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Gonçalo Cadilhe
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9:30 Domingo, 28 de Jun de 2009
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Resumo de um ano em busca de uma ideia de qualidade de vida
A pergunta é feita por um amigo: "E tu, Gonçalo, de todos os sítios que viste, em qual gostarias de viver?" É como perguntar se é melhor passar fome ou andar bem alimentado. É óbvio que se escolhem os 'melhores' lugares, aqueles que permitem a melhor qualidade de vida imaginada. Eu imagino essa qualidade de vida nos territórios virgens da Ilha Sul da Nova Zelândia, onde de tantas em tantas horas voltamos a encontrar uma aldeia de 3 mil habitantes e depois mergulhamos de novo na travessia de um território por colonizar. As aldeias são limpas e sossegadas, discretamente inseridas no meio-ambiente, apertadas entre neves eternas e mares crepitantes. Paradoxalmente, vivo num lugar que nem é extraordinariamente bonito nem sequer se preocupa em cuidar da sua frágil beleza natural. A Figueira da Foz é uma cidade inchada pela avidez. Constrói-se, descaracteriza-se, derrama-se cimento, mas a população não aumenta. A cidade apenas incha.
Imagino essa qualidade de vida também na luminosidade opaca de São Francisco, nesse cruzamento entre Europa e Oriente, entre tradições milenárias e experiências do futuro onde o respeito pela dignidade humana alcançou o seu apogeu. O contrário da mentalidade mesquinha e alcoviteira portuguesa, que sempre tem que indagar, deturpar, meter-se na vida alheia e, quando não encontra motivos suficientes para maldizer um homem, inventa-os. Imagino a qualidade de vida como um benefício quotidiano, um usufruto gratuito da qualidade homeopática dos climas benevolentes. Escolheria então Trinidad e Tobago, essas ilhas no centro de uma rosa de ventos tropicais que acariciam as maleitas do corpo, onde cada manhã é uma saudação ao sol e cada mergulho na água do mar é um regresso ao ambiente ideal do período amniótico. Por contraste, vivo num litoral de frequentes neblinas cerradas que provocam reumatismo logo desde a juventude, facas de humidade que duram meses e cortam ossos, ondas geladas de um mar escuro e malvado que roubam anos de alegria e saúde.
Qualidade de vida podia ser a capacidade de abrir o porta-moedas e comprar qualquer produto gourmet, orgânico, de nicho, para o jantar. Nesse sentido, talvez a região do Cabo da Boa Esperança seja a mais completa fonte de ingredientes globais produzidos localmente. E com as agruras do rand, o custo baixo da mão-de-obra africana e a força do euro, podia sentir-me como um americano em Paris: milionário. Regresso a Portugal e vejo a vida cada vez mais cara, os salários cada vez mais estagnados, os produtos 'locais' cada vez mais a serem importados de fora.Para lá de serem uma ideia subjectiva de qualidade de vida, todos os lugares que mencionei atrás têm em comum o facto de terem sido incluídos na circunspecta volta ao mundo que teve início há um ano e que hoje completo. Os motivos desta série de "Coordenadas Soltas" não se resumiram a uma prospecção à escala global de sítios onde eu gostaria de ficar a viver. Mas viajar pelo mundo permite também um conhecimento mais profundo do nosso país, e de nós próprios.
Quando ainda não viajava, pensava que poderia viver em qualquer lugar que me agradasse. Hoje, já não estou tão certo. Na realidade, creio que o nosso passado pessoal, o sabor da sopa que comemos em meninos, as anedotas que nos ensinaram o sentido de humor, a temperatura média de cada dia de Inverno, o timbre com que falamos quando falamos de amor e um caleidoscópio infinito de outros factores nos condicionam a ferro e fogo e nos agarram a um padrão de qualidade de vida que é irrepetível e intransponível. A isto tudo se chama, simplesmente, 'raízes'.A resposta tinha um tom fatalista, mas o meu amigo não o colheu. Na realidade, não respondi à pergunta. Não era "onde eu gostaria de viver", mas sim onde "poderia viver". Só poderia viver aqui, em casa, na terra onde nasci e, feitas bem as contas, no lugar onde mais probabilidades tenho de ser feliz.
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Gonçalo Cadilhe
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9:38 Domingo, 21 de Jun de 2009
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Um expatriado inglês refaz a vida numa antiga jóia do Sri Lanka.
A temporada está no auge mas os hotéis continuam vazios. "Este ano é para esquecer", diz Manfred com um encolher de ombros. Mesmo com o fim da guerra e a morte confirmada de Prabhakaran, o líder máximo dos Tigres do Tamil, os turistas já não vão incluir o Sri Lanka nos seus destinos de férias. Têm sido tempos difíceis para Manfred. Ele não o demonstra. Serenidade e nonchalance acompanham a caminhada deste inglês magro e atlético com seis décadas de vida no corpo. A nível financeiro os últimos anos foram duros para o hotel de Manfred: o tsunami e a guerra civil afastaram os turistas da ilha que Marco Polo afirmava ser a mais bonita do mundo, a antiga Taprobana do verso de Camões, a Serendib das fábulas árabes.
