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Comunicação social e realidade

O autor interroga-se sobre a falta de cobertura na imprensa de um evento cultural único e inovador como foi a gala de ópera que abriu a Festa do 'Avante!'.

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 22 de setembro de 2009

Será possível que se tenha verificado em Portugal um acontecimento de características únicas e inteiramente novas no nosso país, que indirectamente envolveu várias dezenas de milhares de pessoas e resultou da intervenção directa de mais de uma centena de cidadãos portugueses utilizando material invulgarmente sofisticado e complexo - que se prolongou por mais de duas horas - e que nenhum jornal diário tenha publicado uma única notícia, nenhum tenha inserido uma única linha sobre o facto?

É.

Aconteceu precisamente isto com o concerto de abertura da Festa do "Avante!" deste ano, na passada sexta-feira, 4 deste mês, preenchida com uma gala de ópera.

Num palco ao ar livre, perante a heterogénea plateia de dezenas de milhares de pessoas de todas as idades que constitui um verdadeiro traço identitário da Festa, foram executadas obras de Rossini, Bizet, Puccini, Gershwin, Mozart, Leoncavallo, Verdi e Bellini. O espectáculo envolveu uma orquestra sinfónica completa e ampliada, regida pelo maestro japonês Kodo Yamagishi, com cerca de uma centena de músicos (a 'Marcha' da "Aida" de Verdi, por exemplo, seguiu rigorosamente - o que não é vulgar - a partitura original, com recurso ao conjunto de eufónios, utilizados apenas nesta peça) e um coro completo, o Lisboa Cantat, quatro cantores líricos inteiramente consagrados e dois jovens reconhecidamente promissores.

O gigantesco palco da Quinta da Atalaia que acolheu esta complexa montagem dispunha, além da necessária iluminação e aparelhagem de captação e amplificação sonora (a qualidade do som foi reconhecida unanimemente), dois ecrãs de vídeo laterais alimentados por uma régie sustentada em quatro câmaras fixas, duas móveis, uma exclusivamente para o maestro, uma câmara em charriot e outra em grua.

A realização esteve a cargo de uma equipa especializada em cobertura de eventos musicais que assegurou uma excepcional qualidade. Os milhares e milhares de espectadores desfrutaram a invulgaríssima e apaixonante experiência de assistirem a um concerto com imagens com o detalhe e a qualidade, por exemplo, das de uma emissão do canal Mezzo, ao mesmo tempo que assistiam ao próprio concerto ao vivo.

Os infindáveis e entusiásticos aplausos que pontuaram o espectáculo prosseguiram após o seu termo: os autocarros onde as duas centenas de coralistas e músicos deixaram a Festa foram aplaudidos à passagem pela multidão que ainda enchia o recinto.

Toda a concepção, programação, produção e direcção da gala foi assegurada por profissionais e colaboradores portugueses.

Foi editado um programa de 24 páginas, distribuído primeiramente com o semanário "Avante!" e, depois, fornecido gratuitamente na própria Festa.

A imprensa... nada viu.

Ou terá visto?

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