Tudo corre muito melhor na vida do Deddy. Quando o conheci as coisas não estavam bem. O tsunami tinha-lhe entrado pela casa e destruído os postais que eram, na altura, a sua fonte de rendimento. O Deddy ia pelas pensões de Sorake a tentar a vender o que restava dos postais aos turistas. Eles olhavam para os postais do Deddy e não viam postais, viam farrapos de fotografias, borrões de lama, papéis corroídos pelo salitre. E não compravam.
Deddy estava, portanto, desempregado. Na altura, em Outubro de 2005, defini o meu amigo, nestas páginas da Revista Única, da seguinte forma: "É um miúdo esperto, este Deddy. Fala um inglês quase perfeito, que aprendeu conversando com os surfistas de passagem. O Deddy vive numa cadeira de rodas, teve poliomielite quando tinha 2 anos, sorri sempre e vende postais. Eis uma vida resumida."
Felizmente o Deddy já não precisa de vender postais. Trabalha há um ano e meio como operador de rádio na delegação local da Cruz Vermelha Espanhola. Tem um bom salário. Com o primeiro ordenado comprou umas próteses - acho que se chamam assim - que encaixam nas pernas mortas que carrega no corpo. Quando caminha, apoiado nas muletas, parece que as pernas também caminham. Usa muito menos a cadeira de rodas. Sorri muito mais.
A vida corre melhor em muitos aspectos, mas uma coisa manteve-se tragicamente inalterada: o Deddy já não pode fazer surf. O terramoto que atingiu a ilha de Nias, poucos meses depois do tsunami, levantou o fundo do mar cerca de um metro. Parece uma imagem da ficção científica apocalíptica americana: um extraterrestre, um Godzilla, um King Kong, que caminham pela cidade e cada passo destrói um quarteirão, abre fendas no asfalto, espreme e ergue o solo como uma crosta de massa folhada.
Antes do terramoto, uma língua de areia separava a marginal de Sorake da linha da maré, do princípio do mar. O Deddy podia arrastar-se até à água através da areia e depois remar em cima da prancha. Quando o terramoto levantou a placa terrestre, colocou o banco de coral à superfície. Antes, o banco de coral estava a um metro de profundidade - quando terminava a areia, começava um universo líquido onde tudo se torna mais leve e flutuante, até mesmo duas pernas mortas penduradas da cintura para baixo. Agora, o coral está a descoberto. Para chegar ao mar, é preciso atravessar um campo de lâminas expostas. Um faquir consegue. Um surfista com botas de borracha consegue. Um pescador com sandálias também. O Deddy é que já não.
O surf é uma bênção da vida na Terra. Praticado há mais de mil anos pela realeza havaiana, descoberto para a Europa pelo capitão Cook, proibido pelos missionários durante o século XIX, mas reabilitado a partir dos anos 20 do século passado, o surf não pára de crescer em popularidade. A razão é simples: deslizar na energia da onda é um dos momentos mais felizes da existência humana.
Lembro-me claramente do dia que mudou a minha vida. Não sei quando foi, porque passaram já quase trinta anos. Sei que foi no início do Verão de 1981 na Figueira da Foz. A primeira vez que entrei no mar com uma prancha e desci uma onda. Não era ainda surf, pois demora meses a aprender a estar em pé. Desci a onda deitado. Mas foi suficiente para mudar a minha vida. Desde então, nunca mais deixei de surfar: é a principal linha condutora do meu percurso existencial, a minha paixão mais coerente, uma prioridade intemporal. O Deddy deve sentir o mesmo.