A cappital da Dinamarca deu o nome à batalha naval onde o inglês Nelson primeiro se distinguiu quando levou ao olho cego o óculo assestado na direcção do navio-almirante que o mandava retirar, declarou não ver ordem nenhuma e continuou o combate até à vitória; deu também o nome ao cavalo de Wellington durante a batalha de Waterloo e, arrumadas as lutas napoleónicas e kaiserianas e nazis, porque os europeus entretanto deixaram de se guerrear uns aos outros (e de mandar no mundo), acolhe nestes dias uma gigantesca quermesse contra o aquecimento global.
Talvez animados pelas reuniões do G-20 que, contra o pessimismo dos cépticos, começaram há um ano a gizar tratamento coordenado dos males financeiros e económicos do mundo, muitos chefes de Estado e de Governo (quase 200 países estarão representados) resolveram ir ao fecho de Copenhaga e redobraram de animação quando a Casa Branca anunciou há dias que Obama, em vez de passar por lá no começo quando fosse receber o Prémio Nobel da Paz a Oslo, se juntaria aos outros na altura do último regateio e do anúncio das grandes decisões. Milhares de pessoas - políticos, diplomatas, burocratas nacionais e internacionais, cientistas, técnicos, empresários, sindicalistas, lobistas do petróleo, militantes aguerridos de ONG dedicadas à salvação do mundo - transformarão a capital da Dinamarca num jogo de xadrez disfarçado de circo, como Nixon chamou às convenções partidárias americanas. Sob cascatas de demagogia, de ingenuidade e de má fé, lá se tentará negociar um acordo sensato.
O grande problema cuja solução se quer pôr na calha é novo, global, extremamente complexo e exige empenhamento de todos em soluções que, de preferência, sejam também globais. Mas está ao alcance dos conhecimentos científicos e técnicos e dos meios económico-financeiros de que o mundo hoje dispõe. Perante, numa ponta da curva de Gauss, cientistas que pensam que o progresso do aquecimento já é fatal e, na ponta oposta, outros que o acham episódico e autocorrigível talvez não se possa saber agora quem tem razão mas é preciso fazer a aposta de Pascal, isto é, prepararmo-nos para o pior, tomando medidas que previnam mais aquecimento futuro. Além de divergências técnicas sobre estas, há questões políticas fundamentais e é esse o jogo de xadrez de Copenhaga. Simplificando muito: como tornar aceitáveis medidas rentáveis a longo prazo mas custosas a curto prazo (sobretudo nos EUA e Europa)? Como convencer os países emergentes (China, Índia, Brasil) a tomarem medidas que atrasem a sua aproximação dos níveis económicos dos Estados Unidos e da Europa? Como financiar a defesa de vítimas do aquecimento global que para ele nada tenham contribuído (Bangladesh, quase toda a África)?
De Copenhaga não sairá um tratado mas poderão sair compromissos quantificados e rota traçada, com escalas obrigatórias, na demanda de melhor domínio do clima. E, à maneira do G-20, mais uma banca onde levar problemas de todos.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009