11/02/2012 atualizado às 13:40
Futuro Sustentável 2010

Conservação do lobo ibérico ganha prémio

Biodiversidade O projecto "Conservar o Lobo em Portugal - "Da teoria à prática", do Grupo Lobo, acaba de vencer o Prémio BES Biodiversidade 2010.

Virgílio Azevedo (www.expresso.pt)
9:00 Domingo, 2 de maio de 2010
Há 300 lobos em Portugal. Estão em regressão desde o início do século XX devido à perseguição directa por pastores e caçadores, ao extermínio dos veados e corços e à destruição de habitats
Há 300 lobos em Portugal. Estão em regressão desde o início do século XX devido à perseguição directa por pastores e caçadores, ao extermínio dos veados e corços e à destruição de habitats
Ana Baião

Desenvolver um programa de investigação que permita monitorizar a população portuguesa de lobos, os factores que actuam sobre ela e a evolução da situação na região transfronteiriça do centro de Portugal - que tem as condições necessárias à preservação -, é um dos objectivos do projecto "Conservar o Lobo em Portugal - Da teoria à prática", que acaba de ganhar o Prémio BES Biodiversidade 2010, no valor de €75 mil.

As prioridades do projecto do Grupo Lobo, apoiado pelo Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, vão para três áreas: promoção de medidas práticas de conservação da espécie; investigação; e educação ambiental. O lado prático está contemplado no programa Cão de Gado, que desenvolve a investigação e o uso de métodos de prevenção de prejuízos causados pelo lobo ibérico no gado.

Liderado por Francisco Fonseca, investigador do Centro de Biologia Animal da mesma Faculdade de Ciências, o programa promove a utilização de raças nacionais de cães de gado e de vedações eléctricas como forma de reduzir esses prejuízos, e tem sido referenciado a nível internacional como um caso de sucesso. Assim, já foram colocados 220 cães das raças Castro Laboreiro e Serra da Estrela de pêlo curto - também ameaçadas de extinção -, tendo resultado numa diminuição dos prejuízos em cerca de 74% dos casos.

Quanto ao programa de educação ambiental, foi lançado o Pacote Pedagógico sobre o Lobo (Wolf Kit), que pretende sensibilizar os alunos do 2º e 3º ciclos do ensino básico para a problemática da conservação do lobo ibérico, assim como constituir uma ferramenta auxiliar para o ensino e aprendizagem dos temas associados à biodiversidade, em especial as espécies ameaçadas.

"É muito gratificante ver o meu trabalho e o do Grupo Lobo, que tem 25 anos de existência, ser reconhecido por este prémio, que nos vai abrir novas perspectivas na protecção do lobo ibérico", afirmou Francisco Fonseca ao Expresso. O investigador acrescentou que "os projectos já desenvolvidos permitiram estancar a regressão da espécie em Portugal".

Calcula-se que sobrevivam na Península Ibérica cerca de 2 mil lobos, dos quais 300 em Portugal. O seu declínio já era visível no início do século passado, e os estudos até agora realizados indicam que a população continua em declínio, estando confinada a algumas regiões do Norte e Centro do país, nomeadamente junto à fronteira com Espanha. As causas deste declínio estão relacionadas com a perseguição directa movida por caçadores e pastores e com o extermínio das suas presas selvagens, como o veado e o corço. Certas práticas agrícolas e florestais também têm ajudado, porque provocam a fragmentação e a destruição dos seus habitats.

Três Menções Honrosas


O júri do Prémio BES Biodiversidade contemplou ainda com Menções Honrosas os projectos "Modelo de Avaliação dos Serviços de Ecossistema em Portugal", do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; "Florestas Marinhas de Algas Gigantes", do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR); e o "Programa de Monitorização das Aves", da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), que envolve 400 voluntários.

Teresa Adresen, presidente do júri, explicou que a terceira edição deste prémio teve 33 candidaturas e que, na sua selecção, "se valorizou muito a promoção da biodiversidade no terreno". A professora da Universidade do Porto considera que "as transformações na paisagem nunca foram tão rápidas na história de Portugal", mas chama a atenção para um aspecto surpreendente deste processo: "como existem muitas terras agrícolas abandonadas no nosso país, houve aí uma regeneração de habitats naturais e, em particular, de carvalhais, porque essas terras têm um fundo de fertilidade maior".

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