O procurador-geral da república disse o óbvio: não há qualquer sinal de crime. As certidões arquivadas no caso das escutas (processo Face Oculta) não apontaram, segundo Pinto Monteiro "para o cometimento do crime de atentado ao Estado de Direito". O problema é que, se o crime necessita de uma convergência de testemunhos materiais para ser provado, já a convergência de situações relatadas pelos media - apesar da arrogância dos crivos editoriais - conduz o mais comum dos mortais a imaginar o país em verdadeiro estado de atoleiro. De um lado, argumentos formais; do outro lado, a indignação que atravessa classes, posturas políticas e diferentes visões do mundo. Apenas o poder, seja ele qual for, mesmo na pessoa de jovens representantes do estado em administrações de ouro, parece sorrir, abanar os ombros e olhar para o lado. Não, este desacerto nada tem de esquerda vs. direita. A imagem do mesmo país pode quebrar-se em várias que se revelam opostas. Valerá a pena visitar o Rei Édipo, recentemente ecenado por Jorge Silva Melo, sobretudo pela ênfase de investigador quase policial que é atribuída ao protagonista. Parece que a tragédia provoca o mal, ao colocar os opostos face a face. Mas no mesmo plano e sem coros desacertados.