16/03/2010 actualizado às 8:44

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves  «  Opinião  « Página Inicial |
Pág. 1 de 16  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.

Vintage Woody Allen

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 11 de Mar de 2010

"Whatever Works" é uma obra-prima com lições para toda a vida.

Lembram-se daquela piada do Woody Allen, aliás Alvy Singer, em que ele está numa convenção de apoio ao Adlai Stevenson e diz que... humm... é interessante... humm... andou uns tempos com uma miúda que trabalhava para a Administração Eisenhower e era irónico porque... humm... andava a tentar fazer-lhe o que o Eisenhower andava a fazer ao país nos últimos oito anos.

A piada faz parte do filme "Annie Hall". Em Portugal, o comediante tinha levado com um processo judicial por difamação mas na América é possível dizer isto e muito pior e escapar ileso. E se em vez de falarmos da América falarmos de Nova Iorque, a violência aumenta. Basta ver o que Larry David diz da América no último filme de Woody Allen, "Whatever Works". O filme é o regresso do Woody de "Annie Hall" e o regresso a Nova Iorque.

Depois de "Vicky Cristina Barcelona" (2008), um arremedo grotesco de um filme de Almodóvar, Woody parecia estar a perder-se. O filme de Barcelona, e Woody filma tanto as cidades como as histórias, era um exercício de imitação e voyeurismo no território neurótico europeu. Nada daquilo tinha a ver com o mais cómico judeu americano nem com as suas filiações estéticas e ideológicas. Quem nasce em Brooklyn e é educado pelo humor e o schtick que ia das Catskills às caves da Village, quem é um dos 'pais espirituais' de Seinfeld e Larry David, não pode filmar espanholas à beira de uma crise de nervos.

Desde que Woody se separou das suas mulheres, notava-se a incapacidade de arranjar um alter ego que o representasse no ecrã (ele deixou de querer aparecer) e uma musa que lhe apetecesse filmar. "Whatever Works" é o feliz encontro com estes dois. Com Evan Rachel Wood, a menina do costume (descendente de Mariel Hemingway em "Manhattan"), e Larry David, uma espécie de Woody Allen da televisão, com a mesma secura e exasperação, algum talento intelectual e menos obsessões metafísicas (lembra aquela piada de "Annie Hall" em que ele diz que foi apanhado a copiar na aula de metafísica porque espreitou para a alma do aluno do lado).

"Whatever Works" é uma pequena obra-prima. E descende em linha recta de "Annie Hall", a grande obra-prima. O que demonstra que ele não só não perdeu qualidades como ganhou com a passagem do tempo. A América 'submental' e cheia de gente com cérebros de pigmeu, a América redneck e com licença de porte de arma, a América da Bíblia e dos psicopatas e evangelistas, de Bush e dos neocons, de Hollywood e Wall Street, é uma gargalhada neste filme. Uma das cenas mais delirantes, dentro do Museu de Figuras de Cera, serve de palco para a verdadeira discussão sobre os 'valores americanos', embora as duas actrizes, mãe e filha, discutam o valor de um casamento com um homem que seja tudo menos um áspero e amargo ex-professor de Física Quântica que esteve quase a ganhar um Prémio Nobel e que se julga um génio embora viva na miséria e dê aulas de xadrez a crianças estúpidas de mais para aprenderem xadrez.

A mulher do génio, uma jovem nativa do Mississipi que o génio trata por indígena e atrasada mental, acaba por ser o ponto de convergência da história e das personagens. E, apesar de Larry David ser perfeito a fazer este Woody extremado, o que redime o filme, e o sarcasmo geral do script, é a figura da rapariga. Filmada por Woody Allen com uma ternura insuspeitada, nimbada de luz como num quadro impressionista (e os efeitos que este olhar consegue são novos, longe do preto e branco de "Manhattan" e dos cinzentos do período Farrow), a figura da rapariga é um poema romântico. Parece Kazan a filmar Elizabeth Taylor ou Natalie Wood, sem a carga trágica. A oposição constante entre o envelhecimento de Larry/Boris e a juventude dela reinstalam Woody Allen como um cineasta supremo que aprendeu a envelhecer e a contemplar. Há uma nova aceitação e um sopro de alegria nesta comédia. Uma pastoral da boémia downtown com o seu meio académico e artístico. As sequências exteriores (e o filme é quase uma peça de teatro, filmado em interior e com as convenções da voz teatral) são quadros de luz em que Woody Allen presta homenagem à juventude e beleza dos dois actores jovens, a rapariga e o rapaz pelo qual deixa o génio. Os dois actores são talvez os mais belos actores que Woody usou até hoje, e sabe-se como a meia-idade é o território particular que ele explora. A meia-idade ficou para trás. O encontro determinante entre a juventude ("Sweet Bird of Youth", Tennessee Williams) e a decrepitude; à decrepitude resta-lhe ser irónica e sarcástica, inteligente e, acima de tudo, lúcida. A lucidez é o que resta quando a beleza se vai. E a aceitação de que temos de nos contentar com o que calha. Whatever works. Desde que nos dê uma medida de graça. A vida em colherinhas de café de que falava o Prufrock de T.S. Eliot. Woody Vintage, tantos anos depois.

