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Contra a síndrome do silêncio. Basta.

É mais fácil dizer que as crianças mentem do que salvá-las dos seus abusadores.

Inês Pedrosa
8:00 Quarta feira, 5 de agosto de 2009

As mentiras de uma criança são fáceis de desarmadilhar. Difícil é fazê-las falar. Eu sei. Todas as crianças que alguma vez foram vítimas de abuso sexual o sabem. Mas sabem-no sempre demasiado tarde. Quando acontece, a vergonha é maior do que tudo. Maior do que o medo. Sentimo-nos cúmplices, porque pensamos que os adultos sabem sempre mais. Temos medo que deixem de gostar de nós. Todos eles: os que abusam de nós e os que nos protegem. Se o abuso acontecer muito cedo na nossa vida, nem aprendemos a distinguir uma coisa e outra. Tanto pior quanto mais próximo for o abusador. É diferente ser-se abusado por um pai ou por um parente afastado. Não imagino o que seja ser-se abusado por um pai. Mas sei o que é ser-se abusado. Milhares de crianças o sabem e calam-se. Mesmo nos abusos menos graves calam-se, como eu me calei. Para não entristecer a mãe. Para não horrorizar o pai. Para não desiludir ninguém.

Depois de escrever a história da menina de Fronteira, presa numa instituição, longe da mãe e dos avós, por ter confessado os abusos do pai, soube de várias outras histórias semelhantes. Uma mulher da minha idade soluçava, ao telefone: "Eu que nunca disse ao meu filho uma palavra que fosse contra o pai, pelo contrário, sempre tentei que ele mantivesse a ligação com ele, porque sei como é importante a imagem do pai para um menino, agora sinto-me diante de um pelotão de fuzilamento." Síndrome da alienação parental, dizem eles. Uma expressão técnica que afasta os papões. As pessoas divorciam-se e procuram virar os filhos contra o ex-cônjuge, é muito simples. Há especialistas em detectar esse síndrome como um vírus da gripe, no ar, sem sequer conhecer o pai ou a mãe que acusam. Os tribunais desconfiam, por princípio, dos pedopsiquiatras que acompanham as crianças, porque são contratados por uma das partes em conflito. Mas aceitam e acarinham os relatórios dos teóricos da "síndrome de alienação parental", mesmo que esses teóricos nunca tenham posto a vista em cima do progenitor que acusam. Deviam ter mais cuidado.

Aquela senhora americana que veio a Portugal explicar que é muito fácil incutir nas crianças "falsas memórias", no auge do processo da Casa Pia - processo que se esfuma no silêncio do horizonte, já repararam? -, foi entretanto expulsa da Ordem dos Psicólogos dos Estados Unidos. Claro que a essa notícia ninguém deu eco. Teóricos há muitos. Mais do que casais realmente capazes de fazer com que os seus próprios filhos acusem o outro progenitor de abuso sexual, só para se vingarem dele. Até porque, repito, uma criança abusada cala-se. Eu sei. Como sei, e isso sabemos todos, que a maior percentagem de abuso acontece no interior da família. E sabemos todos que um homem violento é tendencialmente um abusador sexual. Porque não é de sexo que se trata, mas de poder. De exercer um poder absoluto sobre alguém. Os juízes não acreditam nesta mulher que sabe que o seu filho é abusado pelo pai, porque o pai não é homossexual. Tem relações com mulheres. Os preconceitos contra a homossexualidade persistem, porque tranquilizam: criam um muro entre o que é "normal" e o que não é. Este menino de 7 anos, abusado pelo pai, diz à mãe: "Não te preocupes, mãe, eu não o deixo voltar a fazer isso. Eu gosto muito dele." Este menino acabou por falar - depois de anos a acordar aos gritos a meio da noite, com dores súbitas e inexplicáveis. Os seus desenhos, dizem os especialistas, revelavam claramente o abuso, desde há muito tempo.

Acontece porém que o pai é amigo de um magistrado influente. A família do pai tem uma proximidade com o poder judicial que a mãe não tem. Em tempos, a família do pai disse à mãe que tinha que ter paciência, porque aquele que estava para ser pai do seu filho sofria de uma esquizofrenia que não queria admitir. Agora, todos negam alguma vez ter dito isso: o monstro é ela, a mãe acusadora. Recordam aos juízes que o seu pai morreu quando ela estava grávida, o que só pode ter-lhe afectado o juízo. Contratam uma especialista na detecção abstracta da "síndrome de alienação parental", que faz um relatório extenso que transforma a mãe - que não conhece - numa louca.

E a criança vive no meio deste inferno. Quando é que se deixam de teorias para proteger os abusadores e começam a pensar na dignidade das crianças, senhores doutores juízes? Para que uma criança fale, é preciso muito. Mesmo nos abusos mais leves. Mas o que é um abuso leve?

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Crónica absolutamente digna de uma grande vénia
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 23:53 | Quarta feira, 5 de agosto de 2009

O meu aplauso, de pé, pela frontalidade, coragem e firmeza que colocou nas suas palavras.

