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Da nódoa ao pântano

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 19 de fevereiro de 2010

Há seis anos, José Sócrates considerou uma "nódoa" no Governo de Santana Lopes e um ataque inadmissível à liberdade de expressão as pressões de um ministro que resultaram no afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. Hoje, está confrontado com uma nódoa bem mais difícil de limpar do que a do Governo de Santana Lopes: a denúncia de uma manobra de grande envergadura para controlo de vários órgãos de informação, ensaiada pelos seus homens de mão - e, segundo todos os indícios, com o seu alto patrocínio. O que lhe resta é refugiar-se em protestos pelo modo como esse plano veio a lume, evitando responder à substância daquelas que são as mais graves suspeitas jamais lançadas sobre um primeiro-ministro na sua relação com os media.

O argumento de que o "Sol" violou o segredo de Justiça - não é certo que o tenha feito, a avaliar pelos pareceres desencontrados já conhecidos - pode servir como expediente de fuga a explicações. Mas não retira o óbvio interesse público da matéria em causa, o qual legitima perfeitamente a corajosa opção editorial de a dar à estampa, assumindo todos os riscos inerentes. Aliás, as violações do segredo de Justiça não nascem nos jornais. E é deveras lamentável que uma Justiça tão lesta a mandar calar o "Sol" - e tão incompetente que nem foi capaz de o fazer... -, nunca se tenha dado ao trabalho, em nenhum caso de violação do segredo, de apurar onde foi dado o primeiro passo para esse crime que, por definição e natureza, só pode nascer na própria Justiça.

O trabalho do "Sol" confirma as piores suspeitas levantadas pela frustrada compra de parte da Média Capital pela PT, em Junho do ano passado, e acrescenta novas dúvidas sobre o verdadeiro papel da Ongoing no processo de aquisição ainda em curso. O conhecimento das "escutas" permite também não só avaliar o desempenho das várias personagens envolvidas - incluindo o de uma ou outra 'vítima' -, mas também formular um juízo acerca dos operadores judiciários que intervieram no caso. E o mínimo que se pode dizer é que, por irrepreensíveis que sejam do ponto de vista formal, são mais estranhas para o cidadão comum as conclusões a que chegaram o procurador-geral da República e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça do que as consequências que retiraram o procurador e o juiz de Aveiro ao defenderem a abertura de um inquérito. Ora, uma Justiça que toma, ao mais alto nível, decisões incompreensíveis para os cidadãos em nome dos quais opera, não é uma Justiça à altura das suas responsabilidades. Ou não o são os titulares desses cargos de cúpula que, além de assinarem decisões juridicamente inatacáveis, têm a obrigação de as saber comunicar e explicar devidamente.

No plano político, o caso teria consequências drásticas - Santana Lopes saiu de cena por muito menos -, se não vivêssemos uma situação muito peculiar. A legitimidade eleitoral de Sócrates é demasiado recente para ser posta em causa, a situação do país não lhe permite somar à crise económica uma prolongada crise política e, além disso, nada garante que, em caso de eleições, os resultados fossem muito diferentes dos de há quatro meses. A menos que o próprio Sócrates tomasse a iniciativa de sair - decisão improvável e pela qual, ironicamente, também seria criticado - o que temos pela frente é um primeiro-ministro cada vez mais fragilizado e uma oposição sem coragem para o derrubar. Quer dizer, aquilo a que Guterres chamaria o verdadeiro pântano.

Rangel, "o desejado"

Talvez para melhor avaliar até que ponto seria de facto 'o desejado', Paulo Rangel jurou repetidas vezes que estava em Bruxelas de pedra e cal para cumprir o mandato de deputado europeu. Ainda há pouco atribuía as notícias sobre a sua eventual candidatura a simples intriga política e na quarta-feira, quando os rumores de que avançaria já estavam ao rubro, disse que só anunciaria a sua decisão, fosse ela qual fosse, no Conselho Nacional do PSD. Por uma questão de elegância para com os seus pares ou, dizia ele, porque "faz parte das regras".

Aparentemente, as regras existem para serem violadas quando convém, pelo que Paulo Rangel se declarou candidato dois dias antes do tal Conselho Nacional. Só para se antecipar a outro concorrente: Aguiar Branco, o ex-ministro de que ele, Rangel, foi em tempos secretário de Estado e, segundo rezam as crónicas, muito próximo, se não amigo. Não sendo crível - nem desejável - que o líder do maior partido da oposição esteja em Bruxelas, caso Rangel ganhe o PSD também o compromisso de levar o mandato até ao fim será para esquecer.