A praia de Arugam Bay, onde Manfred escolheu estabelecer-se definitivamente depois de uma vida a viajar pelo mundo, era um desses segredos dos trópicos onde ministros, mochileiros, estrelas do jet set, jornalistas e pescadores analfabetos convivem unidos numa espécie de torpor fraternal. E o hotel de Manfred simbolizava essa harmonia. O hotel tanto tinha quartos de luxo como cabanas de palha, e o carisma do anfitrião estendia pontes entre os vários hóspedes como maionese numa salada russa. Poucas semanas depois de inaugurar uma ambiciosa remodelação do hotel, chegou o tsunami e o investimento de uma vida desapareceu em poucos minutos. Só o edifício central, onde agora me instalo, sobreviveu. Manfred mais uma vez encolhe os ombros: "o importante é que não morreu ninguém. Se pensarmos que dez por cento da população de Arugam faleceu, não me posso queixar do que perdi".
A vida do meu anfitrião dava um livro, ele acha que não. "Pelo menos", sugiro eu, "uma coluna num semanário português." Manfred acede a contar-me um pouco de si. Sei bem o que me fascina nele. A margem. A falta de convencionalismos. Uma contra-moral judaico-cristã que não tem nada de imoral ou indecoroso. Manfred é talvez a pessoa mais libertária e livre de preconceitos que eu conheci.Três factores na sua biografia explicam-no. Nasceu em África. Cresceu nos anos sessenta, "onde nada era ilegal ou proibido, um autêntico laboratório de experiências psicadélicas e contestatárias". E passou a vida adulta longe do Ocidente, "em países onde tudo é mais fácil e mais simples".A mãe, holandesa, morreu quando Manfred tinha 4 anos e o pai, embaixador britânico no Uganda, voltou a casar outras vezes - teve sete mulheres. Manfred nunca se ligou aos vários irmãos dos vários casamentos e foi criado por diferentes amas africanas. "Essa inconstância de afectos moldou provavelmente a minha incapacidade em manter uma única e duradoura relação sentimental". Como engenheiro civil ao serviço do Exército Britânico, Manfred passou toda a sua carreira a viajar, em comissões no estrangeiro: Sudeste Asiático, América Latina, Extremo-Oriente. "Na realidade, o único lugar onde nunca vivi foi na minha própria pátria". Apaixonou-se sempre pelos lugares e pelas culturas onde se estabeleceu. E pelas mulheres desses lugares. "Ao contrário do meu pai, eu nunca tive pressões sociais para me casar. Se gostava de uma mulher, simplesmente juntava-me a ela."
Cada novo amor foi melhor que o anterior: "com a idade aprendes a estar numa relação, a escolher a pessoa certa", diz. Samloc, a actual companheira de Manfred, é da Tailândia, mas com traços africanos. Explica-me que foi o fruto de alguma relação passageira entre um soldado negro americano da guerra do Vietname em licença em Banguecoque, e uma tailandesa mais generosa ou descuidada que o recebeu. Samloc nunca conheceu nenhum dos pais, foi deixada num orfanato logo após o nascimento. A filha do casal, a Leila, faz hoje dois anos. Sabemos já que a beleza exótica de um cruzamento de genes tão distinto irá destruir muitos corações mais tarde. Manfred comenta, com um sorriso doce, a ironia da situação: agora que tem idade para ser avô é que se sente pai pela primeira vez. "Das outras vezes nunca tive tempo nem oportunidade para ver os meus filhos crescer, andava sempre a viajar. Agora, estou a tempo inteiro com a Leila". Quantos filhos tens, Manfred? "Dez, de mães espalhadas um pouco por todo o mundo: Filipinas, Brasil, Dinamarca,...". Samloc interrompe-o. "A lista é longa e ele mesmo se confunde por vezes". Manfred conclui a conversa com uma simples máxima: "Uma mulher sabe sempre quantas crianças tem. Um homem sexualmente activo nunca pode ter a certeza." Riem, os dois. A Leila tenta apagar as velas.
"Podia voltar às comissões como consultor para o Exército Britânico. Resolvia logo os meus problemas financeiros." Mas não há dinheiro que pague estar fora de Arugam, longe da Leila. O sol já está menos forte e as velas do bolo foram apagadas. Pai e filha seguem para o habitual banho de luz e serenidade nas ondas de Arugam, antigo segredo dos trópicos.
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Gonçalo Cadilhe
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9:27 Domingo, 14 de Jun de 2009
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As montanhas do Nepal ganham outra dimensão quando o sentido principal do caminhante não é a visão.
Não é a primeira vez que caminho à noite, pelas florestas e montanhas, sem lua, sem luz. Aconteceu algumas vezes no tempo dos escuteiros, chamava-se "raide nocturno". Cada patrulha tentava percorrer a distância entre dois pontos no menor tempo possível. Conseguia-o melhor a patrulha que sabia orientar-se pelas estrelas, seguir azimutes e usar os acidentes de terreno como referência. Na altura, ninguém se interrogava porque perdíamos uma noite de sono e caminhar 30 ou 40 quilómetros aos tropeções.
O escutismo tinha essa vertente de preparar melhor um jovem para a vida. Mas a vida mudou tanto que se calhar são outras as escolas que hoje convém frequentar. Todos os meus companheiros dessa época devem recordar com prazer e nostalgia as caminhadas nocturnas, mas é pouco provável que tenham voltado a servir-se da experiência que adquiriram com elas. A mim está a ser-me útil. Sinto-me confiante a subir para Poon Hill, o miradouro do Annapurna, sem qualquer fonte de iluminação artificial: prefiro que a vista se habitue às trevas e funcione num registo intuitivo. Uma lanterna iluminaria o próximo passo mas reduziria o resto a uma muralha de escuridão.
