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Da existência de coisas, como o Governo, que já acabaram mas continuam mascaradas

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 20 de fevereiro de 2010

Onde o nosso Comendador desmascara a grande conspiração que vai pelo país e que faz crer aos incautos, mas não a ele, que Portugal tem um Governo, embora este já tenha acabado há tempos.

O Governo, camaradas, é um cadáver adiado! Se eu o escrevesse assim, os meus caros leitores diriam: lá está um poeta, um lírico a falar, ainda para mais a tentar deitar um Governo legítimo abaixo. Mas eu não o direi assim, embora, no essencial, o poeta que há dentro de cada um de nós esteja certo. O Governo - há que dizê-lo sem medo de que o primeiro-ministro fale disso num restaurante, ou que um senhor que lhe chama chefe nos maldiga ao telefone - já acabou. Doravante isto é uma mascarada, até porque começou o Carnaval.

De agora em diante, vai governar Bruxelas. Os tipos, lá do alto daquele edifício esquisito, o Berlaymont, também conhecido por Berlaymonstre, dizem assim: "Menos gastos com as pensões!" E cá em Lisboa aparece um senhor qualquer que, lavado em lágrimas e jurando jamais ter tido a menor intenção de o fazer, corta em mais um tanto as pensões. Depois, os senhores do Berlaymonstre dizem assim: "Isto só lá vai com um acordo parlamentar". E então o Professor Cavaco diz ao Parlamento: "Ouviram o senhor de Bruxelas?" - e os senhores do Parlamento fazem um acordo. E por aí fora, como no tempo em que os espanhóis ou os ingleses se instalaram no nosso poder, mas em vez de estarem cá mandam mails do Berlaymonstre e recordam que o chefe lá da coisa é português, o senhor José Barroso, que a gente conhece por Durão e que também chora por nós - "ai que desgraça!" -, esquecendo-se que o actual Governo existe porque o dele fugiu para lá, depois de o anterior ter fugido para os Refugiados! Sim, meus senhores! Devemos ser o único país civilizado onde um primeiro-ministro prefere passar os dias num campo de refugiados do que no Palácio de São Bento e edifícios limítrofes.

Por isso, daqui para a frente, o Governo do senhor José Sócrates, ou, melhor, do Professor Teixeira dos Santos, elogiado aliás pelo não menos Professor Cavaco Silva, só existe nominalmente. Não manda!

Perguntareis: se já não manda, por que motivo estranho ainda chamamos primeiro-ministro ao senhor José Sócrates? Porque nos habituámos e não há outro a quem chamar - eis a minha resposta. Mas já não chamamos com convicção, essa ficou abalada... chamaremos, vá lá, com a mesma convicção com que as pessoas lhe chamam engenheiro - pouca!

Por outro lado, o primeiro-ministro (hummm!) não pode ser substituído porque não pode haver eleições. E, mesmo que houvesse, o próximo seria tão primeiro-ministro como este, a obedecer ao Berlaymonstre e ao FMI, porque eu há pouco esqueci-me de que o FMI é sempre uma possibilidade. O próximo primeiro-ministro pode mesmo - e, ó portugueses, não desdenhem a nossa capacidade de errar! - ser pior do que o actual.

Enfim, seja como for, é por isso que eu quero desmascarar o actual Governo e é por isso que se eu fosse poeta gritaria que este Governo, "mais do que a besta sadia, é cadáver adiado que procria", como disse Fernando Pessoa de D. Sebastião, que só era Desejado antes de sabermos que ele era um tonto que deitou tudo a perder.

Enfim, portugueses, entreguemo-nos ao Berlaymonstre como sempre nos demos aos estrangeiros. Com a alegria de quem sabe receber, a trautear o 'Abril em Portugal' e mostrando as nossas capacidades hospitaleiras.

Pode, até, ser a nossa sorte!

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010

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Com Mais Convicção, por Certo
Jonatas (seguir utilizador), 1 ponto , 0:21 | Sábado, 20 de fevereiro de 2010
Mais um excelente texto do Comendador, pleno de humor e inteligência.

Se soubesse quem ele é, era capaz de votar nele para primeiro-ministro ou mesmo para engenheiro, com toda a convicção.
 
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A desgraça do Comendador...e a nossa.
impertinente (seguir utilizador), 1 ponto , 16:34 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
Já reparou senhor Comendador, que as suas cartas são abertas mas praticamente ninguém as lê. Isto é, ninguém as comenta. Desde ontem o Comendador tem 1 só comentador.
Compare com o H.Raposo. Ele suscita dúzias e dúzias de comentários. Porquê? Respondo: porque ele fala a sério.
Assim desencadeia paixões, insultam-no, aplaudem-no (pouco), o diabo a sete. Consigo é esta desgraça.
Porquê? porque o comendador quer ter graça e os tempos não vão para graças. Por isso a sua graça, comendador, é a sua desgraça como comentador.
É que ouvi dizer, e parece que é verdade, que na Grécia já há dificuldade para abastecer o carro de gasolina. Ora no ranking dos aflitos nós estamos logo a seguir aos gregos.
Veja lá, senhor comentador, os tempos não estão para humorismo. Repare: onde estaríamos nós se não tivéssemos desde há cinco anos um génio, um grande chefe, a governar?
 
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    No humor não se bate...nem com impertinência    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:59 | Terça feira, 23 de fevereiro de 2010
Excelente sr. Comendador...
Fernando Torres (seguir utilizador), 1 ponto , 23:59 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
Consegue..brincando.."relatar" situações sérias..
Situações sérias que os responsaveis pelas mesmas levam a brincar..
 
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Máscaras
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 14:56 | Terça feira, 23 de fevereiro de 2010
Gostei muito do seu artigo!
Apesar de não transmitir boas notícias, traz uma lufada de ar fresco ao que se lê por aí.
A verdade e a visão lógica, às vezes, fazem doer a alma mas são muito mais proveitosas do que o embuste cor-de-rosa.
Bem-haja
 
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