04/02/2012 atualizado às 0:18

Critica de música de 2 a 9 de Abril de 2010

Luisa Amaral
17:30 Quinta feira, 1 de abril de 2010
Alma Danada 

Uma magnífica tradução moderna da música raiana.

Muito poucas coisas serão inteiramente más ou inteiramente boas. Em si mesmas e nas consequências que delas possam decorrer. Por exemplo, o nacionalismo, essa encarnação tardia (e, supostamente, sofisticada) do tribalismo. Mais ou menos xenófobo ou racista, de tonalidades patrioteiro-futebolísticas ou libertadoras, combustível para massacres, desenhos de fronteiras a sangue e limpezas étnicas, devemos-lhe também, no entanto, algumas das melhores partituras chocadas no viveiro dos nacionalismos musicais que, do início do século XIX até à actualidade, por via erudita - a dos Glinka, Mussorgsky, Bartók, Dvorák, Kodály, Copland ou Lopes-Graça - ou através dos sucessivos folk-revivals assentes nas recolhas dos vários Lomax, A.L. Lloyd e Giacometti deste mundo, se aplicaram na busca das míticas "almas nacionais" que, por contaminação ideológica romântica, haveriam, forçosamente de residir na pureza dos ritmos, harmonias e melodias das gentes simples do campo. A invenção do conceito de world music, em 1987, trataria, finalmente, de globalizar todos os patrimónios musicais tradicionais e de, nesse mesmo processo, os colocar disponíveis para mil outras reconfigurações e desejáveis esquartejamentos.

Às mãos dos Gaiteiros de Lisboa, de Amélia Muge, da Sétima Legião, dos Vai de Roda, dos Oquestrada ou dos Chuchurumel, a alma nacional portuguesa já foi objecto de inúmeros safanões e aditamentos nos registos de identidade, a todos tendo ficado eternamente em dívida pelo enriquecimento que daí, invariavelmente, resultou. À lista dos credores haverá de acrescentar-se, agora, o nome dos Galandum Galundaina que, após o anterior "Modas i Anzonas" (2005), neste "Senhor Galandum" propõem mais uma magnífica tradução contemporânea e sem demasiadas cerimónias 'autenticistas' da música popular tradicional do nordeste raiano. Sim, a matriz é trasmontana e mirandesa, de vozes, gaitas, fraitas e tamboris, mas acolhe sem alergias as charrascas galegas, o kaval húngaro, as rabecas, a dulçaina, as sanfonas, os bendirs, as vozes de Sérgio Godinho e Uxia e a remix do DJ Hugo Correia. E, atentem bem, poderiam existir temas mais vibrantemente actuais do que a história do cura que emprenhou a criada a quem nasceu "un curica com gorro i sotaina"? Ou a do outro santo clérigo, borracho e devasso - talvez compincha do Fraile Cornudo -, que exigiu ser enterrado no carreiro do cemitério "para ber las fraldas a las mulhieres"!? Se isto são velharias folclóricas, vou ali e já venho. João Lisboa


Senhor Galandum

Galandum Galundaina

Emiliano Toste/Açor/ Compact

Mavis

Ashley Beedle & Darren Morris

!K7/Symbiose

Não se imagina qual teria sido o resultado de uma semana a ouvir Aretha Franklin. Porque uma única noite ao som de Mavis Staples bastou para que a parceria londrina tivesse sentido despontar o desejo de gravar um álbum à imagem da cantora de I ll Take You There'. Seria lícito concluir que - mais que de uma homenagem à lendária voz dos Staple Singers - de recolher um estímulo se tratou para da sua arte partir para a descoberta e recontextualização dessa variedade de soul-gospel a uma nova luz. E, embora deitar a mão à essência da música e aprender a injectá-la no presente seja uma linha de força de "Mavis", jamais prevalece a manifestação de matriz revivalista. Na verdade, e como se não bastasse um elenco atípico que mostra Kurt Wagner (Lambchop), Sarah Cracknell (Saint Etienne) e um punhado de bravos caucasianos dando o seu melhor pela soul ao lado de Edwyn Collins (velho amigo da causa) e da veterana Candi Staton (por sinal, em pico de forma), reabilitar a velha arte do tempo em música é a natureza da experiência. "They're the glue in our DNA" - diz Beedle. Saborear o tempo e - à margem de escolas de som - cantar como se respira. Ou melhor: como se disseca a alma. E, por isso, soletra-se cada poema e mergulha-se em cada nota. Porque de descobrir a sua verdade se trata. Ricardo Saló


Coração Pneumático

Mikado Lab

Edição de autor/ http://mikadolab. bandcamp.com

Que um disco nada traga de novo não tem de ser uma má notícia. Neste caso, até, só uma coisa fazia sentido exigir: mais do mesmo. E, na verdade, "Coração Pneumático" começa onde "Baligo" terminava. Quer dizer, literalmente, que esta música - por acaso, instrumental - ainda é o que era. Que o prazer da melodia, a concisão da linguagem, a frescura da atitude e a invenção orquestral cheguem incólumes a esse momento delicado (o segundo álbum) em que o desenlace estético se deixa, por vezes, condicionar pela expectativa entretanto gerada já será motivo de louvor. Mas que ainda se sublinhe o admirável sentido lúdico do qual emana a riqueza maior desta música que se confunde com o sorriso de uma criança não é - em definitivo - para todos. Há, aqui, títulos curiosos: Super Miniatura, Minha Dulcineia e Separ a Dor. Mas nenhum capta o espírito da música mais deliciosamente cativante feita em Portugal como A Janela É Um Objecto para Ver através das Paredes. Sem querer aniquilar mediante filosofias de almanaque o que se ocupa de gozar a vida e de espalhar à sua volta o que esta tem de melhor (sugerindo, por vezes, felicidade e melancolia no mesmo pé), valeria a pena comentar: uma janela não será, antes, uma falha num objecto que impede o desfrute do mundo? Porque talvez assim se compreenda melhor a mensagem subliminar de uma arte inteiramente isenta de clichés erguida depois da pop, do jazz, da electrónica e do muzak. R.S.


