14 Quilates"
A vida de Viriato Lima melhorou substancialmente desde há dez anos. Basta dizer que deixou de andar com guarda-costas, já que entretanto terminou o julgamento em que foi um dos juízes do processo Pang Nga Koi, o líder da tríade mafiosa mais activa em Macau, a "14 Quilates". Condenado a 15 anos de prisão, está a cumprir pena na cadeia de Coloane.
Viriato Lima tem visto o seu contrato de dois anos renovado sem qualquer problema. "Nunca esperei que as autoridades da RAEM quisessem ter juízes portugueses durante tanto tempo". Elogia Edmund Ho, que "teve um papel importante na protecção da comunidade portuguesa, tal como o poder central" em Pequim.
O balanço que faz é diferente do de Pereira Coutinho. "A situação económica melhorou manifestamente, bem como a segurança". Aspectos negativos também os há: "Mais trânsito, mais poluição, mais pessoas num território tão pequeno, menos qualidade de vida". E quanto à qualidade da governação chinesa? O juiz é cauteloso e lacónico: "Não sei se é melhor ou pior que a portuguesa. É diferente".