Texto publicado na edição da Única de 6 de Março de 2010

[751 visitas]

Alguém me explique, por favor

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 4 de Mar de 2010

Absolver e usar pessoas em empresas onde o dinheiro corre em enxurradas quando há seca no país.

Na segunda fui à SIC-Notícias comentar, juntamente com Eduardo Dâmaso, Luís Delgado, Ricardo Costa e Mário Crespo (a moderar) a entrevista de Sócrates a Miguel Sousa Tavares. Foi uma entrevista longa. Além dos casos da PT/TVI e do TagusPark/Figo, falou-se da situação económica nacional e internacional e das opções do Estado ou das decisões mal tomadas.

Quando olhei para o telemóvel tinha dezenas de mensagens e chamadas não atendidas. Um número raro. Conversei com uns, li os sms de outros. Havia de tudo: gente ligada a partidos, gente independente de centro, de direita e de esquerda. Uma pequena amostra sociológica da audiência e do eleitorado português numa classe média que consome informação qualificada. Profissionais, homens e mulheres. Nenhum jornalista. Tema único? As escutas.

Reparei que o tom era exaltado. Havia os que defendiam Sócrates e me atacavam dizendo que não se esperava que eu cometesse o erro de pensar que ele era aquilo que eu parecia implicar que ele era, baseada em escutas criminosas e que visavam a destruição do PS. Havia os que acusavam Sócrates de ser um aldrabão. Havia os que acusavam Miguel Sousa Tavares de ter facilitado a vida a Sócrates e de eu ter sido, com ele, uma das que mais contribuíram para a absolvição de Sócrates do caso Freeport. Havia os que, num encolher de ombros, profetizavam que ele ia ganhar e nada havia a fazer. Havia os que diziam que ele era indestrutível e que nós jornalistas não passávamos de imbecis que quanto mais o atacavam mais ajudavam. Havia psd's que diziam que o PSD não tem combatentes à altura. Havia ps's que diziam que não voltariam a votar no PS. E gente de direita que dizia que a direita era a responsável pela ascensão de Sócrates. Havia os que gritavam "Sócrates tem de cair" e os que gritavam "Sócrates vive". Um velho amigo acusou-me de ter sido injusta ao interpretar a frase de Marcos Perestrello como uma piada quando era um repúdio da negociata com Figo, dizendo o contrário: gastem o dinheiro em subsídios de desemprego.

O que é que o Sócrates tem? Provoca paixões exacerbadas que fazem perder a perspectiva e clareza que permitiriam destrinçar o que é, nas palavras do primeiro-ministro, a demonstração de uma realidade verdadeira ou uma falsidade. Estão criadas as condições, como estariam num tribunal, para um mau veredicto do júri.

A verdade é que Sócrates, com os seus spinners e conselheiros (e o talento político) é o produto do país que somos e da informação que produzimos e do modo como a produzimos. Ao substituir o jornalismo sério e de investigação, longo no tempo e minucioso nos pormenores, caro de manter e sujeito a uma edição sistemática das falácias, pelo imediatismo da denúncia e da reprodução de conversas de telemóvel, ao substituirmos a notícia seca pelo comentário da notícia, ao fazermos o nosso próprio spinning e montarmos o nosso próprio espectáculo, estamos a colaborar numa indústria de entretenimento que pouco tem a ver com o jornalismo como primeiro esboço da História de que falava Philip Graham, o fundador do "Washington Post". E isto não é culpa dos jornalistas, que perseguem o que podem com os fracos meios que têm, com as pressões que sofrem, mas da estratégia lucrativa dos grupos de media.

O que sobra é esta gritaria onde a verdade se afunda. O que sobra é a guerra entre uma corporação política, os socialistas, e uma profissional, os jornalistas. Com a guerra entre as corporações da justiça ao fundo. Guerra em que os dois lados se acusam e se acusam entre eles de corrupção e mentiras, de crimes e conluios, com o elenco de ressentimentos. É: ou estás connosco ou estás contra nós. Sócrates estabeleceu a zaragata. Fê-lo porque está convencido, como antes dele Tony Blair e agora Gordon Brown (que passou a semana a explicar-se das acusações de ser um bully), que não se ganham eleições sem controlar os media. Uma coisa é controlar os media por meios legítimos, utilizando o assessor, o blogue, a agência, o telefonema, o almoço, o convencimento, a informação privilegiada, o processo, a intimidação verbal, outra coisa é controlar os media utilizando homens e meios de empresas ou bancos onde o Estado ou os partidos têm homens de mão, uma participação e um poder. Ou utilizando dinheiros públicos. Uma coisa é defender a justa redistribuição de riqueza pelo Estado, outra é absolver e usar pessoas em instituições onde o dinheiro corre em enxurradas quando há seca no resto do país. Isto, Sócrates não explicou. E não é culpa dos jornalistas.

