Há seis anos, José Sócrates considerou uma "nódoa" no Governo de Santana Lopes e um ataque inadmissível à liberdade de expressão as pressões de um ministro que resultaram no afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. Hoje, está confrontado com uma nódoa bem mais difícil de limpar do que a do Governo de Santana Lopes: a denúncia de uma manobra de grande envergadura para controlo de vários órgãos de informação, ensaiada pelos seus homens de mão - e, segundo todos os indícios, com o seu alto patrocínio. O que lhe resta é refugiar-se em protestos pelo modo como esse plano veio a lume, evitando responder à substância daquelas que são as mais graves suspeitas jamais lançadas sobre um primeiro-ministro na sua relação com os media.
O argumento de que o "Sol" violou o segredo de Justiça - não é certo que o tenha feito, a avaliar pelos pareceres desencontrados já conhecidos - pode servir como expediente de fuga a explicações. Mas não retira o óbvio interesse público da matéria em causa, o qual legitima perfeitamente a corajosa opção editorial de a dar à estampa, assumindo todos os riscos inerentes. Aliás, as violações do segredo de Justiça não nascem nos jornais. E é deveras lamentável que uma Justiça tão lesta a mandar calar o "Sol" - e tão incompetente que nem foi capaz de o fazer... -, nunca se tenha dado ao trabalho, em nenhum caso de violação do segredo, de apurar onde foi dado o primeiro passo para esse crime que, por definição e natureza, só pode nascer na própria Justiça.
O trabalho do "Sol" confirma as piores suspeitas levantadas pela frustrada compra de parte da Média Capital pela PT, em Junho do ano passado, e acrescenta novas dúvidas sobre o verdadeiro papel da Ongoing no processo de aquisição ainda em curso. O conhecimento das "escutas" permite também não só avaliar o desempenho das várias personagens envolvidas - incluindo o de uma ou outra 'vítima' -, mas também formular um juízo acerca dos operadores judiciários que intervieram no caso. E o mínimo que se pode dizer é que, por irrepreensíveis que sejam do ponto de vista formal, são mais estranhas para o cidadão comum as conclusões a que chegaram o procurador-geral da República e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça do que as consequências que retiraram o procurador e o juiz de Aveiro ao defenderem a abertura de um inquérito. Ora, uma Justiça que toma, ao mais alto nível, decisões incompreensíveis para os cidadãos em nome dos quais opera, não é uma Justiça à altura das suas responsabilidades. Ou não o são os titulares desses cargos de cúpula que, além de assinarem decisões juridicamente inatacáveis, têm a obrigação de as saber comunicar e explicar devidamente.
No plano político, o caso teria consequências drásticas - Santana Lopes saiu de cena por muito menos -, se não vivêssemos uma situação muito peculiar. A legitimidade eleitoral de Sócrates é demasiado recente para ser posta em causa, a situação do país não lhe permite somar à crise económica uma prolongada crise política e, além disso, nada garante que, em caso de eleições, os resultados fossem muito diferentes dos de há quatro meses. A menos que o próprio Sócrates tomasse a iniciativa de sair - decisão improvável e pela qual, ironicamente, também seria criticado - o que temos pela frente é um primeiro-ministro cada vez mais fragilizado e uma oposição sem coragem para o derrubar. Quer dizer, aquilo a que Guterres chamaria o verdadeiro pântano.
Rangel, "o desejado"
Talvez para melhor avaliar até que ponto seria de facto 'o desejado', Paulo Rangel jurou repetidas vezes que estava em Bruxelas de pedra e cal para cumprir o mandato de deputado europeu. Ainda há pouco atribuía as notícias sobre a sua eventual candidatura a simples intriga política e na quarta-feira, quando os rumores de que avançaria já estavam ao rubro, disse que só anunciaria a sua decisão, fosse ela qual fosse, no Conselho Nacional do PSD. Por uma questão de elegância para com os seus pares ou, dizia ele, porque "faz parte das regras".
Aparentemente, as regras existem para serem violadas quando convém, pelo que Paulo Rangel se declarou candidato dois dias antes do tal Conselho Nacional. Só para se antecipar a outro concorrente: Aguiar Branco, o ex-ministro de que ele, Rangel, foi em tempos secretário de Estado e, segundo rezam as crónicas, muito próximo, se não amigo. Não sendo crível - nem desejável - que o líder do maior partido da oposição esteja em Bruxelas, caso Rangel ganhe o PSD também o compromisso de levar o mandato até ao fim será para esquecer.
Tudo isto nos diz alguma coisa do candidato quanto ao respeito por regras e compromissos e quanto ao valor que atribui à sua palavra pública. Mas pior que tudo foi o palco e as circunstâncias que escolheu para promover a sua candidatura 'redentora'. Num momento em que a imagem externa do seu país está altamente degradada, Rangel não encontrou melhor forma de se fazer ouvir em Lisboa do que pedir a palavra em Estrasburgo para... dizer mal de Portugal. Os termos desprimorosos com que se referiu ao seu país num momento em que o próprio Presidente da República punha todos os seus esforços na tentativa de corrigir as declarações aziagas de um comissário europeu com falta de senso, Rangel fez de Almunia. E denegriu um pouco mais a imagem do país fora de portas só para que a sua candidatura tivesse mais impacto. Não é exactamente aquilo que se espera de um político que se propõe liderar o maior partido da oposição e, consequentemente, candidatar-se a primeiro-ministro.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010