O meu guia concorda. Para ele não é um problema, vive de caminhar até Poon Hill e outros destinos de trekking dos Himalaias. Poon Hill é particularmente famoso porque permite uma das vistas mais espectaculares de todo o Nepal: um planalto a 3200 metros rodeado por um semicírculo de algumas das montanhas mais altas do mundo. Há cinco anos vivi em Poon Hill uma das madrugadas mais bonitas da minha vida. Depois de alguns dias a caminhar debaixo de tempo encoberto, cheguei num dia cristalino. A felicidade foi enorme, como se o destino jogasse do meu lado. Agora interrogo-me se devo regressar a Poon Hill, a um lugar onde fui tão feliz. Diz o povo, Gonçalo, que nunca regresses aonde foste feliz.
Há uma razão para esta caminhada nocturna - um projecto profissional em que estou envolvido, e uma autorização do Gabinete de Conservação do Annapurna, que nos faltava. Tivemos que voltar para trás, enquanto o resto da expedição prosseguia. Perdemos mais de meio dia nisto, e quando começámos a subida para Poon Hill anoitecia.Levo um bastão de bambu. Percebo as pedras, reflectem um brilho baço que não sei de onde lhes chega. Aqui são como lajes, planas e ordenadas, e servem para colocar o próximo passo. Subo ofegante. Começo a notar a rarefacção do oxigénio - uma leve sugestão de tontura que, paradoxalmente, me faz sentir ainda mais activo, alerta, pleno de vida. Creio que a euforia vem do uso que estou a dar aos restantes sentidos, vem de relegar a vista para um plano secundário. Que experiência tão intensa viajar sem ver.
Tacteio com a ponta dos pés a subida para Poon Hill. Escuto a noite com uma concentração inédita na minha vida. A embriaguez pela falta de oxigénio faz-me perder a noção do cansaço e flutuar por cima das dores musculares das pernas. Tento recordar quando foi a ultima vez que me senti tão feliz. Talvez aqui, há cinco anos.
Não sei como estará a madrugada dentro de umas horas em Poon Hill. Deve estar completamente encoberta. A muralha exuberante das montanhas mais altas do planeta permanecerá ocultada por uma cortina de nuvens. Para muitos caminhantes poderá ser uma visão frustrante. Para mim, uma revelação: volta sempre ao lugar onde foste feliz, Gonçalo. Mas à procura de outros tipos de felicidade, que aconteçam a outras horas do dia.
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Gonçalo Cadilhe
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9:00 Domingo, 7 de Jun de 2009
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Um exemplo extraordinário de coragem e força de vontade pelo mais improvável surfista do mundo.
Tudo corre muito melhor na vida do Deddy. Quando o conheci as coisas não estavam bem. O tsunami tinha-lhe entrado pela casa e destruído os postais que eram, na altura, a sua fonte de rendimento. O Deddy ia pelas pensões de Sorake a tentar a vender o que restava dos postais aos turistas. Eles olhavam para os postais do Deddy e não viam postais, viam farrapos de fotografias, borrões de lama, papéis corroídos pelo salitre. E não compravam.
Deddy estava, portanto, desempregado. Na altura, em Outubro de 2005, defini o meu amigo, nestas páginas da Revista Única, da seguinte forma: "É um miúdo esperto, este Deddy. Fala um inglês quase perfeito, que aprendeu conversando com os surfistas de passagem. O Deddy vive numa cadeira de rodas, teve poliomielite quando tinha 2 anos, sorri sempre e vende postais. Eis uma vida resumida."
Felizmente o Deddy já não precisa de vender postais. Trabalha há um ano e meio como operador de rádio na delegação local da Cruz Vermelha Espanhola. Tem um bom salário. Com o primeiro ordenado comprou umas próteses - acho que se chamam assim - que encaixam nas pernas mortas que carrega no corpo. Quando caminha, apoiado nas muletas, parece que as pernas também caminham. Usa muito menos a cadeira de rodas. Sorri muito mais.
A vida corre melhor em muitos aspectos, mas uma coisa manteve-se tragicamente inalterada: o Deddy já não pode fazer surf. O terramoto que atingiu a ilha de Nias, poucos meses depois do tsunami, levantou o fundo do mar cerca de um metro. Parece uma imagem da ficção científica apocalíptica americana: um extraterrestre, um Godzilla, um King Kong, que caminham pela cidade e cada passo destrói um quarteirão, abre fendas no asfalto, espreme e ergue o solo como uma crosta de massa folhada.
Antes do terramoto, uma língua de areia separava a marginal de Sorake da linha da maré, do princípio do mar. O Deddy podia arrastar-se até à água através da areia e depois remar em cima da prancha. Quando o terramoto levantou a placa terrestre, colocou o banco de coral à superfície. Antes, o banco de coral estava a um metro de profundidade - quando terminava a areia, começava um universo líquido onde tudo se torna mais leve e flutuante, até mesmo duas pernas mortas penduradas da cintura para baixo. Agora, o coral está a descoberto. Para chegar ao mar, é preciso atravessar um campo de lâminas expostas. Um faquir consegue. Um surfista com botas de borracha consegue. Um pescador com sandálias também. O Deddy é que já não.