Texto publicado na edição da Única de 27 de Fevereiro de 2010

[1466 visitas]

Do império ao leitão assado

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 25 de Fev de 2010

Os emigrantes reúnem todas as forças para prosseguir os seus sonhos e dão-nos lições de vida.

A Galeria Saatchi fica num dos extremos de King's Road, em Londres. Charles Saatchi, o guru da publicidade e o responsável parcial pelo sucesso do thatcherismo, é um dos formidáveis coleccionadores de arte contemporânea e um homem que faz descer e subir o preço de um artista pelo simples acto da compra e da venda. Esta galeria, um museu privado que ocupa um dos espaços nobres da cidade, tornou-se obrigatória para quem quer conhecer o que andam jovens artistas a fazer por aí. Depois da China e do Médio Oriente, Saatchi interessa-se pela Índia, e a exposição "The Empire Strikes Back" ("O Império Ataca de Novo", uma paródia à "Guerra das Estrelas") é uma revelação de como no mundo actual a arte é a mais inteligente e original interpelação aos poderes instituídos e à irónica indiferença em que apodrecemos.

Não prescindindo da literatura, e muito menos da narrativa, da inclusão de um testemunho, uma história, uma alegoria ou fábula, a arte contemporânea, nos seus diversos suportes e materiais, diz-nos o que esta exposição de jovens artistas indianos e paquistaneses (alguns nascidos ou educados na América e Inglaterra) nos diz: estamos fartos. Estamos fartos das vossas mentiras. Não estamos mortos. Esta arte é uma forma de exílio. De rejeição.

É uma verdade que só pode ser enunciada por um jovem, antes de a resignação, o conformismo ou o sucesso tomarem conta da mão e da cabeça e reduzirem o artista a uma peça da engrenagem. O que, excepto em casos especiais como o de Bacon, acontece sempre. O artista passa a bibelô. Antes de os tornar bibelôs, Saatchi gosta de os descobrir e coleccionar.

A arte contemporânea fere a nossa sensibilidade de um modo mais inteligente e imediato do que a literatura, que anda às voltas com o seu umbigo. Diz-nos o que as novas gerações pensam, mais do que as bichas para comprar um iPod. Diz-nos o que sentem. Saio da Saatchi e vejo que todo o bairro se alindou, com pequenas lojas e esplanadas e uma relva fresca e miudagem a passear. A nova moda na Califórnia e em Nova Iorque são as barracas gastronómicas na rua, e muitos jovens que não têm dinheiro para montar um restaurante usam uma carrinha para mostrar a arte e ganhar uns cobres. É o espírito empreendedor no seu esplendor. Sem subsídio, sem patrocínio, lá estão eles a vender sanduíches e pratos de qualidade, confeccionados em casa ou na carrinha. Nada a ver com fast food ou rulotes de bifanas falidas. É comida boa, a bom preço. Os jovens arranjam sempre modo de pensarem pela sua cabeça, sabem que a crise financeira e o falhanço da política os obriga a sobreviver.

Vejo letras familiares numa das barraquinhas gastronómicas. Leitão assado. Leitão assado em inglês. E um nome português: Rainha Santa. A língua é o reconhecimento imediato, a identidade partilhada. São portugueses. Tugas. Nada mais tuga do que leitão assado e a sua sandes. Aqui estão, aqui estamos, como sempre estivemos em toda a parte. A barraquinha, uma tenda, é simples e elegante, como a paisagem que a rodeia.

Já aqui escrevi sobre vários emigrantes portugueses no Reino Unido. Todos jovens e todos filhos de uma classe média que trabalhou toda a vida e não tem ilusões sobre o mercado de emprego e a mobilidade social. Aperta-se, fulaniza-se e reserva-se para os afilhados e filiados do poder político ou económico. Os do costume. O administradorzinho ao serviço tem uma bela vida aos 30 anos. Estes empreendedores emigrantes trabalham numa livraria, numa florista, numa plataforma de petróleo do Mar do Norte, num cabeleireiro, num grande armazém, numa galeria, num escritório, na cozinha de um restaurante, etc. Empregos modestos para jovens com ambições e cabeça. Estudam e trabalham. Querem ser escritores, realizadores de cinema, actores, artistas plásticos, cozinheiros, inventores, costureiros, designers, empresários. Milionários. Vencedores. Dizem a mesma coisa, aquilo lá não dá, não sobrou nada. Não há futuro. E os políticos não prestam. Aqui também não prestam, mas isso não incomoda. É mais largo, é mais livre, há menos regras. Aprende-se mais.

