A liderança e a influência internacional na política, finanças, economia e poder militar costuma ser intensamente disputada pelas principais capitais mundiais. Há, todavia, tópicos em que exactamente o oposto acontece. Veja-se o aquecimento global.
Nos últimos anos, nenhum tema gerou tantos livros, primeiras páginas nos jornais e revistas internacionais, documentários e filmes como este. O aquecimento global esteve na origem do Prémio Nobel da Paz de 2007 e na atribuição de um Óscar para o documentário "Uma Verdade Inconveniente". Em 2008 foi a vez do "Seis Graus", um documentário extremamente alarmante sobre o futuro da humanidade produzido pela National Geographic e baseado no livro de Mark Lynas com o mesmo título. Este ano chegou "The Age of Stupid", um filme que olha para as consequências da relutância ou incapacidade das sociedades e governos reduzirem substancialmente as suas emissões de dióxido de carbono.
Tudo somado, o aquecimento global transformou-se na mais importante questão de política pública a nível internacional. Transformou-se também numa cruzada moral que aboliu as dúvidas e as incertezas científicas que sempre rodearam o estudo da evolução do clima.
Um tópico com esta visibilidade e certezas tão catastróficas deveria ter levado uma série de capitais a competir pela sua liderança. Afinal de contas estamos a falar da salvação do mundo. Mas não foi isto que aconteceu nos últimos anos. Em Washington, a Casa Branca e o Congresso nunca mostraram grande interesse no assunto. O mesmo aconteceu em Moscovo com Vladimir Putin. Nos famosos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), foi posta em prática uma versão das palavras de ordem que se ouviram no processo revolucionário português - "os ricos que paguem a crise".
Esta situação foi vista em Bruxelas como uma enorme oportunidade política para a União Europeia. A partir de 2001, os decisores europeus viram no aquecimento global o instrumento ideal para aumentar a influência internacional aos níveis político, legal e tecnológico. Hoje em dia, uma das melhores maneiras de ter influência passa pelo controlo do processo da regulamentação internacional, uma área em que a União Europeia tem imensa experiência. Sob este ponto de vista, a Cimeira de Copenhaga que começa na próxima semana é um importante teste para as ambições europeias de continuar a liderar a negociação à volta da regulamentação das emissões de carbono.
O sucesso exige que no final da cimeira haja um consenso em relação a uma redução muito substancial destas emissões até 2050. Há aqui, todavia, um pormenor importante que tende a ser esquecido na véspera de cimeiras como a de Copenhaga. O pormenor tem a ver com as promessas de cortes nas emissões de dióxido de carbono que foram feitas em 1992 no Rio de Janeiro e em 1997 em Quioto. Estas promessas nunca foram cumpridas. Foram, isso sim, um gesto político para consumo interno e externo. Doze anos depois da assinatura do Protocolo de Quioto, nunca houve tanto CO2 na atmosfera como agora.
Para Bruxelas a situação é paradoxal. A ambição, a credibilidade política e o dramatismo criados à volta do aquecimento global exigem medidas drásticas para impedir que a temperatura suba mais de dois graus centígrados até 2050. Copenhaga não pode ser mais uma cimeira de faz-de-conta. Uma redução substancial das emissões a nível global terá custos elevados para os países envolvidos. O verde, a cor que associamos ao ambiente, é a cor da oportunidade e da inovação. Mas é também a cor do sacrifício. Que preço está a União Europeia disposta a pagar pela liderança? Copenhaga irá dar boas pistas sobre isto.
"No, we can't"
"Yes, we can!" resumiu a ambição de Barack Obama levar a cabo reformas internas nos EUA. Esta ambição explica o apoio dos democratas, independentes e de alguns republicanos centristas à sua eleição. A guerra pelo Afeganistão/Paquistão é uma má notícia para a base política que elegeu Barack Obama. No Afeganistão, os democratas e independentes pensam "No, we can't!" Esta base foi o principal alvo do discurso do Presidente americano em West Point na terça-feira.
Número
12
anos depois da assinatura do Protocolo de Quioto, as emissões de CO2 aumentaram. Desde de 2001, Bruxelas tem visto no aquecimento global uma oportunidade para liderar a nível internacional. Copenhaga é teste importante
Barómetro
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O Afeganistão exportará este ano 400 toneladas de maçãs para a Índia. Estas maçãs estão a ser vendidas a dois dólares por quilo, quatro vezes o seu valor no Afeganistão
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As exportações europeias para a China diminuíram 5.3% no primeiro semestre de 2009
Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009