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Robôs e Humanos

Controlo ou Autonomia?

Os robôs estão a invadir o planeta. Não por via extraterrestre como se vê nos filmes, mas nascendo um pouco por toda a parte, em poderosos centros de investigação tanto quanto em desarrumados quartos de adolescentes. Lentamente, a nova espécie vai ocupando espaço e tarefas. Alguns fazem-no em aparições televisivas que correm o planeta e entusiasmam multidões. Mas, mais do que saber se um robô pode ser autónomo ou não, a questão que realmente se põe é saber se nós, humanos, estamos dispostos a aceitar a convivência com máquinas que fazem o que lhes apetece?

Leonel Moura
23:47 Domingo, 14 de março de 2010

Os robôs estão a invadir o planeta. Não por via extraterrestre como se vê nos filmes, mas nascendo um pouco por toda a parte, em poderosos centros de investigação tanto quanto em desarrumados quartos de adolescentes. Lentamente, a nova espécie vai ocupando espaço e tarefas. Alguns fazem-no em aparições televisivas que correm o planeta e entusiasmam multidões. Outros vivem na clandestinidade e nem damos por eles. Pense-se numa caixa de Multibanco. Na verdade, trata-se de um robô discreto a quem pedimos dinheiro. Depois de conferir a nossa identidade e situação bancária, o robô conta e entrega as notas. Nunca se engana.

Nesta persistente invasão os robôs vão-se multiplicando velozmente em multíplices variedades. A robótica vive a sua "explosão cambriana". Temos robôs industriais, mineiros, de vigilância, de entretenimento, aquáticos, aéreos, humanoides, insetoides, criativos, de companhia, de laboratório. E também, infelizmente, assassinos com objetivos militares. As diferenças são de ordem morfológica, funcional ou comportamental. Mas, é possível distingui-los em grandes grupos. Desde logo entre os humanoides e os não-humanoides. Os muito inteligentes ou os que fazem tarefas repetitivas. E, sobretudo, os que se baseiam no controlo e os que escapam ao controlo. Os obedientes e os desobedientes. Os que fazem o que os humanos querem, e os que fazem coisas por si. Os controlados e os autónomos.

Como artista empenhado em criar robôs artistas tenho-me interessado sobretudo pelos que possuem algum grau de independência. Partindo do pressuposto de que é viável construir máquinas criativas e de que a verdadeira criatividade só é possível em liberdade, importa dotar a máquina da maior capacidade de decisão própria.

Na evolução da robótica esta questão é aliás central. O paradigma da máquina dependente do humano não é eficaz já que, em muitas situações, as condições ambientais são desconhecidas pelo programador humano. A realidade é inesperada e imponderável. Pretender tudo conhecer e tudo prever é impraticável. Nessa medida, a robótica de controlo nunca conseguirá desenvolver robôs com capacidade de adaptação ambiental pelos seus próprios meios.

Assim, na medida em que os robôs são, para já, uma exclusiva criação humana, o problema reside em saber como se consegue desencadear uma efetiva autonomia da máquina. Ou seja, sendo certo que a conceção, as regras base do comportamento, as capacidades gerais e até o momento em que se liga e desliga têm origem num ser humano, é ou não possível criar máquinas capazes de fazer coisas originais e inesperadas?

Antes de tudo é preciso entender que um robô é mais do que um mero computador com pernas ou rodas. Um robô tem sensores que lhe permitem recolher informação diretamente do ambiente. Um robô vive no mundo. O que lhe permite estabelecer relações e interagir com objetos, pessoas e outros robôs. Se a isto se acrescentarem processos emergentes, um "pensar" e um agir não-lineares, então o robô passa a ter algum grau de autonomia que aumentará tanto mais quanto seja a sua própria complexidade.

Assim, mais do que saber se um robô pode ser autónomo ou não, a questão que realmente se põe é saber se nós, humanos, estamos dispostos a aceitar a convivência com máquinas que fazem o que lhes apetece?

Nota

O conteúdo deste blogue é da inteira responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Robótica.

Palavras-chave  Blogues, Ciência, Autonomia, robótica, Arte
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