Raparam tudo. É o que eles querem dizer. A minha geração, que não tinha 20 anos no 25 de Abril, falhou a geração futura. Não toda. A que tem pais abastados e inseridos no sistema está bem. Estuda fora, tem um emprego na volta. A mais pobre sabe que tem de emigrar ou render-se à pobreza e à humilhação. A do meio, a que tem grandes ambições e não usa influências na capital, emigra. Recitam o 'Adeus Português' e despedem-se da grilheta de um regime onde a pata lhes apodreceria. A garra. Esta gente tem garra. Os descendentes do povo que inventou um império. E a sandes de leitão.

Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010

[1376 visitas]

O julgamento de Sócrates

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
16:30 Quinta-feira, 18 de Fev de 2010

Se o PS se tornou esta promoção de nítidos nulos, então o PS vai ser assassinado por isto.

Não acredito que este Sócrates tome o cálice de cicuta que lhe estendem. O ensurdecedor silêncio que rodeia (escrevo na terça) a revelação das escutas no "Sol" denuncia a cautela política e uma certeza: ninguém, a começar pelo PSD e a acabar nos outros partidos, quer tomar o poder para já. Preferem uma lenta erosão, acumulada em artigos e revelações que vão continuar a sair nos jornais, e ganhar tempo para preparar uma estratégia que garanta a derrota dos socialistas no futuro. A guerra vai ser a que sempre foi, entre jornalistas e Sócrates.

Portugal não está em estado de disputar eleições e afundar-se ainda mais nos mercados internacionais devido a uma crise política e não existe uma oposição capaz de ser Governo. A sobrevivência de Sócrates, no curto prazo, está assegurada. Ele acabará a plebiscitar-se, colocando o povo português e o interesse da pátria de um lado, e uma imprensa e televisão sedentas de sangue do outro. Sócrates dirá que um país onde isto acontece não é um país que sofra de privação de liberdade de expressão. E o povo não politizado ou arregimentado em partido é bem capaz de o escolher a ele em vez dos jornalistas. No geral, o povo português está cansado da permanente autojubilação da classe e tem mais do que fazer do que preocupar-se com a TVI, a PT, a Moura Guedes, o Moniz e quejandos.

O que significa isto? Significa que numa das mais graves crises do sistema democrático, a indiferença ou é brutalizada ou é manipulada. Porque, não nos confundamos, as revelações do "Sol" são escandalosas, são gravíssimas e, sendo verdadeiras, são indício de que o primeiro-ministro de Portugal ordenou uma operação, usando pessoas, empresas e fundos públicos, para 'limpar' uma personagem e um telejornal que, no ar, lhe eram incómodos. Um primeiro-ministro que se preocupa com gente desta e ordena o silenciamento de gente desta com meios destes não pode, não deve ser primeiro-ministro.

A questão da divulgação das escutas, a questão dos direitos civis da revelação de conversas privadas contra a questão da liberdade de imprensa, parece-me que deve ocupar o segundo plano. Num Estado de Direito, se estas escutas existem e existem assim, sem interpretações, competia ao procurador-geral ter ordenado um inquérito judicial. E ter dado seguimento ao que o juiz e o procurador de Aveiro consideraram poder constituir crime. Não restam muitas dúvidas de que se a conspiração existiu, ela é criminosa. E que as suspeitas que a magistratura de Aveiro tinha eram legítimas. E que a Procuradoria falhou a missão que lhe confiámos.

Suspendamos por um segundo o princípio de que toda a gente é inocente até prova em contrário. Verdadeiras ou interpretadas (ninguém as desmentiu e disse serem falsas) são as transcrições plausíveis? São. As conversas entre o apparatchik socrático Rui Pedro Soares (como é possível tal criatura ser alto quadro da PT, ganhar milhões e dispor de poder e orçamentos de milhões?) e Penedos Júnior, outra personagem sem currículo, seriam hilariantes se não fossem criminosas. E imorais. Eu, como todos os portugueses, quero saber mais, e tenho o direito a saber mais. Para já, sei que personagens como estas e como Armando Vara, personagens como a pandilha da 'Face Oculta', são caras de um Partido Socialista que nada tem a ver com a liberdade e que é uma ameaça à liberdade. Se o PS se tornou nisto, nesta promoção de nítidos nulos, neste nó de corrupção da inteligência e da vontade, então o PS vai ser assassinado por isto. Como está a acontecer. Se o PS não se demarcar disto, morre com isto.