Infelizmente, o peso das conveniências, dos interesses instalados e das heranças culturais é maior do que o valor da justiça que tanto apregoamos.

As minhas felicitações por um texto tão digno!

:-))
 
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Estou tão farto!
lord byron (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 7:12 | Sexta feira, 7 de agosto de 2009
“Uma mulher da minha idade soluçava, ao telefone: "Eu que nunca disse ao meu filho uma palavra que fosse contra o pai, pelo contrário, sempre tentei que ele mantivesse a ligação com ele, porque sei como é importante a imagem do pai para um menino, agora sinto-me diante de um pelotão de fuzilamento."”

“Acontece porém que o pai é amigo de um magistrado influente. A família do pai tem uma proximidade com o poder judicial que a mãe não tem. Em tempos, a família do pai disse à mãe que tinha que ter paciência, porque aquele que estava para ser pai do seu filho sofria de uma esquizofrenia que não queria admitir. Agora, todos negam alguma vez ter dito isso: o monstro é ela, a mãe acusadora. Recordam aos juízes que o seu pai morreu quando ela estava grávida, o que só pode ter-lhe afectado o juízo. Contratam uma especialista na detecção abstracta da "síndrome de alienação parental", que faz um relatório extenso que transforma a mãe - que não conhece - numa louca.”

Deixa ver se percebo…Falastes com um pessoa do sexo feminino pelo telefone que te contou isto e tiraste com a mesma veleidade uma conclusão sobre o progenitor masculino uma conclusão como o especialista em “sindroma de alienação parental “ tirou sobre a senhora que te narra esta historia pelo telefone, ou seja sem o conheceres?
Não perco com isto muito mais tempo, pois se na primeira historia a coisa está para o mal contado como te deixei explicado, aqui não está contada de todo. ...
 
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    Re: Estou tão farto! parte 2    Ver comentário
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 7:14 | Sexta feira, 7 de agosto de 2009
Tiro-lhe o chapéu
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 1 ponto , 22:38 | Quarta feira, 5 de agosto de 2009
Apesar de estar, na maior parte das vezes, em frontal desacordo com o que escreve e, inclusivamente, não apreciar o seu estilo, tiro-lhe o chapéu pela coragem de declarar, frontalmente e neste local, ter sido abusada. Sendo uma figura pública, é natural que a hipocrisia dos nossos conterrâneos arranje uma distorcida forma de usar tal infeliz circunstância contra si e as suas causas. Pela minha parte, apesar de continuar discordante de si e não ser seu fã, ganhou a minha admiração e respeito. O seu exemplo de vida e de sucesso deverá, certamente, inspirar muitas outras crianças vítimas de tão trágicos acontecimentos.
 
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Cara Inês!
Platão Lisbonense (seguir utilizador), 1 ponto , 22:15 | Quinta feira, 6 de agosto de 2009
em 1º lugar muito obrigado pelo testemunho sincero que permite compreender melhor o texto da semana passada. Felizmente nunca fui abusado sexualmente mas sei bem o que é sentir o sofrimento solitário da humilhação escravizante. No meu caso por via de um sistema de ensino onde para muitos dos seus agentes do básico ao superior um deficiente não passa de um reles e desprezível inútil da sociedade a quem poucas ou nenhumas atenções são devidas. Felizmente e apesar de tudo consegui a minha tão desejada licenciatura e hoje posso dizer que sou muito feliz trabalhando naquela que considero a melhor empresa do mundo com os melhores colegas do mundo e os melhores chefes do mundo porque também felizmente os há!
Quanto ao silêncio ou à palavra das crianças abusadas convém não esquecer que felizmente as crianças de hoje já não são as da sua geração, as últimas do PT amordaçado nem as da minha geração, as dos 1ºs filhos de Abril! Hoje felizmente qualquer miúdo da mais pequena aldeia não se fica só pelo seu pequeno mundo a jogar à bola com os vizinhos. Hoje este miúdo pega no Magalhães e contacta com todo o mundo! E também ouve professores e colegas na escola. São miúdos mais atentos e apesar de tudo com mais defesas que em gerações anteriores! Por outro lado são também mais autónomos porque muitos deles já não vivem no seio de uma família tradicional mas por vezes só com 1 dos pais ou com algum dos avós! 1 nova realidade a que todos nós e a justiça nos teremos de habituar.
 
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    Re: Cara Inês!    Ver comentário
Platão Lisbonense (seguir utilizador), 1 ponto , 22:27 | Quinta feira, 6 de agosto de 2009
Por falar em síndrome de silêncio
Jonas Savimbi (seguir utilizador), 0 pontos (Despropositado), 13:04 | Quarta feira, 5 de agosto de 2009
Então não tem nada a dizer sobre a decisão dos (tão justos) tribunais israelitas para expulsar de casas de Jerusalem Oriental os seus ocupantes (israelitas árabes muçulmanos) que lá viviam há mais de 50 anos e que tinham todos os papeis a provar a sua posse legal?

Nada a dizer sobre a expansão dos colonatos?

Silêncio total...

Devem ser as casas que eram de chocolate...
 
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