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Coisas estúpidas (carta a Eric Rohmer)

Os seus filmes mostram que os valores estão na nossa mão.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 30 de janeiro de 2010

É estúpido escrever-lhe uma carta que você já não poderá ler. De qualquer modo vivemos num mundo em que já ninguém escreve cartas - as palavras escritas deixaram de ter cor, mão, respiração e compromisso, mesmo as mais íntimas. Despejam-se rapidamente em e-mails que se modificam, apagam e esquecem. É estúpido escrever-lhe uma carta mas aprendi nos seus filmes a amar a força das coisas estúpidas, que aparentemente não servem para nada e só nos atrapalham a vida. Um dos seus filmes de que mais gosto, "Conto de Inverno", narra a história de uma rapariga tão estúpida que se engana no nome da terra onde vive na hora de passar a morada ao grande amor que conheceu nas férias e mora noutro país. Encontramo-la cinco anos mais tarde, trazendo pela mão uma filha nascida desse grande amor e enganando a solidão entre dois amantes. Às tantas, estupidamente, decide ir viver com o mais fruste desses dois amantes, o seu patrão no cabeleireiro. A filha arrasta-a para o interior de uma igreja, porque é quase Natal e a criança quer ver o presépio. Sentada na igreja vazia a rapariga reza em silêncio pelo regresso do seu amor perdido, e o rosto banal ilumina-se-lhe de uma forma inesquecível. Não é católica, tem uma fé vaga, que não aprofunda - não é rapariga de leituras nem de aprofundamentos, desdenha mesmo aqueles que copiam a vida pelos livros, como o amante preterido. Esse amante intelectual dir-lhe-á uma frase belíssima: "Sabes porque te amo? Porque és bela, mas isso não basta. Amo-te porque tenho a impressão de ser capaz de ler o teu coração, e é raro poder-se ler o coração das pessoas". A força dessa rapariga advém da fidelidade absoluta ao seu próprio coração e da confiança que deposita nos sentimentos. Nunca, nem por um segundo, escondeu aos seus amantes que esperaria até ao fim da vida pelo pai da filha - e nunca, o que é ainda mais extraordinário, duvidou da reciprocidade do amor desse homem. Lá onde estivesse, ele seria dela como ela era dele. Nesse momento de revelação no interior da igreja decide deixar o amante que escolhera e viver só com a filha, aguardando o improvável reencontro. Mais tarde dirá que teve "uma premonição". E dirá também: "Não há boas nem más escolhas. É preciso que a questão da escolha não se coloque".

Você soube como ninguém mostrar a inteligência, a verdade, o valor imenso das coisas estúpidas. Há páginas e páginas escritas sobre a sua erudição e argúcia, os clássicos em que se inspirou - e que aliás aparecem delicadamente nos filmes, porque você não era um destes pós-modernos que empinam bibliotecas e as despejam como obras suas para brilhar em sociedade - mas a sua singularidade vinha de outra coisa: da observação apaixonada das escolhas humanas. Das justificações racionais fez capas de seda sob as quais refulge o brilho animal dos sentimentos imediatos. Você dá-nos a ver o modo como as pessoas se agitam através dos seus pequenos mundos pelo pavor de olharem para dentro de si mesmas, como se enganam de propósito por medo da felicidade - ou da liberdade, que é a mesma coisa. Você mostra-nos pessoas tristes que engendram esquemas para tornar os outros felizes.

Por estes dias revi os "Contos das Quatro Estações" recentemente editados em DVD, e tive saudades dos filmes que você já não vai poder fazer. Há cada vez mais gente a bradar pela falta de ética, para poder falhar gloriosamente em todos os valores - excepto o do trabalho, que se tornou o capataz dos novos deuses do sucesso e do dinheiro. Os seus filmes mostram, pelo contrário, que os valores estão nas nossas mãos, e que o mundo se altera, minuto a minuto, através das escolhas que fazemos. Quando decidimos não ter tempo para a tristeza de um amigo, ou sequer para decidir o que mais nos importa na vida, estamos a preferir um valor a outro. As escolhas, por sua vez, dependem de expectativas, e as expectativas dessa palavrinha imensa: fé. "O Signo do Leão", o seu primeiríssimo filme, é a história de um rapaz que passa de milionário a sem-abrigo da noite para o dia. Aquilo que o impede de se suicidar é a convicção de que, pertencendo ao signo astrológico de Leão, a miséria será temporária. Essa fé no signo, que é uma outra forma de fé em si mesmo, salvá-lo-á. Nos seus filmes, Eric Rohmer, as pessoas sabiam salvar-se, a si mesmas e umas às outras. E agora eu não sei como vou viver sem as pessoas dos filmes que você já não vai fazer.

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

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Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 14:31 | Sábado, 30 de janeiro de 2010
Um texto simplesmente maravilhoso sobre Rohmer.

Confesso que fiquei comovido.

E agradecido.

Tanto ao cineasta, mas essa é um dívida muito antiga que tenho para com ele, como à Inês.
 
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Rohmer...
lataes (seguir utilizador), 1 ponto , 11:44 | Segunda feira, 1 de fevereiro de 2010
Aposto que este artigo, melhor, este belíssimo artigo seria impossível ter sido escrito antes de IP ter lido o que leu do Padre António Vieira...
Tenho a certeza que o Padre António Vieira teria gostado muito dos filmes de Rohmer - e de os comentar...

Boa semana!
 
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