O surf é uma bênção da vida na Terra. Praticado há mais de mil anos pela realeza havaiana, descoberto para a Europa pelo capitão Cook, proibido pelos missionários durante o século XIX, mas reabilitado a partir dos anos 20 do século passado, o surf não pára de crescer em popularidade. A razão é simples: deslizar na energia da onda é um dos momentos mais felizes da existência humana.
Lembro-me claramente do dia que mudou a minha vida. Não sei quando foi, porque passaram já quase trinta anos. Sei que foi no início do Verão de 1981 na Figueira da Foz. A primeira vez que entrei no mar com uma prancha e desci uma onda. Não era ainda surf, pois demora meses a aprender a estar em pé. Desci a onda deitado. Mas foi suficiente para mudar a minha vida. Desde então, nunca mais deixei de surfar: é a principal linha condutora do meu percurso existencial, a minha paixão mais coerente, uma prioridade intemporal. O Deddy deve sentir o mesmo.
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Gonçalo Cadilhe
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9:00 Domingo, 31 de Mai de 2009
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Num dia de espera no porto de Padang testa-se o pulso à selecção nacional.
O futebol entrou tarde na minha vida, e mesmo assim não por opção pessoal mas por obrigações profissionais. Até aos 34 anos eu mal sabia distinguir um penálti de uma baliza, um fiscal de linha de um fora de jogo. Foi durante esse meu épico pessoal da volta do mundo sem aviões que precisei de desenvolver um diálogo coerente e sério sobre futebol. A viagem decorreu nos anos de 2003 e 2004, durante esse crescendo que conduziu ao Euro 2004. Por onde quer que eu passasse e desvendasse a minha nacionalidade, recebia logo um "Ah!, Figo". E depois "Nuno Gomes, Ronaldo, Rui Costa", e por aí fora. Nas primeiras vezes passava pela vergonha de ter que perguntar quem eram estes nomes e apelidos que até pareciam portugueses. Depois, acabei por decifrar o que esses sotaques exóticos pretendiam transmitir com pasmo e aprovação: estavam a honrar a minha nacionalidade enumerando os representantes da selecção nacional de futebol.
Aprendi a composição da equipa lusa, as suas fraquezas e as suas virtudes, quem atacava, quem defendia, quem estava já na curva descendente, quem eram as novas promessas. Anos mais tarde, ou seja, agora, continuo a ver a minha nacionalidade homenageada com o mesmo pasmo e aprovação em idiomas exóticos.
O idioma de turno hoje é o Bahasa, a língua oficial da Indonésia. Quem o fala é o meu companheiro de mesa do barracão que serve cafés e biscoitos do porto de Padang. Linguisticamente, e culturalmente, ninguém podia estar mais longe de mim do que este estivador. A incompreensão é total. Mas temos uma coisa em comum: uma lista de jogadores.
Espero o ferry semidestroçado que uma vez por semana liga Padang ao arquipélago das Mentawai. Espero sentado. Um estrangeiro é um bom pretexto para uma pausa, um café, um cigarro. Como é pequeno o mundo nos pequenos prazeres do quotidiano. Mais estivadores juntam-se a nós. Voltamos a enumerar os meus jogadores com pasmo e aprovação.
"Ricardo" lança um deles para a mesa. Consenso do grupo mais suado de estivadores. "Deco", sugere outro. Muitos abanões positivos de cabeça nos bancos mais à sombra. "Cristiano Ronaldinho", diz um terceiro. Movimento agitado da bancada a bombordo. "Figo", exclamo eu. "Figo", repete o coro com solenidade.
O que tem o Figo que os outros não têm? Continua a ser o mais popular e respeitado jogador português em idiomas exóticos, tanto quanto sei. Será aquela cara, metade ocidental, metade médio-oriental, que sugere tolerância e antiguidade, e lhe conquista as simpatias do sul do mundo? Será a ideia de fiabilidade e sentido de honra que acompanha a expressão sisuda? Será a Fundação, a vida de família, os valores mais altos?
O café na Indonésia, mais do que a bebida nacional, é uma bebida ritual. A cerveja não faz parte do imaginário colectivo, estamos num país quase todo muçulmano e o álcool, como se sabe, não fica bem. Deita-se uma colher de café de saco num copo de água a ferver, espera-se uns minutos que o pó afunde, e bebe-se da taça enquanto existe só líquido. Saber parar antes dos lábios e os dentes ficarem cheios de borra é uma arte que eu ainda tenho que dominar. O meu terceiro "Luís Figo" exclamado sai-me da boca junto com uma rajada de pontos negros.
Reparo melhor no aspecto duro e desgraçado dos estivadores do porto de Padang. Na percepção ocidental, cada um destes homens podia representar a parte do serial killer nos filmes do Sandokan: é assim que nós imaginamos o malaio mau da fita. E, no entanto, tratam-me com candor e amizade. E não me deixam pagar os meus cafés. Cada um custa 4 mil rupias, insisto que pago o meu, aliás que pago a rodada. Não deixam.
