Onde o nosso Comendador desmascara a grande conspiração que vai pelo país e que faz crer aos incautos, mas não a ele, que Portugal tem um Governo, embora este já tenha acabado há tempos.
O Governo, camaradas, é um cadáver adiado! Se eu o escrevesse assim, os meus caros leitores diriam: lá está um poeta, um lírico a falar, ainda para mais a tentar deitar um Governo legítimo abaixo. Mas eu não o direi assim, embora, no essencial, o poeta que há dentro de cada um de nós esteja certo. O Governo - há que dizê-lo sem medo de que o primeiro-ministro fale disso num restaurante, ou que um senhor que lhe chama chefe nos maldiga ao telefone - já acabou. Doravante isto é uma mascarada, até porque começou o Carnaval.
De agora em diante, vai governar Bruxelas. Os tipos, lá do alto daquele edifício esquisito, o Berlaymont, também conhecido por Berlaymonstre, dizem assim: "Menos gastos com as pensões!" E cá em Lisboa aparece um senhor qualquer que, lavado em lágrimas e jurando jamais ter tido a menor intenção de o fazer, corta em mais um tanto as pensões. Depois, os senhores do Berlaymonstre dizem assim: "Isto só lá vai com um acordo parlamentar". E então o Professor Cavaco diz ao Parlamento: "Ouviram o senhor de Bruxelas?" - e os senhores do Parlamento fazem um acordo. E por aí fora, como no tempo em que os espanhóis ou os ingleses se instalaram no nosso poder, mas em vez de estarem cá mandam mails do Berlaymonstre e recordam que o chefe lá da coisa é português, o senhor José Barroso, que a gente conhece por Durão e que também chora por nós - "ai que desgraça!" -, esquecendo-se que o actual Governo existe porque o dele fugiu para lá, depois de o anterior ter fugido para os Refugiados! Sim, meus senhores! Devemos ser o único país civilizado onde um primeiro-ministro prefere passar os dias num campo de refugiados do que no Palácio de São Bento e edifícios limítrofes.
Por isso, daqui para a frente, o Governo do senhor José Sócrates, ou, melhor, do Professor Teixeira dos Santos, elogiado aliás pelo não menos Professor Cavaco Silva, só existe nominalmente. Não manda!
Perguntareis: se já não manda, por que motivo estranho ainda chamamos primeiro-ministro ao senhor José Sócrates? Porque nos habituámos e não há outro a quem chamar - eis a minha resposta. Mas já não chamamos com convicção, essa ficou abalada... chamaremos, vá lá, com a mesma convicção com que as pessoas lhe chamam engenheiro - pouca!
Por outro lado, o primeiro-ministro (hummm!) não pode ser substituído porque não pode haver eleições. E, mesmo que houvesse, o próximo seria tão primeiro-ministro como este, a obedecer ao Berlaymonstre e ao FMI, porque eu há pouco esqueci-me de que o FMI é sempre uma possibilidade. O próximo primeiro-ministro pode mesmo - e, ó portugueses, não desdenhem a nossa capacidade de errar! - ser pior do que o actual.
Enfim, seja como for, é por isso que eu quero desmascarar o actual Governo e é por isso que se eu fosse poeta gritaria que este Governo, "mais do que a besta sadia, é cadáver adiado que procria", como disse Fernando Pessoa de D. Sebastião, que só era Desejado antes de sabermos que ele era um tonto que deitou tudo a perder.
Enfim, portugueses, entreguemo-nos ao Berlaymonstre como sempre nos demos aos estrangeiros. Com a alegria de quem sabe receber, a trautear o 'Abril em Portugal' e mostrando as nossas capacidades hospitaleiras.
Pode, até, ser a nossa sorte!
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA
Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010