Paulo Gorjão
merece palmas: debater os currículos de Rangel e Passos Coelho é, apesar de pouco interessante, provavelmente o que menos vontade dá de bocejar no meio da contenda. Mas é também inútil, porque o resultado é auto-evidente
. Agora que estou quase a bocejar de novo, permitam-me que tente manter-me acordado deixando aqui umas notas exclusivamente sobre os livros Mudar (Passos Coelho) e O estado do Estado (Rangel), que li.
Rangel: Em quase 200 páginas - e no meio de referências a gente menor como Montesquieu, Maquiavel, Dworkin ou Dahl -, fala do surgimento histórico do Estado, de como ele se enquadra nas duas concepções de democracia (de valores, com primazia para a Constituição, para a separação de poderes, rule of law e afins; ou de procedimentos, em que a vontade da maioria se sobrepõe a regras pré-estabelecidas) e de como a globalização deslocaliza os seus poderes.
O Estado deve, diz, adaptar-se a um novo contexto, em que depende de empresas multinacionais ("responsáveis por 70% do comércio mundial ou por 80% do investimento") e em que perdeu soberania para outras entidades políticas. No caso português a União Europeia, cujo "défice democrático" significa meramente "que ela não é uma democracia deliberativa ou sequer processual"; porque, entenda-se, ela é "uma democracia de valores, material, com tribunais nacionais e próprios para garantir a esfera de liberdades".
Passos Coelho: Também em coisa de 200 páginas, escreve sobre a necessidade de "ser positivo" e "não ter medo da mudança". Esse medo é ultrapassado, acertaram, aderindo a um "movimento de esperança" (o que encabeça), que "aponte por entre a dispersão ou pior, por entre a cegueira e a falta de horizontes". Muito imaginativo, acrescenta que é "necessário ir construindo o caminho à medida que se vai caminhando".
"Todos nós olhamos o presente com grande apreensão", mas "Portugal tem, sem dúvida alguma, inúmeros potenciais" e "há força no seio da sociedade portuguesa para contrariar estas tendências". Que tendências? Olhem, a de que "a nossa produtividade cresceu bem atrás das nossas ilusões" foi uma delas. "Não é um caminho fácil" o que se avizinha e "as reformas a empreender já não são uma opção, são uma necessidade imposta pela realidade". É então necessário "melhorar a eficiência" na educação, na saúde (que, atentem, "não é meramente o contrário de estar doente") e na Segurança Social, "agilizar a Justiça", atrair investimento externo e apoiar a exportação.