O retrato daqueles dois que é feito pelos jornalistas do "Sol" é plausível? É. O spinning não os salvará. O "chefe máximo", como eles chamam a Sócrates num alvoroço babado, converteu-se no chefe máximo de pessoal mínimo e deixou de ser primeiro-ministro de Portugal. Um cidadão eleito com poderes especiais para, justamente, administrar o país e impedir o abuso de poderes.

O retrato de Sócrates que assim é traçado é o de um homem desavindo e vingativo, que desencadeia processos ilegítimos para obter fins inconfessáveis. É a de um homem sem escrúpulo nem remorso. É a de um homem perigoso rodeado de servos medíocres.

A queda de Sócrates será a queda de Ícaro derretido, e não a morte desejada do Sócrates ateniense. Será a queda de um homem que não se esqueceu de nada e não aprendeu nada e fez da missão da sua vida vingar-se dos seus pequeníssimos inimigos. Nenhum jornalista tem o poder de Sócrates nem quis ter. Com a diferença de que se um jornalista abusar do seu poder, autodenuncia-se. Se um primeiro-ministro abusar do seu poder, torna-se um tirano.

Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010

[1958 visitas]

Guerra e paz no Afeganistão

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 11 de Fev de 2010

Não podemos abandoná-lo, como fizeram americanos e ingleses depois de terem armado os mujahidin.

Na província de Helmand, marines ingleses e americanos, ao lado de soldados afegãos, combatem o exército de sombras a que chamamos talibãs. É um duelo de morte que ninguém pode ganhar e que acrescentará corpos à pira funerária. De um lado, os cadáveres anónimos dos talibãs e das vítimas dos 'danos colaterais' e, do outro, os cadáveres nomeados de soldados que não chegaram aos 30. Uma guerra com adolescentes a morrer no que Kipling chamava as planícies do Afeganistão. Helmand, com aquela luz cor de areia e a neblina azul-rosada de calor, parece um cenário de cinema ou de um jogo de vídeo, as estradas de poeira, as casas e fortalezas de lama embaladas em estampidos e explosões. A única utilidade desta guerra seria, como foi no Iraque, o ensaio de novas armas e tácticas marciais. De resto, o Afeganistão, tal como aquilo a que chamamos talibãs, não existe. E nunca existiu.

Não passa de um tabuleiro áspero e rugoso onde os impérios russo e americano lançaram os peões de xadrez do Grande Jogo. O Afeganistão não é uma pátria de afegãos, é um país artificial cruzado por divisões tribais e étnicas, conforme os ocupantes de milénios, e civilizações e credos de milénios, do Zoroastro ao Corão. A única força de coesão actual é a religião corânica, que serve para tudo, embora os afegãos não sejam árabes e muito menos wahabitas como Osama. São tribos guerreiras que odeiam o estrangeiro e não suportam a ocupação. E são, no caso dos talibãs afegãos, pashtun afastados do poder em Cabul e da partilha de benesses pelos tajiques e uzbeques.

Os tajiques, persas, falam dari (farsi) e são os intelectuais e o grupo dos letrados, diplomatas e militares influenciados pelo Ocidente. Ahmad Shah Massud, assassinado pela Al-Qaeda, que os tajiques quiseram impor como herói 'nacional' a seguir à invasão americana de 2001, era o seu chefe, e o dr. Abdullah Abdullah o seu discípulo. Os uzbeques, mongóis de olhos fendidos, descendentes das hordas da Ásia Central e educados e treinados pelos sovietes, comandados pelo brutal general Dostum, são outro grupo dominante. Os hazara foram sempre ignorados e marginalizados por serem ismaelitas (xiitas) e não aspiram ao poder militar. Durante a guerra civil que se seguiu à retirada soviética, combateram os talibãs com bravura e morreram nas trincheiras ou de fome nos planaltos centrais. Os pashtun são a maioria. Belicosos, invencíveis, espalhados entre o Paquistão e o Afeganistão, divididos por essa fronteira pós-colonial de régua e esquadro à inglesa, a linha Durand, não se distinguem pela filiação à Al-Qaeda ou pelo desejo de interferir na geoestratégia mundial. Os pashtun são tribos e clãs que querem poder político e reconhecimento, e este é o momento para começar a ouvi-los e começar um sério processo de paz.

