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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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11:59 Sexta-feira, 22 de Jan de 2010
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O que pode motivar indivíduos com cultura, educação superior, e recursos financeiros, a cometer actos de criminalidade massiva, e dizer que esse é o fundamento da sua crença ou ideologia, ou religião?
internet google
Enquanto recebiamos os auscultadores para seguir a guia pelo Vaticano, um colega disse em italiano que ela levaria um casal de muçulmanos! Ouvi, e não gostei. Porque tenho de estar associada pelo nome a esse estigma social? Afinal, o Vaticano teria sido em tempos, o epicentro da Inquisição, da intolerância religiosa, e eu não estava nem um pouco preocupada com os católicos que me acompanhavam na visita, ou com os que me relaciono todos os dias. Porque pagam uns pelos outros?
Na verdade, quando falo como muçulmana, é para que se entenda que este é um mundo plural e diverso, e que é belo, por isso mesmo: pela diferença e singularidade da minha escrita. Não represento ninguém, nem posso responder pelos males no mundo. Procuro a Salaam, e revejo o Criador em tudo o que existe. No Alcorão Deus diz que "se sentia só e aborrecido, e por isso quis manifestar-se, através da criação". O Alcorão também diz: "para onde quer que olhes, aí encontras a Face de Deus". Assim, a minha "muçulmanidade" resume-se, mais ou menos, a isto: ao entendimento pacífico e ao respeito pela dignidade humana. E, sempre que possível, ao trabalho conjunto, com crentes e não crentes, no sentido da elevação da condição humana.
Seguindo esta filosofia tenho, tal como muitos dos que me lêm, uma enorme dificuldade em entender uma série de injustiças e incongruências no mundo, sobretudo nalgumas sociedades muçulmanas, marcadamente patriarcais e obsoletas. Tento, contudo, ler mais, informar-me melhor, e analisar com rigor académico e científico os fenómenos sociais.
O que pode motivar indivíduos com cultura, educação superior, e recursos financeiros, a cometer actos de criminalidade massiva, e dizer que essa é o fundamento da sua crença ou ideologia, ou religião? (Não sei porquê, mas de repente lembrei-me que Bush, Aznar, Blair e Barroso, também eles educados, etc., enveredaram por uma guerra que ainda não terminou. Chamaram-lhe "justa", e não "santa" - o objectivo é o mesmo: destruir, combater, matar; a finallidade é a mesma; o discurso usa outro vocabulário!) Mas, voltando aos muçulmanos, porque é esse que preocupa o Ocidente Cristão, o que motivará individuos jovens, aparentemente normais, à imolação e ao homicídio em massa?
A psicossociologia faculta ferramentas de análise interessantes e provávelmente válidas. Antes de mais, assume que a sociedade é pensante. Sugere que o individuo, na procura de um posicionamento social, organiza psicologicamente o mundo das representações e imagens. Constrói uma identidade social. Essa identidade é a forma de organizar o mundo que nos rodeia; de lhe dar sentido. Nesse processo, os valores, como os da justiça, ou paridade, guerra e paz, todos são importantes. E o facto é que vemos com frequência, paradoxos comportamentais ao nivel de quem nos governa: a bi-valência politica é um paradoxo. Somos hoje amigos de inimigos, negociamos com terrorristas, ou criminosos de ontem, que hoje estão no poder. Assistimos a guerras injustas, propriedades usurpadas, olhamos para mapas traçados pelo poder dominante; somos impotentes face a humilhações pornográficas filmadas ou fotografadas, e depois tornadas públicas (exs. Abu Ghraib; Guantanamo). Assistimos à impunidade de uns; resignamo-nos à pena de morte de outros. Mas, crime é crime, e deve ser punido! Não existe tal coisa como crime civilizado vs crime bárbaro!
Milhões de jovens e não jovens, muçulmanos e não muçulmanos, marcharam em contestação à guerra ao Iraque. Reconhecidos os erros, e os pedidos de desculpa, o mundo assiste ainda, à destruição e morte de vítimas inocentes; os perpretadores do caos vão passeando livremente, dando conferências internacionais pagas a preço de ouro, gerindo uma Europa islamofóbica, na impunidade que consentimos.