Faço contas. 4000 rupias são cerca de 25 cêntimos de euro. Um ordenado mensal na Indonésia andará à volta dos cem euros. Um ordenado médio em Portugal andará à volta dos 800 euros, quanto custaria este café lá? Regra de três simples, 25 cêntimos está para cem euros como x está para 800.
O equivalente em generosidade para mim seria pagar uma conta de 2 euros num bar a um estrangeiro desconhecido. É provável que não o fizesse. A não ser que ele viesse da estiva do porto de Padang - ou, mais simplesmente, que eu o associasse a uma ideia de honradez e tolerância, a valores mais altos e profundos.
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Gonçalo Cadilhe
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9:00 Domingo, 24 de Mai de 2009
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Longe da capital filipina ainda se cultiva arroz em pequenas parcelas a mais de mil metros de altitude.
Caro leitor, vamos aceitar sem grandes polémicas que os socalcos de arroz de Banaue são o lugar mais bonito do mundo. A mais de mil metros de altitude, desafiam a fantasia humana. Será que existem? Ou trata-se de ilusões ópticas, de sugestões provocadas pela sombra do sol, pela curva da falésia, pelos matizes de verde da vegetação? Não está em causa apenas a fantasia de quem olha, mas a soma de todas as fantasias que acreditaram possível plantar arroz aqui: a esta altitude, em pequenos terraços escavados em montanhas a pique sobre vales profundos, ao longo de dezenas de séculos de sangue, suor e fome.
Mas sim, existem e resistem. E já explico qual a urgência de chegar aqui. Chega-se de madrugada, ao fim de 8 horas de curvas. O dia nasce, o corpo queixa-se. Mas logo a seguir os sentidos rectificam a disposição. Os pulmões sugam o ar outra vez puro e cristalino, depois da cortina obscena de smog da capital das Filipinas. A pele sente o frio revigorante da altitude, quase seco, quase balsâmico e hoje não será um dia de transpiração intensiva nem de roupas encharcadas. E por fim os olhos vêem: os primeiros socalcos, para lá das fachadas pobres da cidadezinha e dos riquexós que já atravancam a praça central.
Ao descer do autocarro um enxame de taxistas, guias, cicerones e agentes hoteleiros ataca o viajante com propostas, dicas, descontos, promessas. Há que seguir a intuição, e escolher a face que parece mais honesta e profissional. Sobretudo se a intenção for a de ter um guia para caminhar pelos socalcos.
A lógica do trekking é a de seguir percursos milenários que ligam as várias aldeias, e dormir cada noite em uma diferente, em quartos adaptados para os viajantes nas casas dos camponeses. Não há estradas. O caminho é por vezes bastante cansativo, com grandes subidas e descidas pelas encostas, mas sempre fácil, seguro e bem assinalado.
Tudo isto é absurdo, obsoleto e em última análise desumano. Cultivar arroz em pequenas parcelas a esta altitude? Para quê? Custa menos comprá-lo made in China ou em outra região qualquer de planície e de agricultura mecanizada. Por sua vez, os socalcos requerem manutenção constante, estão sempre a desabar, são uma prisão. E o mais tragicómico é que não há dinheiro nisto: é pura economia de subsistência. Banaue não faz sentido no século XXI, e por isso é fácil de prever que tem os dias contados.
Os mais jovens emigram, os mais velhos envelhecem. Os Terraços de Banaue vão sendo abandonados. Talvez um governo regional clarividente num país rico pudesse inverter a situação, por exemplo seguindo as medidas tomadas na Provença de subsidiar o cultivo da alfazema, que durante o Verão enche as colinas de ondas violeta. A alfazema em si não é rentável, mas o movimento turístico que a sua presença gera, sim. Somos milhares os que vamos à Provença ver os campos de alfazema em flor.
Não somos tantos os que vamos a Banaue ver os socalcos de arroz. É preciso gostar de caminhar. Mas um consórcio estrangeiro anda a mexer cordelinhos para ter a autorização de construir um megateleférico que atravesse os três principais vales da região. As povoações locais tentam mobilizar-se para o impedir. A Unesco ameaça retirar Banaue da sua lista. Se o teleférico se construir, serão muitos a visitar o que resta dos socalcos semiabandonados. Eu já não serei um deles. É preciso ir agora, e concordar que é o lugar mais bonito do mundo. Talvez assim seja subsidiado, e preservado.
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Gonçalho Cadilhe
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9:00 Domingo, 17 de Mai de 2009
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O que se compra e o que se vende e como se vive pelas ruas de Manila, e os encontros que não se esperam.
Não acredito em bruxas, mas existem e esta é uma delas. Agarra-me o braço com fervor e sorri sem dentes. "I do good magic for you, sir". Aponta os seus instrumentos: cartas de jogar, saquinhos com ervas, poções, quadros de santos e um livro velho. Estão dispostos ordenadamente num banco do passeio. Como num consultório. Ao ar livre.
Agradeço e recuso. Continuo a caminhar pela marginal de Manila, recusando outras coisas: gelados artesanais; retratos instantâneos em velhas polaroids; balões e papagaios; mexilhões crus e, esperemos, frescos; fatias de mango pulverizados com sal e malagueta; espetadas de uma carne qualquer a assar na brasa. Outras centenas de bancos alinham-se na direcção do pôr-do-sol e cada um tem o seu negócio.