A guerra nunca será ganha no terreno, e os generais do Ocidente sabem-no. A vontade negocial no tempo de Cheney e Rice nunca existiu. Existe agora, tanto por parte da Casa Branca como por parte de Downing Street, que sabe que já perdeu demasiado no Afeganistão e que vai perder as eleições. Um encontro nas Maldivas, a Conferência de Londres e a movimentação diplomática em Riade, para onde Karzai (um pashtun oportunista) viajou esta semana, indicam que as conversações, encetadas há anos em segredo, entram numa nova fase. É um processo difícil, que regurgita batalhões de peritos e negociadores, agências e militares, e que só poderá ser conduzido pelo poder político. Tal como as conversações de paz do Vietname, arrastar-se-ão e serão negadas por todos os lados. Dois poderes que lutam pela hegemonia na região, a Índia e o Paquistão, vão interferir e jogar a sua versão colonial e, mesmo assim, este é o momento ideal para trazer os talibãs para a mesa e oferecer-lhes reintegração política e social e reconhecimento. Educá-los.

Não podemos abandonar o Afeganistão, como fizeram americanos e ingleses depois de terem armado os mujahidin. Esta política teria resultados desastrosos. Cabul, no seu ponto mais perigoso, tornar-se-ia palco de outra guerra civil, e os milhões investidos por potências estrangeiras, sobretudo o Japão (um dos grandes impulsionadores da reconciliação), perder-se-iam. A Rússia e a China, com fronteiras, também não querem o Afeganistão entregue ao caos e sabem que têm de ceder aos americanos e ingleses uma prioridade. E Karzai fará o que lhe mandarem, porque a sua eleição e a retirada de Abdulhah estão condicionadas por esta estratégia que cerca o que resta da Al-Qaeda de Al Zawahiri. O extremismo religioso e político não se joga no Afeganistão e sim nas madrassas e enclaves da Índia e do Paquistão, nos estados falhados da África do Índico, nos subúrbios miseráveis das Filipinas, do Egipto e do Magrebe e, evidentemente, nos campos do Líbano e na prisão de Gaza. Ou nas ruas de Teerão.

Texto publicado na edição da Única de 6 de Fevereiro de 2010

[987 visitas]

Portugal e os trinta tiranos

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 4 de Fev de 2010

Abro o jornal e o senhor Wolfgang Munchäu, que tem uma cara de confiança, abre o seu parágrafo a dizer que a gestão da economia grega tem paralelos inquietantes com o fim da Guerra do Peloponeso. A Guerra do Peloponeso, explica, acabou em 404 a.C., quando os vitoriosos espartanos impuseram a Atenas a regra dos Trinta Tiranos, que privaram os atenienses da maioria dos direitos civis e democráticos. A tirania acabou em revolta no ano seguinte, quando a democracia foi restaurada. Algumas décadas mais tarde, as orgulhosas cidades de Esparta e Atenas tinham desaparecido do mapa geopolítico. O sr. Munchäu, e eu concordo com ele, acha que algo semelhante pode acontecer na Zona Euro se uma austeridade for imposta, do exterior, como moeda de troca para o resgate da Grécia da bancarrota.

A história tem lições que ignoramos à nossa custa. Em Portugal, com séculos de uma nacionalidade estável, e orgulhosa, as lições da história nunca são obedecidas e são gloriosamente ignoradas. A passagem da Grécia, com os seus vastos problemas de contas deficitárias, para Portugal, com os seus vastos problemas de contas deficitárias, não é descabida. Neste artigo do "Financial Times", o sr. Munchäu aponta quatro cenários prováveis.

A Grécia vai à falência e a União Europeia corre em socorro, com condições rigorosas (a austeridade). Bruxelas enviaria os seus Trinta Tiranos para Atenas, e Atenas perderia soberania. Os "gnomos de Bruxelas", cito, tomariam conta do Ministério das Finanças e a população indígena veria isto como um golpe e um atentado à democracia. O sr. Munchäu diz mesmo que os gregos começam a tratar mal os estrangeiros que escrevem sobre as suas contas e que estão solidários com as classes políticas apesar de estas terem falhado aparatosamente. Um cenário destes poderia acontecer em Portugal, que nunca se interessou muito pelos "gnomos de Bruxelas" porque os "gnomos de Bruxelas" foram vistos como uma cornucópia de flores e frutos que colhemos com generosidade, como nos tempos de África e do Brasil.

O segundo cenário é a falência sem resgate. Neste caso, assegura o sr. Munchäu, a Europa recusaria ajuda financeira por causa do falhanço do país em observar as regras europeias. E, diz ele, a crise alastraria a Portugal. Portugal encontra-se numa situação semelhante à grega, repete o sr. Munchäu. E acrescenta que os mercados financeiros, se isto acontecesse, perguntar-se-iam se a própria Espanha poderá alguma vez retomar o caminho da sustentabilidade.

O cenário três é o que toda a gente implora: a UE conseguiria, com persuasão gentil, que o Governo grego fizesse tudo o que é necessário fazer. Cortes severos nas prestações sociais e de saúde, aumento dos impostos, cortes na despesa pública, congelamento de salários da função pública, e reformas laborais que autorizem os salários reais no sector privado a cair, para melhorar a competitividade. É uma lista cruel, diz o sr. Munchäu, e a solução para salvar a Grécia da bancarrota.