A juventude é particularmente permeável a ideologias políticas. Sem querer legitimar a criminalidade, sabemos que o jovem, na busca de autonomia e identidade, demonstra paixão pelos argumentos sobre justiça ou injustiça, o Bem e o Mal. Não espanta, por isso, que filhos de "gente boa" e "integrada", mesmo diplomatas, com educação superior, e dinheiro, se sintam motivados por ideologias subversivas. No caso de muçulmanos que enveredam pelo caminho do terrorrismo religioso, a ideologia que seguem assenta na leitura literalista e desinformada das escrituras sagradas. Em realidades de frustração ideológica e política, de ausência de educação sobre a antropologia das religiões nos curricula seculares, e experimentando a discriminação, parecida com a que senti à porta do Vaticano, está aberto o caminho para sociedades fracturantes.
As soluções que antevejo para sociedades deste tipo são 3: primeiro, as comunidades devem estar atentas perante qualquer propaganda religiosa. Segundo, precisamos de repensar a politica internacional bi-valente, incoerente e incongruente. E, finalmente, temos de abrir o horizonte da educação normal secular, que ocupa a maior parte do tempo útil dos jovens, incluindo nos curricula o saber sobre o islão e as sociedades muçulmanas, nas suas diversas dimensões civilizacionais; sem medos; sem dogmas; prevenindo o estigma.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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17:00 Terça-feira, 19 de Jan de 2010
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Vivemos e disseminamos hoje, cristãos e muçulmanos, um revivalismo religioso de uma outra espécie. Aquele que deixou ir embora a essência, e que prefere agora glorificar e adorar a forma.
Faranaz Keshavjee
Fui a Roma e visitei o Vaticano. Não vi o Papa. Gostava de ter tomado um chá com Bento XVI. Perguntar-lhe se já o tomou com muçulmanos. Isto é, se os conhece bem, se convive com eles...? Ou, se conhece as sociedades muçulmanas e o que dizem sobre a sua fé. Porque falar do respeito pelo ser humano e pelo imigrante, como fez na passada semana a propósito da lei italiana a vigorar a partir do próximo mês de Fevereiro, e lembrar que Jesus olhava para todos como seres humanos, é bonito e é verdade; e fica bem dizer. Mas melhor mesmo é conviver com eles, para se aprender sobre esse Outro, e respeitá-lo, integrando a sua diferença, deixando cair os preconceitos. Não é fácil. E não é fácil nem para os próprios muçulmanos. Os preconceitos devem ser desconstruidos na escola e na formação comunitária. É preciso trabalharmos neste sentido.
A visita ao Vaticano deixou memórias fabulosas, da riqueza e sumptuosidade, dos frescos de Miguel Ângelo e Rafael, da arte como projecção de poder, ou da arte como constestação desse mesmo poder e corrupção. Não se sai igual do Vaticano do que quando se lá entra.
Uma das questões que mais me inquietou foi o porquê de o Vaticano ter aberto as portas ao grande público há uns 20 anos atrás? Qual seria a sua agenda religiosa, politica ou cultural? No Reino Unido, a Rainha Elizabete II abriu as portas do Palácio de Buckingham em Londres numa altura de crise da monarquia - uma crise financeira e outra social. Vivia-se o momento pós- falecimento de Diana - a Rainha do Povo - a excomungada pela monarquia britânica. E o povo estava revoltado contra a instituição monárquica. Que crise, se é que existiu alguma, servira ao Vaticano para se dar a conhecer em todo o seu esplendor, riqueza e poder?
Esta mesma questão levou-me a reflectir sobre os revivalismos religiosos na contemporaneidade. Em toda a visita ao espaço de poder e monarquia papal, Jesus nunca apareceu! Bem, há umas imagens... mas o culto é ao seu representante: em "islamês" chamaríamos os seus califas, com estado e tudo, com leis próprias, etc, e com sabedoria religiosa e portanto, os papas são califas-ulama. E é daquele lugar santo para o cristão católico apostólico romano que saiem as leis que regem a vida religiosa e mundana do crente em qualquer parte do mundo. Encontro analogias interessantes com os ayatollahs, os mullahs, e os ulama - todos sacerdotes muçulmanos que acabam por influenciar o poder estadual de governos muçulmanos, mas localmente.
