Quando na cabeça de todos a comunicação social e os jornalistas se parecem dividir entre os que fazem favores a José Sócrates e os que organizam cabalas contra José Sócrates, temo que as próximas linhas pareçam chegadas de Marte.
Aquilo de que quero falar é da decisão do "Jornal de Notícias" de não publicar o artigo de opinião de Mário Crespo. De um ponto de vista, veja-se bem, editorial e deontológico.
Antes de mais, para que fique claro, sou contra a publicação de conversas privadas, mesmo que elas aconteçam num restaurante. Não quero um Big Brother nas nossas vidas, mesmo que ele tenha carteira profissional. Depois, é bom que se saiba que os jornais são criminal e civilmente solidários com o que cada colunista decida escrever. Podem por isso optar por não publicar um texto de opinião. No entanto, essa decisão é sempre de enorme gravidade e tem de ser ponderada com muito cuidado.
Por fim, é especialmente arriscada a publicação de conversas privadas que chegaram a quem as divulga em segunda mão. Com o enorme risco de imprecisões e erros. Pior ainda: sem que os que participam na conversa possam exercer o direito à sua defesa, já que o autor do texto não os confrontou com essa informação.
Assim, o "Jornal de Notícias" podia ter decidido não publicar o texto de Mário Crespo com base no princípio de defesa da privacidade e das regras do jornalismo. Tal decisão seria, no entanto, invulgar, já que se tratava de um texto de opinião e não de um trabalho jornalístico. Mais: para tal decisão ser tomada, ela teria de corresponder a regras que fossem seguidas de forma escrupulosa pelo jornal. Não é o caso. O "JN" já tornou públicas conversas privadas e até o conteúdo de cartas anónimas. Ou seja, o "JN" exigiu a um colunista externo o que nem sempre exige na sua própria casa.
Acresce que no caso em apreço o autor da conversa era também o motivo da conversa, o que muda um pouco as coisas e lhe dava especial legitimidade para a tornar pública. Apesar de a ter recebido em segunda mão, Mário Crespo garante ter-se socorrido de várias fontes, o que, apesar de tudo, deveria dar alguma segurança ao jornal que o contratou. E a responsabilidade moral da denúncia acabaria sempre por ser de Mário Crespo.
Cabia ao jornal alertar o colunista para os riscos deste texto - que são muitos, tratando-se de um testemunho indirecto -, como o fez, esperar pela sua decisão e, caso ela fosse a de manter a publicação, fazer o seu trabalho: numa peça à parte ouvir os envolvidos, tratando a denúncia de Mário Crespo como foi tratada hoje pela comunicação social. Como uma qualquer notícia.
Não o tendo feito, e tendo preferido optar pela não publicação sem qualquer outro esforço adicional, é inevitável a suspeita de que o seu comportamento se deveu apenas ao facto do alvo da denúncia ser o primeiro-ministro.
Se dúvidas podem surgir sobre o método utilizado por Mário Crespo para revelar uma conversa que não ouviu, elas tornam-se irrelevantes perante o facto do jornal onde Crespo escrevia ter sido mais rigoroso do que é seu costume no respeito pela privacidade alheia; e mais rápido na censura do que no trabalho de descobrir a verdade.