O último cenário é o mais assustador: fingir que se resolve o problema, argumentando aqui e ali para enganar as pessoas sem se chegar a resolver o problema. A União Europeia tem uma larga experiência nesta área (e Portugal também). O Governo grego produzia um pacote de reformas estruturais que não passariam de promessas, com títulos enganadores. A bancarrota, e a verdade, são adiadas, por enquanto. E, no futuro, o problema regressa. E será resolvido por uma nova geração de políticos, que enfrentarão uma completa disparidade entre a situação real das contas e a situação ficcionada, enfrentando a ira dos credores.

Temo que este quarto cenário seja o escolhido. Os gregos não apreciam, com a serenidade com que os portugueses as sofrem, medidas de austeridade draconianas. O caso grego é muito semelhante ao nosso, e partilhámos anos a chamada cauda da Europa. Quando houve dinheiro, os gregos espatifaram-no em estádios e campeonatos, Olímpicos e equipamentos dispendiosos, tal como nós. Estão falidos. Nós estamos quase falidos.

Não creio que seja bom para um país ser tratado como uma criança mal comportada, como um "bom aluno" ou um "mau aluno". Esta linguagem, inventada em Bruxelas, é ridícula. Menos ridícula é a realidade. Portugal terá, nos próximos anos, de fazer o que não foi feito até aqui, e fazê-lo numa altura de crise e de destituição e desemprego. O Partido Socialista tem a responsabilidade histórica, como sempre teve, de pedir aos portugueses sangue, suor e lágrimas. Este Orçamento pode ser bom para a paz entre os partidos, mas terá de ser mau para a paz social, necessariamente. Terá de ter cortes. E uma política fiscal que não penalize os do costume. E um combate sério ao desperdício e à corrupção. O exemplo grego pesa-nos. Lá como cá.

Texto publicado na edição da Única de 30 de Janeiro de 2010

[1242 visitas]

O Haiti não é no Haiti

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 28 de Jan de 2010

Um país não pode ser administrado pela ONU e por instituições de caridade.

Podemos não ajudar o Haiti mas o Haiti ajuda-nos todos os dias. Estas catástrofes têm o poder de nos fazer felizes por dar. E fazem subir as audiências. O Haiti não é no Haiti, é no ecrã. O jornalismo sentimental obtém efeitos - a voz embargada, a criança carregada nos braços, a operação salvadora - e nada contribui para a reflexão. O Haiti, na sua absoluta devastação, na sua constituição como um lugar distopicamente distorcido, sem estado, sem governo, sem estruturas, entregue à ajuda humanitária internacional e ao caos e anarquia que o sofrimento gera, deixou de ser um país. Se é que alguma vez foi. Em 2010, com a ajuda existente, com os fundos existentes, com os programas e boas intenções existentes, existe no planeta um país como o Haiti. Onde, a avaliar pelas testemunhas, pessoas iam passar férias e praticar a evangelização e a caridade, sem que o Haiti tivesse uma escola, um hospital, casas, água potável, saneamento básico, um mínimo de estado, um mínimo de governo e de solução política.

Afinal, não estamos no tempo de Papa Doc e dos "Comediantes" de Graham Greene, quando a dinastia Duvalier fez do Haiti um cenário de ficção e vodu, útil aos filmes de James Bond. As Nações Unidas tinham uma brigada de funcionários no Haiti, e o Presidente Clinton e a mulher, antes de ser secretária de Estado, tiveram pelo Haiti um interesse político que os levou a apostar num cavalo coxo, o exilado Aristide. A França, com o cinismo da sua política de interesses, interessou-se pelo Haiti e, além de construir hotéis, viu o seu ministro dos Estrangeiros quando não era ministro, Bernard Kouchner, viajar várias vezes para o Haiti e sustentar os Médicos sem Fronteiras no território.

Nicole Richie, famosa por ser filha de Leonel e a parceira de Paris Hilton num reality show em que ordenhavam vacas, está no Larry King a perorar sobre o Haiti. Ouço-a explicar o programa para levar água limpa ao Haiti. E "a outros lugares de África". Seal canta, Mick Jagger canta, Nicole Kidman (estamos no dia das Nicoles) explica a sua acção no Haiti ao serviço das Nações Unidas. Larry King berra: dêem dinheiro, já temos mais de um milhão de dólares. Uma estrela do futebol americano, cuja filiação com os haitianos é a cor da pele, quase chora. King resplandece. Tilintam moedas comovidas no saco da pornografia humanitária.

