Parecerá um tanto estranho que, a uma semana de celebrarmos trinta e cinco anos do 25 de Abril, venha citar Edmund Burke, mas a verdade também é que não consegui reencontrar a sua frase que agora frequentemente recordo. Escreveu algures o radical crítico da Revolução Francesa uma daquelas curtas sínteses que passam à História, sublinhando que a liberdade não consegue sobreviver muito tempo no meio da corrupção. Compreender-se-á porque vêm à memória tais palavras.
Na Assembleia da República, Ricardo Pinheiro, alto funcionário do BPN, revelou que, dois dias antes das diligências da 'Operação Furacão' naquele banco, os responsáveis ordenaram o envio para Cabo Verde, para o tal Banco Insular, de toda a sua documentação relativa a offshores e outras escusas operações. Dois contentores de dossiês cujo apressado enchimento envolveu mais de duas dezenas de funcionários.
Recorde-se que a 'Operação Furacão' foi desencadeada em Março de 2004 a partir de informações das autoridades britânicas sobre a existência em Inglaterra de várias "empresas de vão de escada" cuja única actividade era a emissão de falsas facturas para empresas portuguesas e subsequente recebimento e encaminhamento de vultuosas quantias assim desviadas em Portugal ao fisco. Após primeiro aprofundamento, a investigação transitou para o DCIAP em Janeiro de 2005 e apenas entre 17 e 24 de Outubro se realizaram as buscas iniciais (noventa e duas), entre as quais, no dia 20, a primeira no BPN.
Sendo evidente que a administração de Oliveira Costa teve conhecimento antecipado, não será assim fatal que o aviso signifique uma fuga de informação: as primeiras diligências noutras empresas podem ter feito soar o sinal de alarme. Mas o que já não deixa de ser estranho é que, considerando o gigantismo da 'Operação Furacão' (terabytes de material informático, dezenas de milhar de documentos apreendidos) e mesmo tomando em conta a sua complexidade, tendo as investigações durado mais de dois anos (novas diligências foram realizadas entre Dezembro de 2007 e Junho de 2008), tenha sido precisa a crise actual para que a real situação do BPN aparecesse. Da 'Furacão' não resultaram elementos que, pelo menos, indiciassem a vastidão da fraude?
Claro que perguntas deste género se podem repetir quase quotidianamente. Aparentemente, a administração de então dos CTT também não se apercebeu de que, numa bela manhã de 2003, vendeu a um offshore um seu prédio em Coimbra que, pela tarde, era vendido por mais cinco milhões! Tal como, de resto, o Banco Espírito Santos também não se apercebeu, à tarde, que estava a dar 20 milhões de euros por uma coisa que tinha sido transaccionada, de manhã, por quinze...
Anda toda a gente à procura dos cinco milhões deste extraordinário lucro, parecendo que de um milhão já se encontrou o rasto: um papelinho apreendido em casa do ex-vereador socialista do município coimbrão reza "Amigos dos CTT - sem recibo - um milhão de euros".
Como é que uma pessoa não se há de lembrar do aviso da reflexão de Edmund Burke?