Para os que advogam a separação que a cristandade fez entre Estado e Igreja, o Vaticano representa um poder muito interessante no mundo católico, predominantemente europeu. De lá não se ditam as leis, mas sim a ética que orienta o crente, mesmo em contextos seculares. Recomendo a este respeito, um interessante estudo apresentado no Herald Tribune
sobre a forma como a Alemanha Cristã controla e subalterniza a mulher e o seu papel na sociedade há mais de 500 anos! Afinal, todos temos telhados de vidro...
Pelos corredores sumptuosos do Vaticano procurei o meu querido e amado Jesus. O místico e sufi, que se vestia de trapos de algodão e partilhava o seu pão com os que precisavam, e protegia e enaltecia a mulher, colocando-a a seu lado, em todas as circunstâncias da sua existência? Estava ali, pequenino, na cruz, no meio de santos e cardeais grandes e gordos, de colunas e pinturas, de ouros, de sacerdotes mumificados, e outras riquezas materiais.
Tal como o poder e a lei preponderam sobre um estado dentro de outro estado - o italiano - o poder papal e a sua centralidade assemelha-se àquilo que muçulmanos e não muçulmanos chamam de "Islam". O conceito aparece umas 7 vezes no alcorão, e Deus (Allah) umas centenas de vezes. Se os católicos se esqueceram de Jesus, o fundamento de uma grande fé civilizacional, os muçulmanos e o resto do mundo também se esqueceram de falar de Deus, ou Allah - a Luz que orienta o muçulmano na sua Jihad-e-Akbar - a batalha da busca do seu Eu mais profundo.
Vivemos e disseminamos hoje, cristãos e muçulmanos, um revivalismo religioso de uma outra espécie. Aquele que deixou ir embora a essência, e que prefere agora glorificar e adorar a forma.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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17:43 Segunda-feira, 4 de Jan de 2010
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A pequena história que relato fala da necessidade de olhar para os "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mais invisiveis. Faço votos de que 2010 seja de procura desse conhecimento que nos faz falta, mas também, e acima de tudo, o de construção, independentemente da crença, do respeito e da dignificação da condição da nossa humanidade comum.
fotos de luz - internet
Quando chegaram as férias de Natal, tivémos o tão desejado reencontro com os nossos amigos israelitas e seus filhos, aqui, em nossa casa. Temos uma grande amizade desde há 14 anos, altura em que iniciámos os nossos estudos para o doutoramento na Universidade de Cambridge. Eles ficaram por lá, nós regressámos ao nosso país. Sendo eles judeus e nós, muçulmanos xiitas ismailitas, trocámos presentes pelo Hannukah e pelo Dia do Imam, e também partilhámos do espírito geral português de celebração do nascimento de Jesus. Sendo judeus e muçulmanos europeus, se não fosse a celebração em redor do nascimento de Cristo, talvez não fosse possível o reencontro nesta altura do ano. A época evocava factos significativos das nossas identidades religiosas e a importância das tradições, da educação e dos valores no futuro das vidas dos nossos filhos. Para aqueles que costumam ler o meu blogue, saberão exactamente que, ao dizer isto, não pretendo de forma alguma, minimizar o importante papel que o Profeta Issa (Jesus) teve no entendimento e na formação da religião que pratico.
À medida que o Velho Ano fechava os seus dias, e sendo muçulmanos europeus, juntámo-nos aos nossos amigos e vizinhos do prédio para receber o Novo Ano. Integrámo-nos nas tradições comuns e enviámos a todos os nossos amigos, familiares e amados, os melhores votos para 2010. Através dos telemóveis e da internet ligámo-nos ao mundo, e o mundo estava ligado a nós, pelo pensamento, nos corações, e nas orações.
