Durão Barroso com o primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt, ao anunciar hoje aos jornalistas o acordo na Cimeira de Copenhaga, às duas da manhã
Heribert Proepper/AP
O Acordo de Copenhaga anunciado pelos EUA na madrugada de hoje é um documento fraco, vago e sem ambição, e acaba com a liderança da União Europeia nas negociações climáticas.
Os principais objectivos da UE na Cimeira de Copenhaga não foram atingidos e pode-se dizer que, do ponto de vista dos interesses europeus, o acordo minimalista alcançado é um verdadeiro desastre.
O documento diz que os países desenvolvidos e em desenvolvimento devem elaborar um lista comum das suas metas de redução de emissões para enfrentarem as alterações climáticas, e que deve existir um mecanismo internacional de acompanhamento deste processo.
Quanto ao financiamento aos países em desenvolvimento para se adaptarem aos efeitos do aquecimento global (secas, inundações, subida do nível do mar), o acordo define um apoio de emergência de 21 mil milhões de euros para o período de 2010-2012. E uma verba de 70 mil milhões de euros por ano até 2020.
E inclui também o objectivo de não permitir que as temperaturas globais da Terra aumentem mais de dois graus centígrados relativamente aos valores médios da época pré-industrial.
Mas o Acordo de Copenhaga é omisso em relação a questões fundamentais. Assim, não abre o caminho a um tratado que suceda ao Protocolo de Quioto, porque não define metas de redução das emissões para os países desenvolvidos, e metas de redução do seu ritmo de crescimento para os países em desenvolvimento.
Aliás, não fixa sequer uma data para eventualmente se alcançar um acordo político legal, vinculativo, tipo Protocolo de Quioto.
Por fim, não define também metas de redução das emissões globais até 2050.
Liderança da União Europeia acaba
A liderança da UE no processo das negociações climáticas, que se tinha afirmado claramente nos últimos anos, e que foi favorecida pelo desinteresse dos EUA em relação ao problema durante a Administração Bush, foi ferida de morte.
Os EUA negociaram com as quatro maiores economias emergentes - China, Índia, Brasil e África do Sul - o acordo climático minimalista que anunciaram, e a proposta ambiciosa que a UE vinha defendendo desde Dezembro de 2008, quando aprovou o Pacote Clima-Energia, acabou por ser posta de lado.
Este é, provavelmente, um dos melhores exemplos de uma nova ordem mundial que está a nascer, multipolar, dominada pelos EUA e a China, e por alianças dos dois maiores emissores de CO2 do planeta com as grandes economias emergentes, com a Europa transformada em anão político.
O envolvimento da África do Sul neste processo foi uma jogada estratégica dos EUA. Com efeito, dentro do bloco dos países em desenvolvimento, o chamado G77+China, eram os países africanos mais pobres, juntamente com os pequenos estados-ilha, quem defendia avanços mais radicais em Copenhaga.
E fazia-o por uma razão muito simples, sublinhada diversas vezes pelo primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, em nome da União Africana: os países africanos são responsáveis apenas por 3% das emissões mundiais, mas são dos que mais sofrem com os impactos do aquecimento global.
Durão Barroso: "Este não é o acordo que queríamos"
Às duas da manhã de Sábado, Durão Barroso e o primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt (a Suécia ocupa a presidência da UE), deram uma conferência de imprensa no Bella Center, onde decorre a Cimeira de Copenhaga.
Com um ar visivelmente cansado e derrotado, apesar dos habituais sorrisos do presidente da Comissão Europeia, os dois dirigentes explicaram a custo os termos do acordo alcançado "depois de quase 24 horas de discussões", como revelou Barroso.
"Este não é o acordo que queríamos", afirmou o presidente da Comissão Europeia, embora tivesse reconhecido que "é melhor ele existir do que não existir, porque temos pela primeira vez na História um acordo global na área do clima", isto é, que abrange todos os países do mundo.
"Não queríamos provocar uma ruptura, porque este é o primeiro passo, e haverá muitos outros passos no futuro", insistiu Durão Barroso, apontando mesmo para os aspectos mais positivos do documento, como os valores fixados para o financiamento aos países em desenvolvimento.
Durão reconheceu que a UE liderou todo o processo das negociações climáticas "quando as ambições eram elevadas, mas quando estas baixaram não fomos líderes".
Mas numa negociação internacional como esta "precisamos de consensos, é este o caminho das Nações Unidas".
O primeiro-ministro da Suécia, por sua vez, foi também muito esclarecedor nas suas declarações aos jornalistas: "Ainda não temos uma resposta global para uma ameaça global".
Sites oficiais da Cimeira de Copenhaga: