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David Bankier (1947-2010)

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 13 de março de 2010

O académico era uma autoridade mundial num dos aspectos mais perturbadores da história do extermínio dos judeus europeus: a colaboração activa do cidadão alemão comum.

David Bankier, que morreu em Jerusalém, onde vivia desde novo - a seguir à Guerra dos Seis Dias decidira com outros rapazes judeus da América Latina instalar-se em Israel -, após quatro anos de luta tenaz contra o cancro, indo até à véspera da sua morte no sábado passado ao trabalho no Centro de Investigação do Holocausto de Yad Vashem, do qual dirigia o Instituto de Estudos Internacionais, nascera em Zeckendorf na Alemanha Ocidental dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial e um ano antes da criação do Estado de Israel e emigrara para a Argentina aos cinco anos com os pais, casal ashkenazi sobrevivente do Holocausto, tendo depois em Israel seguido carreira académica, tornando-se reconhecida autoridade mundial num dos aspectos mais perturbadores - e por muitos anos quase esquecido - da história do extermínio dos judeus europeus, sobretudo da Europa Central e Oriental, entre meados dos anos trinta do século passado e 1945, por inspiração e sob a direcção de Adolf Hitler e da sua corte de ideólogos, funcionários públicos zelosos e oportunistas, polícias e militares especializados e alguns entusiastas civis.

A faceta dessa história a que Bankier dedicou toda uma vida de investigação e divulgação está bem reflectida nos títulos de dois livros que, entre outros, publicou: "Os Alemães e a Solução Final: a Opinião Pública sob o Nazismo" e "Hitler, o Holocausto e a Sociedade Alemã: Cooperação e Conhecimento". Até aos seus trabalhos, a noção convencional espalhada entre estudiosos nos Estados Unidos, na Alemanha e no resto da Europa, bem como no público em geral, era de que o Holocausto e o seu cortejo de horrores tinham sido, da concepção à execução, fruto das mentes dementes de Hitler e dos seus sequazes do Partido Nacional Socialista e que o povo alemão, na sua generalidade, não só mal se apercebera do que se passava mas também certamente não colaborara com os nazis em tal e tanta barbaridade. Depois de Bankier ter começado a publicar resultados da sua investigação exaustiva, o quadro mudou. Começou a perceber-se que já nos anos trinta o cidadão alemão comum, o homem da rua, sabia muito melhor do que se preferira julgar depois da Alemanha se ter rendido incondicionalmente em 1945 da perseguição dos judeus e do que lhes acontecia depois de terem desaparecido dos lugares onde tinham nascido e vivido no convívio dos seus outros (e arianos) compatriotas. E também que muitos destes, bem para lá dos membros da Gestapo e das Waffen SS, tinham voluntariamente participado, quando a ocasião se lhes oferecera, na prática brutal da caça ao judeu, às vezes seu vizinho, seu companheiro de tertúlia de café ou de claque de futebol.

Outros historiadores, mais conhecidos, seguiram a mesma via nos Estados Unidos, mas os especialistas continuam a reconhecer o papel seminal de David Bankier que alumiou ainda mais aspectos dessa passagem abissal da história europeia.

Para ele, a visão anti-semita, em que os judeus representam as forças do mal, misteriosas e míticas, havia sido guindada pela retórica de Hitler a combate absoluto da raça ariana para salvar o mundo de doutrinas judaico-cristãs-marxistas e feito do Holocausto uma manifestação única do mal absoluto, pondo à prova o entendimento de moralistas e filósofos e sacudindo a consciência da humanidade. (No século XVIII, o terramoto de Lisboa de 1755 levantara em muitas mentes questões semelhantes).

Por outro lado, a tolerância, às vezes entusiástica e cúmplice, das suas atrocidades mostrada por tanta gente distante da oratória e das razões de Hitler - por exemplo, na União Soviética ocupada - torna o Holocausto comparável a outros crimes colectivos. A repulsa moral que ele suscitou é um dos alicerces éticos onde assentam condenações de tentativas de extermínio no mundo de hoje, com o seu macabro gradiente de limpeza étnica a genocídio. Sombrio e rigoroso, David Bankier, divorciado e pai de três filhos, ajudou-nos a entender melhor estas coisas..

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

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