No entanto, talvez porque esteja mais exposta e seja mais desafiada a reflectir sobre as identidades conflictuosas e confusas, não posso deixar de sentir receio sobre o presente e o futuro das relações humanas, especialmente daquele que tem medo do Outro - do desconhecido, do menos vísivel, ou mediatizado, contudo real, e não necessáriamente demonizável. Para tornar este pensamento mais claro, vou usar o exemplo da história contada por Azim Nanji que encontrei num artigo inspirador
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"Alguns homens sábios que estão sentados numa praça, numa aprazível noite de verão, faziam o que os homens sábios fazem - partilhavam um tipo de sabedoria, ao mesmo tempo que tentavam resolver os problemas do mundo! Enquanto estavam sentados num banco, observavam uma jovem mulher que andava de um lado para o outro, parecendo que procurava algo que perdera. Não resistindo à curiosidade, perguntaram-lhe o que procurava e ela respondeu: 'perdi um brinco'. Perguntaram de novo: 'mas sabe exactamente onde o perdeu?'. 'Não, respondeu a mulher. Não sei onde o perdi'. Perplexos perante a resposta, os homens sábios questionaram de novo: ' Então porque procuras neste lugar apenas, andando de um lado para o outro?' E ela responde: ? Porque este é o único lugar onde existe um poste de iluminação'"
Nanji refere-se aos "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mas que existem, e para os quais também devemos olhar e conhecer. A esse desejo acrescentaria os votos de iluminação sobre a nossa humanidade comum, construída sobre a diferença. Dela retiramos a beleza e a riqueza das mundividências que foram moldando civilizações humanas e dando respostas variadas e criativas perante crises económicas, sociais, e desastres naturais. Que 2010 seja o início de um compromisso de construção, independemente da crença, de relações fundadas no respeito e na dignificação da nossa humanidade comum.
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| BLOGUE CRÓNICAS DE UMA MUÇULMANA |
Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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16:00 Domingo, 6 de Dez de 2009
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Numa Europa cada vez mais xenófoba e racista, urge colocar questões importantes.
unesco.org
O "medo do desconhecido"é o princípio da "Demonização do Outro". É disso que falo no Expresso de ontem. O medo da diferença desaparece quando se educa para a riqueza de uma coexistência pluralista. O artigo de Hugo Franco refere a precocidade do fenómeno. Esse outro é hoje, mais do que sempre, o muçulmano - os miúdos já não conhecem o árabe, mas entendem muito depressa o estigma do muçulmano. É o inimigo a abater.
Preocupa-me cada vez mais a Europa xenófoba e racista que resiste na ignorância sobre o outro. Portugal padece do mesmo mal. Não estou a exagerar; os comentários ao meu blogue reflectem o que afirmo.
A propósito destas questões, falei aos meus filhos sobre o holocausto, e contei a história d'"O menino do pijama às riscas"- o livro que passou a filme. Lembrei que tudo aconteceu há muito pouco tempo. Quando terminei, a minha filha, de 12 anos, achou a história triste demais; imprópria para a hora e a idade do irmão que tem 6; que podia trazer sonhos maus. Talvez tivesse razão. Era final de tarde. Mas depois, poderia esquecer, ou não dizer as coisas no tempo certo; ou pior ainda, achar que as guerras por causa das religiões em idade precoce, são "coisas de miúdos"...Tive de responder a muitas e pertinentes questões do meu filho. Sobre a crueldade dos humanos, e sobre se havia castigo para os maus. Se há paraíso e inferno... Confesso que fiquei cansada. Mesmo assim, achei que o exemplo poderia ajudar a recordar o que não devemos deixar acontecer de novo.
O Islão que tento ensinar é do tipo humanista e humanitário. Os livros de educação religiosa das nossas Madrassas, produzidos no Instituto de estudos Ismailis, em Londres, falam dessa unidade e coexistência cosmopolita.
Gostaria que os meus filhos crescessem numa secularidade que não estigmatiza quem tem fé, ou quem não tem. Faço os possiveis para os educar ao mais alto nivel, com os melhores instrumentos de aprendizagem, com a condição de um dia, no seu tempo e capacidades, poderem colocar-se ao serviço dos que mais precisam, com sabedoria, generosidade e humildade.
