Uma anedota antiga diz que um homem sério pode ter uma pequena fortuna ao fim da vida sem trabalhar... desde que comece com uma grande fortuna. Mas ultimamente a experiência demonstra que há outras formas de ser rico sem ser necessário um grande esforço ou um grande sucesso no trabalho e nos negócios: a via do empréstimo.
A via do empréstimo, como já se sabia, assenta no curioso facto de uma pessoa ou instituição conseguir que lhe emprestem milhões, por vezes dando como garantia aquilo que comprou com esses milhões. O exemplo mais claro será o de Joe Berardo, que deu como garantia para um empréstimo com o qual comprou acções do BCP... as acções do BCP.
Curiosamente, apesar de essas acções valerem muito menos do que quando as comprou - e de Berardo estar assim, virtualmente, a perder centenas de milhões de euros -, o banco não executa a dívida porque isso poderia ser um risco sistémico.
O mesmo acontece, eventualmente, com a Mota Engil, Teixeira Duarte, Soares da Costa, com a Cimpor e com Joaquim Oliveira (o proprietário dos jornais "DN", "JN", "24 Horas" e "O Jogo", além da SportTv e da TSF). Esta meia dúzia de empresas e empresários são responsáveis, segundo contas da jornalista Cristina Ferreira, do diário "Público", por uma dívida ao BCP que é igual a 80% do seu valor em bolsa. Por isso, o interesse do BCP, e também o enorme interesse do Governo (sempre apresentado como patriótico), é que todos estes negócios continuem, uma vez que, se pararem, vem tudo por aí abaixo.
E qual é o mal?
O mal é que em todas estas actividades há outros actores que trabalharam, que se esforçaram, que arriscaram (tanto ou mais do que estes) e não têm a mesma recompensa.
O mal é que ser rico, ter acções, ter grupos económicos, passou a depender, sobretudo, de vontades políticas que se podem dar ao luxo de escolher quem deve e não deve beneficiar do crédito. O esforço ou os azares do mercado já não são determinantes.
Berardo, que comprou as acções com um empréstimo que os bancos tratam com pinças (ao contrário do que se passa com cidadãos normais que têm de abandonar as casas se não pagarem a hipoteca), domina boa parte do próprio BCP. Foi, aliás, um dos que propuseram a nova administração. Afinal, o modelo (que Berardo denunciou no tempo de Jardim Gonçalves) em que os principais accionistas eram os maiores devedores do banco, não mudou em nada. Quem mudou foram os actores, porque o sistema, absolutamente condenável, mantém-se inalterado.
Afinal, a crise de solidez e de confiança que atingiu todo o mundo, no Verão do ano passado, não trouxe por cá grandes lições. Continua-se com o business as usual, mas este negócio não é claro, não é transparente e não é justo.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009