CAR: já viste a crónica do Bénard?
A: vi e até li.
CAR: e então?
A: bem, aquela de se escudar na raiz etimológica de "laico" não é para levar a sério.
CAR: mas laicu não quer mesmo dizer apenas que se não é eclesiástico religioso?
A: fazes aquelas boquinhas à francês quando dizes "laicu", sabias?
CAR: não desconverses...
A: bem, quem sou eu para desautorizar o Bénard? Conto-te um episódio. Teria talvez uns 17 aninhos, andava a anilhar a passarada no Paúl do Boquilobo e na roda de amigos, ao serão, alguém diz: "o Sebastião já sabe quase tanto de cinema como o Bénard". O Sebastião era um conhecido nosso, jovem intelectual que chegava a frequentar as tertúlias da Natália Correia e era um cinéfilo do caraças. Vês? "Quase tanto como o Bénard..." Se o Bénard diz que é assim, é assim.
CAR: então?
A: ora, as palavras evoluem, pá. Achas que é com esse sentido que se diz que a República é laica? Ou que o Soares se diz laico? Bem, fiquemos pelo primeiro exemplo...
CAR: sobra a matriz.
A: aí pões o dedo na ferida.
CAR: não me referia às chagas...
A: seguramente que não. Mas as chagas, as quinas na bandeira, os sete feriados com conotação católica, o nome "palácio de Belém", etc. são apenas uma enumeração que serve o mesmo argumento: o da matriz católica.
CAR: e não é um argumento válido?
A: o Bénard entusiasma-se um pouco e a certa altura parece querer dizer que retirar o crucifixo nos impedirá de compreender os Lusíadas...
CAR: isso é caricatural, raios! Ele diz que a religião católica é parte da nossa cultura e que não a podemos branquear do catolicismo.
A: caricatural? O argumento do Bénard é essencialmente reaccionário. Desmonta-se facilmente com bom senso. Mais: que impacto tem a coisa, afinal? Nas secundárias que frequentei já não havia crucifixos. E recordo-te que não cresci em Marrocos. Quantos crucifixos haverá nas escolas públicas? Fez-se um censo?
CAR: mas não te parece essencial preservar a matriz? E não achas que se abre um precedente grave?
A: Imagina que as salas de aula tinham sido arquitectadas como as plantas das igrejas e catedrais, em cruz latina.
CAR: sim, e daí?
A: a sala de aula seria como que o próprio crucifixo, certo?
CAR: Vais dizer que faria sentido deitar as secundárias abaixo, terraplenar e construir de novo?
A: não, estou a dizer-te precisamente o contrário, que seria absurdo fazê-lo. Mas um crucifixo é essencialmente um objecto portátil.
CAR: continuo sem perceber.
A: é da natureza do crucifixo não ficar muito tempo no mesmo lugar. Um crucifixo pendura-se na parede, não é um baixo-relevo. Retira-se e volta-se a pendurar...
CAR: que disparate...
A: ... deixa-me acabar. Os católicos só estão preocupados com o simbolismo desta medida, mais nada. Mas depois da retirada do crucifixo ninguém vai exigir do Estado que ponha tapumes nas fachadas das catedrais. Ou que anule os feriados. Ah, no exemplo dos feriados o Bénard foi espertalhão e merece uma chapelada.
CAR: mas qual é o critério, então?
A: bom senso, meu amigo. O cimento que nos une e evita polarizar as discussões para lá dos limites da razão
CAR: continuo sem perceber.
A: deixa-me dizer-te algo que te tranquilizará.
CAR: ...
A: nós sempre precisaremos dos católicos. Gostamos deles. Todas as outras confissões religiosas - parece que há setenta e tal em Portugal- são folclore aos olhos de um ateu lusitano.
CAR: e demonstram isso exigindo a retirada dos crucifixos!
A: Repara: um ateu sabe que precisa de um nível basal de catolicismo. Um ateu que queira educar os seus filhos, precisa dos exemplos da religão católica. Dos seus maus exemplos, nomeadamente. Mas também de explicar o que a religião oferece, se tiver alguma abertura de espírito. E um ateu diz "abertura de espírito" sabendo o que está a dizer. Um ateu não troca forçosamente o "adeus" por "ciao".
CAR: acho que não estamos a falar dos mesmos ateus.
A: há fanáticos por todo o lado. Mas, como te dizia, as palavras evoluem ou são adoptadas à falta de melhor definição. O drama de quem não vê razões para acreditar na existência de um Deus é saber que só o definem por oposição aos que são crentes. Ele vê nisso uma falha e até uma injustiça, porque lhe parece que a sua condição é a inicial, a mais natural, em contraste com a religião, que seria uma construção subsequente e a precisar de fundamento. Mas ele compreende também que cresceu marcado pelo seu tempo e que a sua matriz é essencialmente religiosa. Aprendeu a aceitá-lo, sob perigo de se desagregar.
CAR: isso não tranquiliza sequer um católico progressista. O que virá a seguir ao crucifixo?
A: nada. É como te digo. O ateu acomodou-se e tem um papel sobretudo reactivo, tirando as franjas dos fanáticos. Ele sabe que varrer a religião é criar um vácuo que será ocupado por outra religião. Um esforço inútil, portanto. Porque as religiões estão desenhadas para seduzir as pessoas e ser-se ateu, na verdade, é um caminho de penitência. Vês? Eu estou completamente enredado na matriz. Afundado na matriz. Bénard: descontrai.