Não surpreende - porque nada nele surpreende - que Chávez tenha vindo acusar os EUA de estarem a ocupar militarmente o Haiti. Já espanta um pouco que os seus amigos em Portugal não tenham uma breve palavra de condenação dos seus dislates. Mais espantoso é que os franceses tenham afinado pelo mesmo diapasão, através do seu ministro para os assuntos humanitários, um senhor que responde pelo nome de Alain Joyandet.
A França, antiga potência colonial, devia agradecer às Forças Armadas do Brasil, ao serviço da ONU e aos próprios militares americanos o facto de, bem ou mal, terem prontamente feito o que podiam. Mas o Eliseu, apesar de mudar de inquilinos, mantém como constante uma sólida desconfiança das célebres 'ambições imperialistas' americanas, mesmo quando na Casa Branca está aquele que é (foi?) a esperança da Europa, Barack Obama. Paris não se comove com mudanças e lança culpas para cima do país do costume.
Um pouco mais de seriedade ficaria bem a este grande país europeu, que ao invés de disparar críticas deveria ter sido o grande impulsionador da ajuda europeia.
De resto, o que se passa no Haiti é, uma vez mais e infelizmente, a prova de que a comunidade internacional é ainda muito incipiente quando se trata de agir. Ao contrário da grandes retóricas, quase ninguém parece confiar em ninguém. Em breve Port-au-Prince será esquecido, como o foi sempre o Haiti. Salvo quando, como em 1801, os seus habitantes pensaram que a célebre liberdade e igualdade da Revolução Francesa também se aplicava a eles. Mas Paris, a Europa e os EUA trataram de lembrar-lhes que há coisas que não são para ex-escravos.
Justiça para Santana
Entendamo-nos: o facto de muita gente achar que Santana Lopes foi mau governante não pode servir para criticar a condecoração que recebeu esta semana.
A democracia tem regras. Uma delas é reconhecer o esforço dos seus legítimos servidores. Ainda que os cidadãos preferissem outra pessoa e outro modelo.
Orçamento
Já toda a gente percebeu de que forma vai passar o Orçamento do Estado: com a abstenção do PSD e, provavelmente, com votação idêntica do CDS.
Mal o Parlamento fica sem maioria, refaz-se o chamado 'arco governativo'. Sem uma esquerda que queira governar, resta ao PS escolher qual a direita que privilegia. E esta, em nome da pátria, vê-se obrigada a alinhar.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010