Numa Europa cada vez mais xenófoba e racista, urge colocar questões importantes. O que significa uma boa educação? Que ética e moral queremos passar sobre o Outro? Que princípios da cultura judaico-cristã, que formam a base da Constituição Europeia, servirão para os portugueses educarem os seus filhos? Que sociedade será a das próximas gerações? A quem cabe a responsabilidade de educar para o bem, e para o mal? É preciso pensar... é preciso ensinar o pluralismo
PS: Para os que dizem que não há igrejas no mundo muçulmano, ou a prática da fé cristã, vejam p.f. estas imagens
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Click to see the english version (versão inglesa)
*A Salaam significa paz
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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22:01 Quinta-feira, 19 de Nov de 2009
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As civilizações não se chocam. Elas encontram-se, fundem, combinam, conversam entre si, e evoluem. O que colide na sociedade humana são a indiferença e os excessos de poder; e na natureza humana, com ou sem religião, há alguns que padecem deste mal.
Mawlana Rumi
internet google
Não são as religiões a causa principal dos males da humanidade. É nos seus intérpretes que encontramos, absolutismos, lutas de poder, bipolarização entre bem e mal, "verdades" e "pecados", dominantes e dominados. Foi num contexto parecido que o Profeta Muhammad se cruzou e conversou com os cristãos excluidos que escolheram outros caminhos de amor e fé, fugindo de alguma ortodoxia cristã. Com eles organizou tertúlias, procurou a fé, a razão, a saída da ignorância. Os ensinamentos de Jesus transmitidos por estes cristãos arabizados moldaram o pensamento e a espiritualidade árabe e muçulmana de formas profundas e desconhecidas.
Mawlana Rumi
(séc XIII), por exemplo, um poeta sufi mundialmente conhecido, escreveu vários poemas sobre Jesus. Dizem que numa igreja cristã em Shiraz, no Irão, um verso de Rumi cravado em pedra, sobre a porta de entrada, diz o seguinte:
Onde Jesus vive, as pessoas de grande coração congregam.
Somos uma porta que nunca se tranca
Se sofres de qualquer tipo de dor,
Fica perto desta porta. Abre-a.
No seu Masnavi Rumi escreve uma peça interessante que se intitula "De que foge Jesus":
"O filho de Maria, Jesus, apressa-se pela ladeira,
Como se um animal feroz o estivese perseguindo.
Alguém que o segue, pergunta: "onde vais? Não está ninguém atrás de ti!" Mas Jesus continua, sem nada dizer, atravessando mais dois campos. " És tu que dizes palavras sobre uma pessoa morta e ela ressuscita?" Sou. "Não fizeste tu os pássaros de barro voar?"Sim. "Quem poderia então, fazer-te fugir assim desta maneira?" Jesus abrandou o passo.
Eu digo o Grande Nome sobre os surdos e os cegos, eles ficam curados; digo-o sobre uma montanha de pedra, e ela deixa o seu manto cair até ao seu umbigo; digo-o sobre a não-existência, e ela passa a existir. Mas quando falo amorosamente durante horas, durante dias, com aqueles que levam o calor humano e fazem troça disso, quando lhes digo o Nome, nada acontece. Permanecem como rochas, ou desfazem-se em areia, onde nenhuma planta pode crescer. As outras doenças são misericórida para entrar, mas esta não-resposta fomenta a violência e a frieza perante Deus. E eu fujo disso.
A pouco e pouco, tal como o ar leve absorve a água, assim também o louvor seca e evapora com gente tonta que se nega a mudar. Tal como a pedra fria onde te possas sentar, um cínico rouba o calor do corpo. Ele não sente o sol.
Jesus, dizia Rumi, não fugia realmente das pessoas. Ele estava a ensinar-nos um novo caminho".
Afinal, as civilizações não se chocam. Neste exemplo vemos como se fundem, combinam, conversam entre si, e evoluem. O que colide na sociedade humana são a indiferença e os excessos de poder; e na natureza humana, com religião ou sem, há alguns que padecem deste mal.
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| Blogue Crónicas de uma muçulmana |
Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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15:13 Quarta-feira, 11 de Nov de 2009
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Não tenhamos medo de construir a nossa sociedade em conjunto. Com ou sem fé em Deus, através das nossas diferenças, podemos encontrar caminhos de ética comuns
http://www.brasilescola.com/sociologia/o-brasil-varias-cores.htm
Não sinto qualquer gosto em nomear o ignorante. Contudo, esperaria alguma humildade de quem sabe pouco, mas que, mesmo assim, pega no Alcorão, ou no senso comum, e faz afirmações descabidas, distorcidas, desinformadas. Gostaria que os meus leitores entendessem que a única coisa que espero deles, como exijo de mim mesma, é procurar informação credível, ler muito, investigar, reflectir, ter olho crítico, relativizar, e depois fazer afirmações com humildade. Seguir estas premissas para o conhecimento equivale a seguir os principios epistemológicos da ciência moderna. E este é um legado fantástico da ciência que aprendi a utilizar neste Al-Gharb (Ocidente) intelectual.
