Cães raivosos e ingleses, diz a canção, saem ao sol do meio-dia. E as práticas empresariais da descendente directa da Inglaterra, a América, querem-nos no escritório desde as nove da manhã até às cinco da tarde, se não for mais. Porém, grande parte do mundo prefere fazer uma sesta. E um estudo apresentado na reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), em San Diego, sugere que eles podem ter razão ao fazê-la. Já se tinha chegado à conclusão de que aqueles que dormem a sesta são menos susceptíveis de morrer de ataque cardíaco. Agora, Matthew Walker e os seus colegas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, descobriram que muito provavelmente também têm melhor memória. Uma soneca depois da refeição, concluiu o dr. Walker, prepara o cérebro para aprender.
Já há algum tempo que se tinha compreendido o papel do sono na consolidação de recordações antes criadas. O dr. Walker tem tentado estender esta compreensão, examinando o papel do sono na preparação do cérebro para a formação de recordações em primeiro lugar. O seu interesse dirigiu-se particularmente para um tipo de memória chamado memória episódica, que se relaciona com acontecimentos, lugares e momentos específicos. Isto contrasta com a memória de procedimento, a dos conhecimentos necessários para realizar algum tipo de tarefa mecânica, por exemplo conduzir um veículo. A teoria que ele e a sua equipa quiseram testar foi que a capacidade para formar novas recordações episódicas se deteriora com a acumulação de vigílias e que o sono restaura assim a capacidade do cérebro para uma aprendizagem eficiente.
Pediram a um grupo de 39 pessoas que participassem em duas sessões de aprendizagem, uma ao meio-dia e outra às 18 horas. Em cada ocasião, os participantes tentaram memorizar e recordar 100 combinações de imagens e nomes. Depois da primeira sessão, foram distribuídos ao acaso por dois grupos: um grupo de controlo, que permaneceu acordado, e um grupo que fez sesta e que teve 100 minutos de sono monitorizado.
Os que ficaram acordados durante todo o dia aprenderam pior. Os que dormiram, pelo contrário, melhoraram realmente a sua capacidade de aprendizagem, tendo melhor desempenho ao fim da tarde do que ao meio-dia. Estas conclusões sugerem que o sono liberta o cérebro da memória de curto prazo, abrindo caminho a novas informações.
É já bem sabido que as recordações baseadas em factos são armazenadas temporariamente numa área chamada hipocampo, uma estrutura no centro do cérebro. Mas não ficam lá por muito tempo. Em vez disso, são enviadas para o córtex pré-frontal, para um armazenamento a mais longo prazo. Os electroencefalogramas, que medem a actividade eléctrica no cérebro, mostraram que esta capacidade de refrescamento da memória está relacionada com um tipo específico de sono, denominado sono da Fase 2 não REM.
A sesta ideal segue portanto um ciclo que dura entre 90 e 100 minutos. Os primeiros 30 minutos são de um sono ligeiro, que ajuda a melhorar o desempenho motor. Depois vêm 30 minutos de sono da Fase 2, que refresca o hipocampo. Depois disto, entre os 60 e os 90 minutos da sesta, chega o sono com movimento rápido ocular, ou REM, durante o qual ocorrem os sonhos. Isto, indica a investigação, é o momento em que o cérebro estabelece ligações entre as novas recordações que acabam de ser 'transferidas' do hipocampo e aquelas que já existem, assim tornando as novas experiências relevantes num contexto mais amplo. Os benefícios de uma sesta para a memória, diz o dr. Walker, são tão grandes que podem igualar os de uma noite inteira de sono. Contudo, avisa que a sesta não deve ser feita demasiado tarde no dia, já que interferiria com o sono nocturno. Além disso, nem toda a gente desperta fresca de uma sesta.
A sonolência pode resultar de uma sesta não reparadora que se chama "inércia do sono". Isto sucede quando o cérebro desperta de um sono profundo com as suas células ainda disparando a um ritmo lento e com a temperatura e o fluxo sanguíneo diminuído. Sara Mednick, da Universidade da Califórnia, em San Diego, sugere que quem não tem o hábito de fazer a sesta sofre mais destes sintomas do que quem faz sesta regularmente. Pode ser que aqueles que despertam aturdidos optem à partida por não fazer sesta. Mas também pode acontecer, como em tantas outras coisas, que a prática faça a perfeição.
2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos Reservados. Traduzido por Aida Macedo. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
Publicado na Revista Única do Expresso de 13 Março de 2010