Estou numa das cidades mais congestionadas, caóticas, poluídas, desumanizadas do planeta. Ou melhor: uma das mais humanizadas. Repleta em excesso de seres humanos. Ao fim de cada tarde, uma pequena parte deste excesso baixa à marginal de Manila para assistir ao pôr-do-sol. É um espectáculo simples e acessível, nunca monótono. As nuvens a estas latitudes prestam-se a isso e na linha do horizonte um par de vulcões dá-lhe o toque exótico.
Há muitas gerações, talvez antes da Guerra, diz-se que Manila tinha fama de ser um dos melhores lugares do mundo para ver um poente. Os cruzeiros procuravam-na. Hoje, que fama tem Manila? Fama de dinheiro fácil. Não muito, uns trocos, uma miséria. Mas para as povoações do mundo rural, ainda fora de uma economia monetária, uma temporada na cidade pode mudar a vida de uma família. Talvez aproveitem entre cada época de colheita do arroz para descer à cidade à procura de qualquer coisa que encontrem. O que quer que seja.
Os bancos da marginal de Manila são a casa de gente assim. De noite continuam aqui. Se vem o aguaceiro ocasional não sei o que fazem, talvez envolvam os seus pertences num plástico impermeável e esperem molhados que a chuva passe. Se querem um quarto de banho, não sei onde vão, talvez se agachem entre os blocos de protecção da marginal. Se têm uma gripe, uma pedra nos rins, uma apendicite, não sei quem os trata, quem os salva. Não sei nada deles, entreolhamo-nos e entre cada olhar ergue-se um muro de silêncio e incompreensão.
A verdade é que o pouco que sei das pessoas do mundo vem da coincidência de uma ferramenta comum: o uso do inglês. Se essa coincidência não acontece, as minhas suposições sobre elas têm o mesmo valor das de um Pigafetta sobre os Patagões: tantos séculos depois, continuamos no campo da pura fantasia. Mas, quase sempre, as pessoas do mundo que falam inglês pertencem a um estrato social médio-alto, que pode dedicar-se a estudar idiomas estrangeiros. E, assim, o que eu encontro é o que já conheço: gente do século XXI, de uma sociedade global que vê os mesmos filmes de Hollywood, que escuta as mesmas bandas de rock clássico, que tem a mesma opinião sobre Bush e a guerra do Iraque, que distingue claramente ethnic food de junk food e que sabe a mesma versão da História Mundial: a versão dos vencedores.
Na marginal de Manila passo ao lado da outra gente do século XXI, chamemos-lhe a maioria silenciosa. Não compro, nem sequer quero oferecido, nada do que a maioria silenciosa tem para vender. Seria deliciosa essa espetada na brasa em Portugal, cheira bem, está preparada com dignidade e profissionalismo, mas aqui que garantias de higiene tem? Nenhumas. Se calhar também comia um desses gelados artesanais, os sabores que para nós são exóticos, num gelado aqui são o quê, tradicionais? Mas com que gelo foram feitos? Com que água? Bem me apetecia umas fatias desses mangos já preparados, renunciando no entanto às emoções fortes da malagueta em pó. Afinal, os mangos de Manila têm fama de ser dos melhores do mundo.
No entanto, acabo por comprar uma das coisas que se vende na marginal de Manila. Um serviço. Uma massagem. Pelos vistos entro na zona das fisioterapias de rua: vários massagistas esperam ou servem clientes. Dirijo-me a um que se despede de um senhor em fato e gravata, um executivo, que entra para um táxi. É esta a sua melhor credencial para mim: faz massagens à minoria altifalante fluente em inglês.
Sento-me no banco, e concordamos o preço. Em inglês. Espanto-me: "You speak english?" Fala, e bem. Explica que é um "indigente", palavra difícil, de um nível elevado de vocabulário. Explica-me como vive, de onde vem, o que espera da vida e o que levou dela para chegar aqui, para falar assim. É uma das massagens mais profissionais e eficazes que jamais recebo. Pelo preço de uma cerveja em Portugal.
A massagem inclui dois extras: comunicação com essa alusiva, incompreendida maioria silenciosa; e vista sobre um pôr-do-sol que há umas gerações atrás, diz-se, era um dos mais afamados do mundo.
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Gonçalo Cadilhe
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9:00 Domingo, 10 de Mai de 2009
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Um reencontro casual na cidade australiana onde, diz-se, nada acontece por acaso.
O Beppe Abbruzzeze diz que lhe mudei a vida, mas eu não me lembro. Diz que foi numa manhã em Chiavari, a cidade italiana onde ambos vivíamos na altura. Éramos amigos. Houve muitas manhãs em Chiavari.
Não me lembro particularmente dessa. Diz que nessa manhã estivemos a conversar sobre a sua vida, que não ia a nenhum lado, que não tinha sequer uma encruzilhada, um ponto de fuga, e que lhe sugeri que fosse viajar por uns tempos. A nossa conversa foi o primeiro passo dessa viagem. O Beppe começou a viajar. Eu também. Depois dessa manhã não voltámos a encontrar-nos.
Caminho por Byron Bay, mas é por acaso. O meu destino está mais a norte, em Queensland, mas preciso de um café depois de 900 kms a conduzir desde Sydney. Estava cansado de conduzir. Não tinha apanhado um autocarro com etapas pré-fixadas, parei para dormir três noites e não duas ou quatro. Acumulam-se, numa sucessão, factores tão aleatórios que podia ter parado em qualquer outra cidadezinha da costa leste da Austrália, ou em qualquer outro dia nesta mesma cidade.