Respondendo a algumas questões comentadas, não existe para mim nenhuma religião melhor ou mais perfeita que outra. Estou na linha de interpretação Qurânica que valoriza o pluralismo, a diversidade, e a ética cosmopolita, onde cabem todos, pela sua diferença, mesmo os que não acreditam em Deus. Lembrando o que diz o Alcorão:
Digam (oh muçulmanos): Nós acreditamos em Deus, e no que nos foi revelado, e no que foi revelado a Abraão, e Ismael, e a Isaac, e a Jacó, e às tribos, e ao que Jesus e Moisés receberam, e ao que os Profetas receberam do Seu Senhor. Não fazemos distinção entre eles, e só a Deus nos rendemos (Q:II;136)
A cada um Apontámos uma lei divina e Traçámos o caminho. Se Allah quisesse, ter-vos-ia feito numa só comunidade. Mas Ele preferiu que de vós resultasse o que Ele vos deu, e que vos torna naquilo que sois. Portanto, excedei-vos entre vós nas boas obras. Para Deus será o vosso retorno; nessa altura Deus informar-vos-á sobre as vossas diferenças. (Q:V;48)
Não tenhamos medo de construir a nossa sociedade em conjunto. Cada um no seu caminho de fé, ou de crenças diversas, podemos encontrar caminhos de moralidade e de ética comuns e construir sociedades equilibradas, justas, fraternas.
O medo que alguns muçulmanos, felizmente poucos, querem impor em todos nós (incluo-me no grupo dos perplexos perante os absolutismos, qualquer que ele seja) não pode ser generalizado a todo um universo de 1.200 milhões de muçulmanos que vivem preocupados com a educação, a prosperidade, a política do seu pais, e a sua qualidade de vida. Talvez pudéssemos buscar inspiração nestes ayats (sinais divinos) e fazer obras que contribuissem para a dignificação da condição humana. Muito provavelmente, os descontentes e desafortunados seriam muito menos... e menos atentos às vozes dos fundamentalistas.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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10:58 Sábado, 7 de Nov de 2009
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A liberdade de expressão é um valor importante para a humanidade pensante; o problema surge quando a usamos para desumanizar o Outro
O missionário que levou o Islão shiita Ismailita e o sufismo para a Eurasia
internet
No meu percurso académico a antropologia social de Claude Levi-Strauss foi a que mais marcou o meu olhar sobre a alteridade. Entre várias, defendeu a ideia da irracionalidade e do desconhecimento no pensamento sobre o Outro. Desmistificou-o. E explicou que não existe qualquer correlação entre diferença e exotismo ou selvajaria. Influenciou a enorme discussão que dura até hoje sobre o etnocentrismo, sobre a imposição das nossas representações estereotipadas sobre os outros; abriu caminho para o pós-orientalismo. Embora tenha contribuido para um novo paradigma do pensamento social e humano, a sua ciência ficou reduzida a uma pequena elite intelectual da modernidade. Infelizmente, continuamos a ver o Outro com medo, com exotismo, com sentimento de superioridade civilizacional. E o que é curioso, é que esse Outro não vive no outro lado do mundo! Ele está aí mesmo, no outro lado da rua, muitas vezes, no mesmo andar do nosso edificio. E essa é a sua casa.
Os meus comentaristas às vezes mandam-me "para casa". Isso é onde? Haverá uma terra para muçulmanos? Ou outra para cristãos, ou para outras confissões religiosas?! Ou ser-se muçulmana é apenas viver a vida, onde quer que se esteja, de acordo com princípios de uma ética da Salaam?