Tudo isto nos diz alguma coisa do candidato quanto ao respeito por regras e compromissos e quanto ao valor que atribui à sua palavra pública. Mas pior que tudo foi o palco e as circunstâncias que escolheu para promover a sua candidatura 'redentora'. Num momento em que a imagem externa do seu país está altamente degradada, Rangel não encontrou melhor forma de se fazer ouvir em Lisboa do que pedir a palavra em Estrasburgo para... dizer mal de Portugal. Os termos desprimorosos com que se referiu ao seu país num momento em que o próprio Presidente da República punha todos os seus esforços na tentativa de corrigir as declarações aziagas de um comissário europeu com falta de senso, Rangel fez de Almunia. E denegriu um pouco mais a imagem do país fora de portas só para que a sua candidatura tivesse mais impacto. Não é exactamente aquilo que se espera de um político que se propõe liderar o maior partido da oposição e, consequentemente, candidatar-se a primeiro-ministro.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

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Discordo!!!
Brilhantina (seguir utilizador), 2 pontos , 23:08 | Sexta feira, 19 de fevereiro de 2010
Com premissas especulativas, não factuais, Fernando Madrinha consegue tirar conclusões absolutas, verdadeiras.
Não são as conclusões que tira, depois de fazer um exercício tendencioso portanto afectado, que determinam a qualidade da crónica.
  O que determina de facto a falta de racionalidade do texto, mais propriamente a falta de qualidade, é o facto Fernando Madrinha tomar como dados adquiridos, verdades absolutas, as especulações que há sobre o caso que versa para assim poder alicerçar a conclusão que ele mais gosta.
Neste texto, Fernando Madrinha fez um autêntico exercício de demonstração de como se especula.
Fernando Madrinha auto-satisfez-se com o que escreveu, não sei se o fez com a mão direita ou com a mão esquerda porque este tipo de particularidades não me interessam, mas que mostra alguma satisfação com o que fez isso mostra.
 
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    Re: Discordo!!!    Ver comentário
Penso, logo existo! (seguir utilizador), 1 ponto , 20:13 | Sábado, 20 de fevereiro de 2010
    Concordo plenamente consigo mas...    Ver comentário
Brilhantina (seguir utilizador), 2 pontos , 20:21 | Sábado, 20 de fevereiro de 2010
    Re: Concordo plenamente consigo mas...    Ver comentário
Penso, logo existo! (seguir utilizador), 1 ponto , 0:04 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
O MEDO DE PERDE DO PR E DAS OPOSIÇÕES
PIANINHO (seguir utilizador), 2 pontos , 20:02 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
É claramente simples a diferença entre Sócrates versus Santana, é que este foi uma escolha de Durão
Barroso e os portugueses assim o entenderam, não foi a votos, as suas trapalhadas foram à vista de todos, não houve escutas, nem os informadores pídescos encomendados pela CS, golpadas no Segredo de Justiça a contas gotas a comprometerem-no, ele próprio,auto flagelou-se.

Por outro lado, SANTANA candidatou-se contra Sócrates e perdeu . O que é que Sampaio teve haver com a maior derrota de sempre do PPD/PSD com Santana como candidato a PM., ou não foi o povo que deu maioria absoluta nas urnas ao PS ? As eleições não foram livres ?

A SANTA ALIANÇA (PSD,CDS,BE,PCP e Verdes) com tantos apoios para destabilizar a governação, e tão crentes da sua razão, só tem um caminho a seguir, é apresentarem uma MOÇÃO DE CENSURA na AR e deixem-se de tretas, custa mais caro país a destabilização contínua que eles e vocês os jornalistas, comentadores, PR e acólitos do que a ida às urnas.

Mas, pelos vistos, o MEDO tomou conta deles PR e partidos e então fazem estas chicanas políticas, com a ajuda da grande maioria dos órgãos de comunicação social, mas nem assim acreditam na vitória.

Tenham coragem, escolham, dêem voz ao povo, vamos votar de novo para que a DEMOCRACIA se exerça outra vez, até se calarem de vez, com tantas especulações, o que só demonstra que querem ganhar na secretaria e não com as regras que a lei impões, que é ELEIÇÕES.

 
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Concordo
userEX166048 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:55 | Sexta feira, 19 de fevereiro de 2010
Concordo. Mas não é para manifestar a minha concordância, que aqui escrevo.Leio os artigos de Fernando Madrinha, há muito tempo. Há que fazer justiça. Durante a ditadura socratica, e esse periodo negro em que os jornais e muitos jornalistas, assobiaram para o lado. Finjindo que tudo estava bem, e comprando as camisinhas novas que compunham com as gravatinhas de ceda, e a laca no cabelo. Fernando Madrinha, consegui sempre escrever com independencia. Resistiu a essa nublosa jornalistica. Agora, que parece que todos despertaram, há que salientar que alguns nunca dormiram. Fernando Madrinha é um grande exemplo. Os meus mais sinceros agradecimentos. Devemos de ser criticos quando necessário, mas também louvar, os que merecem.
 
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A nódoa e o pano ou a pantanal nódoa
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 19:16 | Sexta feira, 19 de fevereiro de 2010
Dizia-se que no melhor pano cai a nódoa, mas isto era no tempo dos meus pais e avós, a modernidade mudou isto tudo e agora é o pano que é uma nódoa pegada. Mas, mau grado a mancha que cobre Portugal, ninguém tem coragem para fazer a Sócrates o que Sampaio fez a Lopes e, não deixo de pensar nisto, que diabo de apoios tem o PS que poderes o sustentam para condicionar quem, deveria no exercício das suas competências, demitir, dissolver e ter mão nisto tudo. É evidente que grande o número de casos envolvendo o PM, um já seria, demasiado, para um responsável desta natureza, provoca na comunicação social uma onda de notícias, mas isso não deve ser motivo para a controlar e limitar a liberdade de expressão. A Cova da Beira, a licenciatura, o Freeport, os projectos das casas na Guarda e a Face oculta, não foram casos inventados pelos jornalistas, a transcrição das escutas pode ser um crime de violação de segredo de justiça, mas o que os envolvidos não conseguem negar é que a voz é deles, foram eles os percurssores da notícia, quem se prestou a praticar actos imorais ou ilegais.
 
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Bom artigo!
Runaldinho (seguir utilizador), 1 ponto , 19:48 | Sexta feira, 19 de fevereiro de 2010
Excelente artigo de Fernando Madrinha!
A legitimidade do Primeiro Ministro é a mesma que tinha no dia seguinte ás eleições, até porque não é lícito que o PS perca as eleições em nova contenda!
As razões que movem o Presidente para o não afastamento de Sócrates, tem pura e simplesmente a ver com a sua recandidatura a novo mandato.
Sampaio jamais ousaria fazer o que fez com Santana, se não estivesse de saída!
 
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Passos Coelho&Aguiar Branco:Mudar&Unir Portugal2
SIULUX (seguir utilizador), 1 ponto , 5:39 | Segunda feira, 22 de fevereiro de 2010
Haja decoro e respeite-se a nação portuguesa no seu todo!
Espero que Passos Coelho e Aguiar Branca sejam capazes de abdicar de orgulhos trouxas e mudar realmente a " mentalidade " tacanha, mesquinha, egoísta e miserável do lusitano para que Portugal deixe de ser " definitivamente " um país adiado!

Os milhões de portugueses da diáspora, muitos deles homens e mulheres de sucesso e de reconhecido mérito " são a prova cabal de que matéria prima Portugal até tem, mas fracos vícios também!

Há que eliminar de vez e sem piedade as " atitudes " gangrenosas, porque o futuro não espera por nós e os credores também não!

Por mim, só ficarei feliz e me calarei, quando Portugal for o desígnio de nação que sempre sonhei: uma pátria de homens e de mulheres felizes e a terra de um povo próspero e orgulhoso da sua História e da sua gesta, capaz de ombrear com os mais dignos e mais corajosos e generoso bastante para continuar a ser referência de humanismo no mundo !
 
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Passos Coelho&Aguiar Branco:Mudar&Unir Portugal1
SIULUX (seguir utilizador), 1 ponto , 5:40 | Segunda feira, 22 de fevereiro de 2010
Não sei se é inédito na democracia portuguesa, mas o " tandem " Passos Coelho e Aguiar Branco pode ser a chave do sucesso do PSD e de Portugal.

O primeiro será carismático, como o foi Sá Carneiro e outro mais pragmático. Unidos pelo sangue e " leais " até à morte poderiam revolucionar a política portuguesa e mudar de vez a " cultura " parasita e imperialista que caracteriza os " calhordas " que se armam em chicos-espertos e julgam que ser " inteligente " é viver à custa dos outros.

Chegou a hora de " acabar " com a idiotice do seguidismo partidário e da política da terra queimada: ninguém é senhor da razão absoluta nem tampouco detentor da ciência infusa!
Em todos os partidos há homens honestos e inteligentes e esses, juntos e unidos, nunca serão bastantes para fazer frente aos " band " e " golden " boys " que passam a vida a saquear o erário público e a viver à grande e à francesa à custa do povo miserável que dizem servir!

Os salários de alguns, como se descobriu, são um atentado à decência e à dignidade de quem passou a vida a trabalhar de sol a sol para agora, às portas da velhice, se ver expoliado dos seus direitos.
 
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Relatório Tuga - afinal é em 2ª mão...porque...
relatoriotuga (seguir utilizador), 1 ponto , 10:59 | Terça feira, 23 de fevereiro de 2010
Perante os factos e argumentos de FM, não há rectórica que resista... (em tom de ironia), podia tentar marcar a diferença analisando os factos mantendo a distância e imparcialidade... mas para que? É preferivel entrar no saco dos comentaristas-opinadores-velhos do restelo...

Já quanto a Rangel, só pelo facto dos acontecimentos provocados por este senhor no parlamento europeu (os cidadãos elegeram-no para defender o país, não para ajudar a enterrar...) merece o meu repudio como possivel candidato a PM... Isto para não falar das tristes intervenções a que nos habituou como lider de bancada do PSD... Aguiar Branco... idem-idem " " no que diz respeito às intervenções na AR...

Já Passos Coelho, será ainda mais atacado como lider do PSD do que Socrates como PM... não esquecer que tem os amiguinhos todos metidos até ao pescoço nos negócios com o sucateiro...

Posto isto, não me parece que será desta que o PSD terá um lider forte e à altura do desafio de ser PM...

Conclusão: lá teremos que aturar o déspota mais uns aninhos...
 
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