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De PEC em PEC até à derrota final

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 4 de março de 2010

O grande problema das finanças públicas não é o excesso de despesa ou a falta de receita. As finanças públicas são uma questão de credo.

A inflação sente-se, a crise dói, a desvalorização da moeda tem impacto, mas o descontrolo das nossas despesas não tem um rosto. E, tal como na fábula de "Pedro e o Lobo", quando vozes alertam para o facto de caminharmos para uma "morte lenta", já ninguém acredita. E ainda há quem diga que existe vida além do défice. Pois existe, mas é muito má...

Para tal contribui a incompetência dos políticos. Enquanto oposição, são os primeiros a criticar a falta de coragem para tomar medidas efectivas. Como Governo, pensam nos votos e remedeiam com políticas avulsas que apenas tapam o problema.

Por muitos Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC) que sejam apresentados, o que conta no final são as medidas estruturais que são implementadas. O PEC é uma espécie de documento de marketing para fazer sorrir Bruxelas. A vassoura perfeita para varrer todos os problemas para debaixo do tapete.

O Estado é só uma parte do problema. Ao endividamento galopante da Administração Pública temos de somar o endividamento externo das empresas e do sector bancário e o facto de, no ano passado, terem crescido os três juntos 77 milhões por dia. Este, o da banca, é inclusive superior ao da Grécia (ver pág. 10).

Trocando tudo por miúdos, andámos a viver muito acima daquilo que podíamos pagar. Desde o início dos anos 70 alcançámos verdadeiros triunfos em termos de desenvolvimento do país e cometemos excessos pelo caminho. Excessos que se reflectem no nosso nível de vida que está num patamar muito além das nossas possibilidades.

Para resolver estes problemas há três hipóteses com probabilidades diferentes de concretização.

1 - Esperar que a economia comece rapidamente a crescer na ordem dos 4 por cento ao ano. Cenário altamente improvável.

2 - Haver uma consciência colectiva de políticos e cidadãos quanto à necessidade de mudança e que gradualmente se adeqúe o modo de vida à capacidade de gerar riqueza. Implica poupar, poupar, poupar e poupar. O melhor cenário mas com uma probabilidade reduzida.

3 - Apresentar um PEC bonitinho, tomar medidas pontuais e ineficazes e deixar que o próximo feche a porta, apague a luz e coloque o sinal out of business. Cenário com a maior probabilidade.

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010

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