E como se faz a Paz? Simples: conhecendo-nos mais e melhor. Conhecendo sobretudo, que um muçulmano faz mais do que "islão" o dia inteiro; que está ocupada a fazer coisas parecidas com o resto da população. Principalmente, que deseja a qualidade de vida, como qualquer cristão, judeu, ateu ou agnóstico. Com uma diferença importante que deve ser apreciada: um muçulmano prostra-se perante a criação divina, e vê nos seres humanos, na natureza, na passagem pela vida, os sinais (ayats) de Deus. E quando diz que não separa a fé do mundo, quer dizer que é essa fé, e essa ética cosmopolita que transporta e projecta no seu quotidiano, nas suas actividades intelectuais ou profissionais. Não separar a fé do mundo significa que é a própria fé que o estimula para o mundo, e este fá-lo questionar e aprofundar questões importantes, através do pensamento, da reflexão, do conhecimento.
Um dos missionários milenares do islão shiita
que converteu grande parte da Ásia Central foi o poeta-filósofo, e teólogo, Nasir Khusraw (séc XI) costumava dizer que "para se conhecer Deus, é preciso saber mais; muito mais". De outra forma, é dificil observar os ayats de Deus na humanidade.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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12:24 Quinta-feira, 5 de Nov de 2009
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Após 470 anos de colonialismo português, o que pode Portugal oferecer a um povo que deixou sem nada?
O carrinho do menino moçambicano no séc. XXI
Faranaz Keshavjee
Ontem o povo Moçambicano foi a votos . A economia deste país tem subido e embora Moçambique tenha deixado de ser "o mais pobre do mundo", estima-se que até Março próximo 270 mil pessoas vão experimentar a "insuficiência alimentar aguda" - diz hoje o Jornal de Noticias de Moçambique.
A Pobreza e a riqueza embora estejam estimadas com índices, os sentimentos relativos à experiência de ambas podem ser relativizadas. No programa "Grande Reportagem" recentemente exibido na SIC e produzido por Cândida Pinto terminava com uma conversa com o rapaz mais velho de uma familia orfã. Este tem 15 anos, cuida e trata da terra e de mais 3 irmãos - o mais novo tem 4. O jogo que os diverte no fim do dia de trabalho é o futebol. O mais novo desejava ter uma bola nova. A jornalista de depois de registar a vida dura e dificil desta familia, questiona ao mais velho rapaz: "o que é que te faz falta?"... "Falta... - diz ele, - "...não, não falta nada. Nada! Sim, não falta nada!"
O Publico referia ontem que esta foi uma terra ocupada pelos portugueses durante 470 anos! Conheceu a sua independência desde 1975. Por muito que se diga que foi a escolha de um povo que ditou o seu destino e sorte, não é justo dizer-se que tiveram tempo para construir um presente e um futuro de prosperidade. Levam-se anos a construir pontes, barragens, auto-estradas; destruimos tudo em dois segundos! Para se construir, que saberes, que conhecimentos, que infraestruturas deixaram os portugueses num país onde os nativos só souberam servir os amos e foram tratados, muitas vezes, como sub-humanos?
Nas aldeias por onde o Publico esteve o ano passado a convite da AKDN
ao Publico ainda se ouvem súplicas às ONG's para que abram um poço de água na aldeia a custo de evitar a caminhada de ida e volta de 30 a 60 kilometros a pé descalço e com baldes de água sobre ombros e cabeça!
O que lhes faz falta? Portugal e os portugueses; para oferecer algum tempo e saber, para os ajudar a construir realidades mais cómodas, mais justas e equilibradas, devolvendo ao povo que nos acolheu e aceitou ser dominado, durante 470 anos, a sua própria esperança.
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faranazk@yahoo.com
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10:06 Sábado, 31 de Out de 2009
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Em circunstâncias de conflito é urgente compreender os mais fracos, aqueles que perderam a esperança; ecoar-lhes as vozes.
"As-Sallaam" quer dizer Paz. Tenho contudo, esta ambivalência de querer "lutar", "batalhar", fazer uma Jihad pela Paz : no mundo, entre os Homens, e conosco mesmos. Em circunstâncias complexas é preciso ouvir, escutar, para compreender. Em circunstâncias de conflito é urgente compreender os mais fracos, aqueles que perderam a esperança; ecoar-lhes as vozes. Se as minhas expressões sugerem a dureza ou amargura, é porque é necessária a assertividade e o tocar com o "dedo na ferida", para ver se também dói do outro lado. É sempre a Paz o que procuro dizer, fazer e desejar, através das histórias que conto, dos poemas que transcrevo, ou dos comentários à vida quotidiana.