E ter encontrado qualquer outro lugar vazio para estacionar. Encontro um à frente de um ateliê de tatuagens, ao lado de um bar. Peço um café e escolho a esplanada. O Beppe sai nesse momento do ateliê com uma nova tatuagem no corpo. Literalmente, damos um encontrão um no outro. Reencontramo-nos, incrédulos e abismados. Mas não é por acaso - é por destino.
Mudei-lhe a vida quando lhe disse que ele tinha a melhor profissão do mundo para viajar: pizzaiolo! Um italiano que sabe fazer pizas tem emprego em qualquer lado. Basta conhecer a geografia dos tour operators, seguir as temporadas turísticas: Novembro a Fevereiro nas Caraíbas ou na África do Sul ou no Mar Vermelho; Março a Maio no Sudeste Asiático, nas Polinésias, no México; Junho a Agosto no Mediterrâneo ou na Califórnia.
Um pizzaiolo só precisa de estar no lugar certo no momento errado, ou seja, quando esse lugar está cheio de turistas.
Foi assim que o Beppe chegou a Byron Bay: no momento errado, quando a cidadezinha estava invadida por veraneantes e a pizaria local precisava de um segundo pizzaiolo para o excesso de pedidos. Entretanto chegou a gestor da pizaria e elevou o menu à categoria de "cozinha internacional". No Natal anterior conseguiu trazer os pais para passar uns meses com ele.
Teve de os ir buscar, eles nunca entrariam num avião sozinhos. Os pais do Beppe emigraram da Calábria profunda para o norte industrial italiano sem nunca conseguir deixar que essa paisagem áspera e pobre lhes saísse da alma. Gente humilde, fora do tempo, perplexos e magoados quando o filho abandonou um emprego e um país para correr o mundo. Nunca compreenderam o que ele via nesse estilo de vida. O Beppe precisava de lhes mostrar. A estada dos pais na Austrália foi um dos períodos mais emocionantes da vida de todos.
Fico hóspede do Beppe. Reside numa vivenda alugada, com vários quartos que por sua vez subaluga a outros viajantes estacionados em Byron Bay para a temporada: Josefina, da Argentina que trabalha numa geladaria, Mirco, da Sardenha que tira cafés num "expresso bar", e por aí fora. Todos os flatmates, os co-inquilinos, do Beppe estão na mesma situação: arranjaram um trabalho ocasional em Byron Bay para financiar os próximos quilómetros da viagem. Porque viajar não é apenas continuar, é também encontrar um lugar certo para ficar.
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Gonçalo Cadilhe
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9:21 Sexta-feira, 1 de Mai de 2009
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O que tem a Austrália que atrai tanto os viajantes? Talvez a promessa de um tipo de felicidade.
A ideia deles, jovens e belos, é atravessar a Austrália. Conduzir desde o Índico até ao Pacífico, desde a Costa Oeste até à Grande Barreira Coralina, "numa carrinha com cama, frigorífico, fogão", que tinham comprado em Perth". Foi à saída do aeroporto, num stand de usados. Havia muitas carrinhas a vender, e muitos jovens a comprar. A ideia da Chiara e do Nicolò é viajar durante um ano pelo quinto continente, "depois logo se vê" - é tão fácil nesta idade dizer "depois logo se vê", ele com 26 anos e ela com 22, jovens e belos e apaixonados. E também é fácil viajar pela Austrália quando se tem um "Working Holiday visa". Eles têm um.
O site do Governo australiano explica o que é um Working Holiday Visa: um visto que permite combinar uma viagem de férias com possibilidades de emprego de curta duração para financiar uma estadia de um ano no país. O objectivo deste programa é o de fortalecer laços e criar "intercâmbios culturais" entre a Austrália e os países participantes. Para obter um destes vistos é necessário ter-se entre 18 e 30 anos; e pertencer a uma lista de nacionalidades com as quais a Austrália tem este regime de reciprocidade. A Estónia, a Turquia, a Alemanha, a República de Malta, o Chile, são alguns dos trinta e tal países que se encontram nessa lista. Portugal não está lá. A Itália, sim. O Nicolò e a Chiara aproveitam. É deles a vida fácil, a vida livre.
Desde que chegaram à Austrália, há seis meses, já trabalharam em herdades vinícolas, em quintas de ganadaria, na apanha da fruta. "Também vamos vendendo colares de missangas pelas feiras de artesanato que encontramos pelo caminho." Quando gostam de um lugar, passam a ser co-proprietários: "Estacionamos a carrinha e dormimos lá." Os parques naturais, as praias selvagens, as bermas das estradas no deserto, os miradouros sobre prados e colinas - tudo o que é bonito e imenso lhes pertence, em parceria com outros milhares de jovens que escolheram a Austrália por uma certa ideia de liberdade. É um curioso paradoxo: aqui as leis são severas e as regras são para se cumprir; mas desde que te mantenhas na legalidade, és a pessoa mais livre do mundo. Na Austrália podes ser o que quiseres e ninguém se importa com isso. Desfraldado, descalço, composto, alegre, soturno, solitário, gregário inebriado, vagabundo, eternamente jovem, triste ou para sempre feliz: todas estas coisas só a ti dizem respeito, e ninguém na Austrália se importa com isso. Vive a tua vida e não te metas na do próximo. Esta é a maior liberdade que um ser humano pode conquistar.
