Em dias como estes, sinto-me um pouco como esse treinador. Está a decorrer um jogo na Assembleia da República, mas de onde estou sentado não o consigo ver. Vão-me chegando uns ecos da bancada: tweets, posts, notícias... Mas não tenho a visão completa. Logo à noite, alguém na televisão me dirá quem ganhou. Serão mostrados os golos, alguns lances de falta, falhanços de baliza aberta. Mas não é a mesma coisa que ver o jogo em directo, até porque a política não sendo exactamente como o futebol, o veredicto não será nunca inequívoco.
Agora reparem: se eu, que tenho um interesse acima da média em política, e tenho uma multiplicidade de canais de informação ao meu dispôr, sou incapaz de ter uma ideia clara sobre o que se está a passar num dos debates mais importantes da legislatura, qual será o grau de esclarecimento real da generalidade da população sobre o que se vai passando na vida política nacional? Pois: baixo, muito baixo.
Esta constatação não serve de prelúdio a uma lamentação ritual sobre a falta de consciência cívica dos portugueses. Pelo contrário: ainda bem que o País não pára enquanto o Parlamento debate. Para isso é que elegemos deputados: para que eles tratem dos nossos assuntos comuns enquanto cada um de nós vai tratando da sua vida. Da política acompanhamos o que quisermos, se quisermos, e quando quisermos. É também isto a liberdade democrática: nada a obstar.
O problema que se coloca, apesar de tudo, é como assegurar que as percepções que chegam aos cidadãos - o tal ruído das bancadas que vai informando o treinador do que se passa em campo - sejam o mais possível congruentes com o que realmente está em causa no debate político. Esse é um dos desafios maiores dos políticos e dos jornalistas: estar à altura dele exige um grau de profissionalismo, de tecnicidade e de rigor bastante superior ao que é corrente encontrar em qualquer uma das classes em Portugal. A renovação da política e a reaproximação aos cidadãos passa muito, muito por aqui.