Quero dar uma justificação aos meus leitores assíduos da colunas semanais do Público, porque sei que queriam saber a razão porque deixei de escrever para o jornal.
Deixei o jornal o Público por ter visto vários artigos meus "mexidos" pelo editor de opinião na altura e principalmente, por ter censurado o meu último artigo que adiante publicarei na íntegra neste blogue. A frase que mais me incomodou que tivesse sido retirada foi: "Houve um genocídio em Gaza". Alguém pode compreender isto numa democracia livre?! A conjuntura do momento no Publico não ajudou a que o meu bom amigo José Manuel Fernandes me pudesse dar o apoio que gostaria de ter tido. Contudo, é nele que reconheço o passo pioneiro da busca do pluralismo na imprensa escrita portuguesa de alto calibre. Ao JMF o meu caloroso abraço pela confiança e amizade.
Saúdo e agradeço ao Expresso, nomeadamente ao Henrique Monteiro, ao João Garcia, e à Luisa Meireles, a generosidade e o sentido de oportunidade de tornar o Expresso ainda mais rico de conteúdos, e mais plural, tornando maior o que já é grande. Agora, escrevo a partir daqui e já estou a gostar da experência. Agradeço à equipa muito amável e calorosa do editorial dos blogues pela confiança e apoio. Bem Hajam!
PS: Tenho estado atenta aos comentários que tenho recebido e gostaria de saudar e agradecer todos os que vão consultando o meu blogue. Farei todos os possíveis, apesar da diversidade e variedade de questões abordadas, por responder às questões colocadas, à medida que for escrevendo as minhas crónicas e artigos.
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Faranaz Keshavjee
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9:30 Quarta-feira, 28 de Out de 2009
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Só um líder nascido e vivido numa cultura que integrou a alteridade, poderia ter tido a louvável iniciativa de sugerir a criação de uma Aliança de Civilizações na ONU.
Finalmente consegui visitar um dos lugares mais maravilhosos na nossa história medieval - a Granada Andaluzia. Fui ver e ouvir os guias falar de uma história que conhecia, de um tempo onde o humanismo e a ética cosmopolita imperavam nos governos prósperos - na intelectualidade, nas artes, no convívio entre povos e culturas variadas.
Fiquei a saber coisas interessantes: p.e. que nos pátios mais sumptuosos dos califas Nizaris Shiitas, a natureza e a construção do homem tinham de se acomodar, e em circunstância alguma, entrar em conflito. O mérito dos saberes fazia parte do convívio entre a plebe e as elites.
Num dos pátios mais bonitos daqueles palácios - o dos leões- que agora estão a ser cuidadosamente restaurados, a fonte recebia a água que jorrava numa engenharia que não incomodava o passante; antes, esse som inspirava-o para a contemplação da grandeza deste universo de civilizações que foram silenciadas, pela negligência ou inveja, em toda a historiografia europeia moderna.
Os doze leões, disse a guia, não foram lá postos pelo Califa Nizari Shiita; eles foram oferecidos pelo seu ministro judeu que quis embelezar um jardim paradisíaco com a simbologia das 12 tribos judaicas! Uma forma bela de gozar os prazeres e alegrias com o Outro, apesar das suas diferenças.
Alhambra recebe 7 mil visitantes por dia, do mundo todo! O património é cuidado com carinho. Sua Alteza o Aga Khan IV - o lider de mais de 20 millhões de muçulmanos espalhados pelo mundo - premiou um destes palácios com o prestigiado Prémio de Arquitectura. As palavras dos guias são estudadas, informadas.
Não admira por isso, que depois de visitar este extraordinário património da presença andaluza em Espanha, me tenha ocorrido que só um líder como José Luis Zapatero, nascido e vivido numa cultura que integrou a alteridade, poderia ter tido a louvável iniciativa de, logo após o 11 de Março, sugerir a criação de uma Aliança de Civilizações, ao invés de decretar "morte à Al-Qaeda". Pena, não se lembraram de lhe dar um Prémio Nobel da Paz!
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*A Salaam significa paz
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