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Como eu vivi a implantação da República e os grandes implantes da História Pátria

Onde o nosso Comendador, embora sem o brilhantismo do Prof. Saraiva nem os enormes conhecimentos do Prof. Rui Ramos, expende a sua análise sobre os grandes implantes pátrios.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 6 de fevereiro de 2010

Comemora-se amanhã o 31 de Janeiro, revolta em 1891 da qual não me lembro por ser ainda bastante jovem, e iniciam-se as comemorações oficiais dos 100 anos da República, da qual me recordo perfeitamente. Quero, pois, deixar o meu testemunho às gerações vindouras - e mesmo às indouras -, pois já são muitos os que, tendo nascido depois destes grandes acontecimentos, já se foram.

Aos mais novos, àqueles que se interrogam como é possível estar vivo um homem que já tinha nascido em 1891, direi apenas - calem-se! Para os outros, sigo em frente com a minha história.

A revolta de 1891, no seguimento do ultimato britânico, é impropriamente chamada revolta dos sargentos, porque os seus chefes eram o capitão Leitão e o alferes Malheiros. E quem eram - perguntam e bem os meus queridos leitores - o alferes Malheiros e o capitão Leitão? Pois bem, são nomes de ruas. A revolução de 1891 teve, pois, por objectivo dotar algumas ruas importantes de Lisboa, Porto e Almada com nomes originais.

Já a implantação da República foi mais vibrante. Eu estava na quinta da família, junto ao Douro, com vista para a estação de comboios do Vesúvio, quando um jornaleiro bateu à porta e disse: "Houve uma revolução em Lisboa." Eu corri à Câmara Municipal de Foz Côa, que era a mais próxima, e quando lá cheguei o presidente da Câmara estava com grandes salamaleques para mim, até que chegou o telégrafo. Foi ver as notícias, passou a chamar-me cidadão, declarou-se republicano e fomos ambos beber um capilé à tenda do Zé Francisco, celebrando o salto civilizacional e brindando à saúde dos militares da rotunda.

No 28 de Maio, estava eu numa quinta que tenho ali para os lados de Alijó quando um jornaleiro me bateu à porta a dizer que tinha ido uma revolução de Braga para Lisboa. Eu fui à Câmara, onde o presidente me recebeu com grandes abraços e a chamar-me cidadão, até que recebeu um telefonema. Depois disso, declarou-se católico, tratou-me por Vexa e fomos beber uma groselha ao Café Labor, onde brindámos ambos à normalidade do país e à saúde dos militares.

Já o 25 de Abril foi completamente diferente. Nessa altura, eu estava noutra propriedade da família, ali mais para as bandas de Tarouca, quando veio um jornaleiro bater à porta de casa a dizer que tinha ouvido na telefonia que estava uma revolução em Lisboa. Eu fui a passo à Câmara Municipal, onde o presidente me recebeu com salamaleques, até que recebeu um telex. Depois disso, chamou-me camarada, declarou-se socialista e fomos ao café central beber uma Fanta, com a qual brindámos o salto civilizacional que o país acabara de dar e bebemos à saúde dos militares.

Portanto, se a coisa piorar, meus amigos, irei para uma quinta que tenho para os lados do Bombarral. Quando o jornaleiro me bater à porta, irei para a Câmara Municipal tentar perceber o conteúdo do e-mail que o presidente há-de receber. Depois, iremos os dois para o cibercafé beber uma Água das Pedras e brindar ao que for, mesmo que sejam militares.

Portugal é um país previsível até nas revoluções. Comemorar esta que faz 100 anos não é mais do que lembrar que o telégrafo, o telefone e o telex já fizeram muito pelas nossas vidas...

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Texto publicado na edição da Única de 30 de Janeiro de 2010

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Boa Malha!
Jonatas (seguir utilizador), 1 ponto , 11:40 | Sábado, 6 de fevereiro de 2010
Estas crónicas atingem por vezes um nível muito elevado. Valem mais que lotes de artigos de opinião dos que circulam semanalmente. É o caso desta. Realismo acutilante e humor benevolente unem-se para nos dar interpretações claras da realidade. Só gostava de saber quem é o autor. Talvez pudesse editar em livro uma selecção.
 
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