Jonny Trunk & Joel Martin Present Bollywood Funk Experience

Vários

Nascente/Megamúsica

Não será pelo zelo demonstrado que ficará na memória. Aliás, Jonny Trunk (Trunk Records) e Joel Martin (Quiet Village), talvez pela presunção de verdade que há nos discos, nada dizem sobre os filmes por detrás da música. Mas mais conhecimento de causa teria evitado erros grosseiros nesta compilação e, num nicho de mercado subitamente saturado, a aparência daquele que vende gato por lebre (um exemplo: adjectiva-se de forma colorida o reggae Mainne Kaun Koi Kya Jane, de "Cricketer", na voz da cantora Anuradha Paudwal; ora, o reggae existe, mas quem o canta é um homem, Bhupinder Singh, e intitula-se Maine Kaha Tha Mat Jao Tum). Além de que carece de rigor o seu conceito - pois sobra em tudo o que se possa imaginar, do mambo de estalar a pele de tambor ao mariachi mais embriagado, o que aqui falta em funk. Só que não deixa de ser suficientemente representativa esta reunião de temas, justificando que à sua custa ingresse num mundo desconhecido o ouvinte de espírito mais aventureiro. Ainda para mais quando, em rica caldeirada, sublinha a reincidência na bizarria ocidental e no suspensivo exotismo de nomes como R.D. Burman, Khayyam, Bappi Lahiri e das duplas Shankar-Jaikishan, Laxmikant-Pyarelal e Kalyanji-Anandji. João Santos


The Observer

Jon Irabagon

Concord/Universal

Jon Irabagon deu nas vistas quando venceu, em 2008, a Thelonious Monk Jazz Competition, que, geralmente, premeia os concorrentes mais ligados à tradição do jazz. Irabagon, um americano de origem filipina, ganhou o concurso de saxofonistas, cujo júri era composto por Wayne Shorter, Jimmy Heath, Greg Osby, Jane Ira Bloom e outros nomes de vulto. O prémio, para além de uma bolsa de estudo de 20 mil dólares, foi o contrato para fazer um CD na major Concord. O interessante é que Irabagon era mais conhecido por estar ligado a áreas dum jazz mais avançado. Aliás, fazia parte dum grupo free-bop, Mostly Other People Do The Killing, cuja música não reflectia conceitos tradicionalistas. Todavia, a formação do saxofonista levava-o a querer fazer um CD de jazz straight ahead. Não poderia ter melhor oportunidade do que realizá-lo, não a expensas suas, mas para uma editora reputada. Que lhe proporcionou um produtor experimentado, um grande estúdio, o de Rudy Van Gelder, e, ainda melhor, uma grande secção rítmica, a que foi do grande Stan Getz no final da década de 80 do século passado. Estavam reunidas as condições para um acontecimento feliz. Irabagon mostra ser um saxofonista com boa expressão tonal, mormente no saxofone tenor, inventivo e dominador. Não desperdiça notas, e o seu fraseado é objectivo. No saxofone alto soa lírico e é bem servido pelas suas composições, como Joy's Secret atesta. De realce que Irabagon não se vendeu ao ponto de querer fazer uma obra cheia de standards. Utiliza três standards de jazz pouco conhecidos, um de Gigi Gryce e outro de Tom McIntosh e ainda outro do esquecido Elmo Hope, em que é a viúva deste, Berta, que o acompanha no piano. Em duas peças surge o sólido trompetista Nicholas Payton. Uma obra prometedora dum músico com talento que trabalhou bem a sua sorte! Raul Vaz Bernardo


Schoeck:

Rosamunde Quartett, Gerhaher (bar)

ECM/Dargil

Lembrava-me vagamente que Fischer-Dieskau tinha sido um paladino das canções do suíço Othmar Schoeck (1886-1957), mas não estava preparado para o impacto deste "Notturno", descrito pelo compositor como "5 andamentos para quarteto de cordas e voz sobre poemas de Nikolaus Lenau e um fragmento de Gottfried Keller" (1931-33). Há afinidades óbvias com a Segunda Escola de Viena, e a forma evoca o "Quarteto de Cordas Nº 2", de Schoenberg, ou a "Suite Lírica", de Berg. Melancolicamente introspectiva, esta sequência de canções e interlúdios instrumentais é um milagre de acerto dos poemas de Lenau com o cromatismo pós-romântico da música de Schoeck. (Só a inocência infantil do fragmento de Keller introduz algum alívio.) Poeta e músico viveram os seus tempos de turbulência amorosa. Não sei bem porquê, mas depois de ouvir este disco fui direito aos Quintetos de Cordas K. 515, 516, de Mozart - para mim, o apex de toda a música de câmara. "Notturno" é uma obra-prima antiga e moderna (até consigo ouvir nela ecos de blues), e esta gravação pelo Rosamunde Quartett é brilhante. Quanto ao barítono solista, Christian Gerhaher, não sei que mais admirar: se a naturalidade de fraseado e dicção impecável, se a beleza do timbre e inteligência musical. Como é habitual nas produções da ECM, as notas que acompanham o disco impõem-se pela sua pertinência e esclarecimento. Desta vez, até temos o luxo de um texto do ilustre oboísta e compositor suíço Heinz Holliger. Uma descoberta fascinante. Jorge Calado

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