Chiara e Nicolò têm outros seis meses, "depois logo se vê". Viajar um pouco mais, a Ásia logo aqui ao lado. Talvez no regresso a Itália parem na Etiópia, para visitar as igrejas rupestres de Labilela. "Dizem que é onde se encontra o umbigo do mundo", exclamam a rir. Não percebo a piada. Perguntam-me, espantados: "Não conheces a canção do Jovannoti?".
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Gonçalo Cadilhe
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9:00 Domingo, 26 de Abr de 2009
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Depoimentos de alguns viajantes com uma coisa em comum: pouco dinheiro mas muito tempo.
Os hotéis backpackers são um bocado como o ovo do Colombo: uma solução óbvia para viajantes com pouco dinheiro, mas ninguém tinha pensado nela. Os backpackers são alojamentos informais geralmente organizados em dormitórios, com quartos de banho partilhados e enormes cozinhas comunais.
Nos últimos vinte anos espalharam-se exponencialmente por vários países turísticos do mundo, nomeadamente Austrália, África do Sul, Nova Zelândia. Ao contrário das obsoletas Pousadas da Juventude, não requerem que os seus hóspedes sejam membros de nada, não têm horários de entrada ou permanência, não precisam de pertencer a uma organização centralizada.
Inicialmente pensados para jovens mochileiros, o conceito alargou-se a outras faixas etárias e outras carteiras. Hoje, é comum encontrar, a par com os dormitórios, quartos individuais ou de casal, alguns mesmo com WC privativo.
Em Kaikoura, na ilha do Sul da Nova Zelândia, a pousada Dusky Lodge, membro da Budget Backpackers Hostels oferece uma semana de dormida aos voluntários que aceitarem, durante duas horas de cada manhã dessa semana, participar na limpeza do estabelecimento. Significa pôr ordem nas cozinhas e casas de banho, aspirar, arrumar os espaços comuns e também preparar os quartos para novos hóspedes.
Oito mochileiros das mais variadas partes do globo, sem qualquer contacto prévio entre si, decidem inscrever-se no programa. Têm apenas uma coisa em comum: mais tempo que dinheiro. São eles os cleaners desta semana em que eu fico hospedado no Dusky Lodge. Estão em vias de se tornar grandes amigos ou, pelo menos, cúmplices para o resto da vida no que a vida tem de melhor: ser jovem e estar em viagem. Falo com alguns deles.
O Paul tem 33 anos e vem de Galway. Depois de uns tempos a trabalhar como barman nas ilhas Jersey, decidiu-se por uma longa viagem à volta do mundo. Veio de comboio pela Europa central e Rússia até à Mongólia, onde passou umas semanas; depois continuou a 'descer' até Singapura e aí apanhou um voo para a Austrália. Trabalhou na apanha da fruta seis semanas e como servente de pedreiro quatro meses em Sydney. Acaba de chegar à Nova Zelândia, mas já fez um investimento substancial para um mochileiro: comprou um velho carro. Tem uma grande paixão: pescar trutas de montanha. E encontra-se num dos melhores lugares do mundo para isso. O carro é essencial para chegar às montanhas.
A Linda, de 22 anos, vem de Augsburgo, e interrompeu o curso de germânicas durante seis meses para investir no seu nível de inglês. Viajando pela Nova Zelândia. Podia ser outro país de língua inglesa, mas o filme do Senhor dos Anéis convenceu-a de que as paisagens mais bonitas do mundo estavam neste. Ao princípio teve medo de viajar sozinha, agora já não tem. Não se inscreveu em nenhum curso, quer estar livre e disponível para visitar todo o país. Mas esteve durante as primeiras semanas a trabalhar como baby-sitter numa família de Wellington.
O Smith tem 24 anos e é da Carolina do Norte. Gosta de trekking e sabe que chegou a um dos melhores lugares do mundo para caminhar. Pensa ficar um ano inteiro aqui. Comprou um carro por 350 euros que vai servir também de cama. Só tem um problema, não pega de manhã. Mal chegou à Nova Zelândia ficou logo hóspede de uma família que tinha conhecido no avião.
A Kate, 27 anos, deixou Plymouth num momento delicado da sua vida e chegou sem dinheiro, apenas com um bilhete de ida e volta. Mas sabia que aqui podia arranjar facilmente emprego: "O país é novo, revigorante, fácil e precisa de gente." Nas primeiras duas semanas, enquanto procurava trabalho, ficou num backpackers sem pagar; assim que recebeu o primeiro salário acertou as contas: "Foram impecáveis; mas é comum, quando um mochileiro está nas lonas, ter crédito num backpacker." Tem viajado à boleia, e está outra vez a precisar de trabalhar. Marcou o voo para a Inglaterra no Verão, "para custar menos o regresso".
Eu podia continuar horas a recarregar as minhas baterias, a sugar a energia que contêm quer as histórias, quer os jovens mochileiros que as contam. Mas, se eles querem dormir de graça esta noite, têm que trabalhar esta manhã. O grupo dispersa-se pelos corredores do backpackers, o cheiro de desinfectante e detergente espalha-se no ar.
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