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Da ETA à "Mariposa"

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 12 de março de 2010

Durante décadas a ETA foi notícia por causa do seu terrorismo. Este terrorismo assassinou centenas de pessoas e intimidou a sociedade basca. Hoje em dia a ETA é notícia por causa dos sucessos da Guarda Civil e dos serviços de informações de Espanha nas operações de contraterrorismo.

Os últimos meses têm sido péssimos para a organização terrorista basca. O número de detenções de chefes e operacionais da ETA dentro e fora de Espanha é cada vez maior. As bases logísticas na Catalunha e Portugal foram descobertas e desmanteladas. A colaboração dos terroristas bascos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e membros das forças armadas e do Governo da Venezuela foi exposta por um juiz espanhol. A ETA sobreviverá de uma forma ou de outra. A sua sobrevivência não conseguirá, todavia, esconder o falhanço político do terrorismo nacionalista.

Se olharmos para o terrorismo levado a cabo pela Al-Qaeda e os seus aliados, chegamos à mesma conclusão. No Golfo Pérsico, Médio Oriente e no Norte de África, a ideologia e o terrorismo takfiri que ameaçou varrer o mundo muçulmano após o 11 de Setembro está a perder em toda a linha. Ninguém tem assassinado tantos muçulmanos nas cidades árabes como a Al-Qaeda. A condenação social e religiosa de Osama bin Laden e os seus aliados é cada vez mais visível no mundo islâmico. As sociedades árabes estão a sufocar os takfiri. Não é por isso que este terrorismo vai acabar, é verdade. Mas o que é verdadeiramente significativo do ponto de vista estratégico é que o projecto ideológico, religioso e político da Al-Qaeda falhou completamente.

O terrorismo não vai acabar mas a famosa idade do terror, inaugurada a 11 de Setembro, está a chegar ao fim. Em vez da desejada e insistentemente anunciada fragmentação e anarquia, os últimos dez anos foram caracterizados por uma coisa muito diferente e surpreendente - a integração económica a nível internacional. Em vez de parar e descarrilar, a globalização acelerou após o 11 de Setembro. O resultado desta poderosa tendência tem sido uma crescente complexidade no sistema económico e financeiro internacional.

Os sistemas complexos tendem a ser extremamente vulneráveis a acontecimentos considerados pouco prováveis ou mesmo impensáveis. A crise financeira de 2007/2008 é o melhor exemplo da enorme dificuldade em compreender, gerir e controlar um sistema complexo numa situação de ruptura. "Too Big to Fail", de Andrew Ross Sorkin (Londres: Allen Lane, 2009), e "On the Brink", de Hank Paulson (Londres: Headline, 2010), são livros obrigatórios para termos uma ideia do caos, das incertezas, da rapidez com que acontecimentos considerados impensáveis se sucederam e, finalmente, das enormes pressões geradas pela crise junto dos decisores políticos e financeiros.

A complexidade é uma das maiores fragilidades da globalização e dos pilares económicos e financeiros que a suportam. Veja-se o caso da rede 'Mariposa', desmantelada recentemente em Espanha. Esta rede de cibercrime explorou uma série de vulnerabilidades no programa Internet Explorer e apoderou-se dos dados confidenciais de centenas de milhares de pessoas para roubar dinheiro e causar danos financeiros.

A 'Mariposa' mostra coisas importantes. Mostra que o cibercrime económico é um problema muito sério para os governos, empresas e indivíduos. Mostra também que a maior parte destas actividades está a ser levada a cabo por grupos bastante pequenos. O número de grupos envolvidos neste tipo de actividades está a explodir. Finalmente, a 'Mariposa' mostra que estes grupos podem vir a colocar em risco os sistemas financeiros e económicos dos países mais integrados na globalização.

O terrorismo não conseguiu destruir ou perturbar a globalização nos últimos dez anos. O casamento da complexidade tecnológica das nossas sociedades com a actual insegurança electrónica pode ter um resultado diferente.

Iraque


O Iraque, um país crucial do ponto de vista geopolítico e energético, terá novas eleições parlamentares amanhã. Este facto explica o interesse de países como o Irão, Arábia Saudita, Turquia e EUA nestas eleições. A manipulação política de Nouri al-Maliki contra a aliança liderada pelo ex-primeiro-ministro Iyad Allawi é o melhor exemplo do choque destes interesses. O que promete ser decisivo para o futuro do Iraque é a taxa de participação nas eleições e o tempo necessário para formar um novo governo.


NÚMERO
10 anos depois do 11 de Setembro, o terrorismo falhou. A idade do terror deu lugar à idade da integração. A complexidade que rodeia a integração é uma vulnerabilidade importante. O fim da 'Mariposa' chama-nos a atenção para o cibercrime.
SOLUÇÕES
+ A visita de Jim Steinberg, nº 2 do Departamento de Estado dos EUA, e Jeff Bader (Conselho Nacional de Segurança) à China esta semana
- A prioridade de Obama é a política interna, tem cada vez menos tempo para a política externa

Miguel Monjardino  

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

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