Entretanto, no verdadeiro Haiti, onde a CNN tem um jornalista neurocirurgião que opera uma menina ao cérebro e se deixa fotografar a operar, o saque começou. A polícia dispara sobre os saqueadores e o repórter Anderson Cooper, aliás excelente, no intervalo de salvar um miúdo com a cabeça partida, e filmar-se a fazê-lo, diz que não são haitianos como deve ser, são haitianos criminosos. Existe, na pobreza, uma distinção entre bom e mau comportamento. No verdadeiro Haiti, o único hospital que funciona é o dos israelitas. O único que está montado, que tem máquinas de diagnóstico, que está equipado para cirurgias. Os americanos, no meio do bando de repórteres e do-gooders, e a França, protestando contra a "ocupação" do Haiti pelos americanos, não conseguiram montar um hospital de campanha.

O secretário-geral da ONU diz que estão a ser feitos todos os esforços. As vítimas resgatadas dos escombros com tanto esforço e tanta câmara a filmar, morrem das lesões. Outros morrem de fome e sede e o êxodo começou. No aeroporto, a ajuda empilha-se e apodrece no calor. Clinton desembarca, com as câmaras atrás, muito corado e dorido.

Dirão alguns, este não é o melhor momento para discutir como é que o Haiti chegou a isto. Este é, seguramente, o melhor e o único momento para pensar como é que o Haiti chegou aqui. Para repensar os mecanismos e a lógica da ajuda humanitária, e, sobretudo, a sua incapacidade logística apesar dos meios e das pessoas. No Afeganistão, pude observar como a logística da ONU era um pesadelo de ineficiência e desperdício, recorrendo a empresas privadas pagas a peso de ouro. Milhões serão entregues a quem? E com que fim? A actual solução humanitária cria vícios em quem dá e em quem recebe. É o velho problema do peixe e da cana de pesca. A ONU, com todas a suas virtudes, criou uma estrutura humanitária burocrática e, nalguns casos, corrupta, que é replicada pelas ONG. As brigadas de benfeitores podem ser heróicas mas não constroem países. Mais trabalho tem sido feito por soldados ignorantes da história e da geografia. Não creio que a América vá 'ocupar' o Haiti. Para o Haiti chegar a ser um país precisa de uma estrutura que terá traços políticos de neocolonialismo. Podemos chamar-lhe muitos nomes mas esta será a única solução. Um país não pode ser administrado pela ONU e por instituições de caridade. E não deve.

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

[1467 visitas]

O morto do inverno

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 21 de Jan de 2010

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão.

Desconfio de gente que gosta do inverno. No meio de Agosto, quando sopra aquele vento da estiagem que cheira a terra seca e pó do deserto, o vento que dá na cara devagar, andam pelos cantos a esgalgar-se contra o verão e a pedir frio. Apontam a brancura esplêndida do ar como quem está no meio do inferno. Eu odeio, detesto, abomino com um sentimento enraizado, o inverno. Quem não gosta do verão está como em frente ao mar e aproveita para apertar os atacadores.

Os animais também não gostam do inverno. Nem os poetas. Basta ler o modo como T.S. Eliot usou, ou plagiou, no poema 'The Journey of the Magi', 'A Jornada dos Magos', a famosa frase "A cold coming we had of it. A cold coming we had of it/Just the worst time of the year/For a journey, and such a long journey/The ways deep and the weather sharp/The very dead of winter".

Este "the very dead of winter", o meio do inverno, o mais morto do inverno, o fundo sem fim do inverno, exprime o sentimento para com a estação. Percebem a ideia. "A cold coming we had of it" podia ser traduzido, liberalmente, democraticamente, um pouco estupidamente, incultamente: apanhámos com um balde de água fria, água gelada. É a minha sensação do inverno, um longo balde de água gelada que impede a viagem (the worst time of the year for a journey) e nos leva a prescindir de Belém e da estrela. No meio do inverno estão duas coisas absolutamente desinteressantes: o natal e a sua cauda de manifestações de cretinismo, incluindo o kitsch natalício e os saldos. Os saldos estão associados ao natal. São o brinde para quem sobrevive. Eliot não previu a jornada do consumidor global. No presépio, teriam que dar brindes; em vez de os Magos empreenderem a jornada da mirra e do incenso (qual a terceira oferenda? Ouro?) o menino punha anúncios e os pais enviavam sms. Em Belém, a 25 de Dezembro, não perca grandioso evento nunca visto, o filho de Deus vai nascer. O telemóvel acaba de tocar com um sinal de mensagem a oferecer descontos e percentagens, reparações mecânicas, faqueiros, malas de senhora. E por aí fora. Janeiro é isto.

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão. Alguém já reparou que os pássaros, não os grandes pássaros dos grandes poemas e sim os pardais modestos de jardim e quintal, deixaram de ir para sul? Com o calor retardado de outono esqueceram-se de voar e ficaram aqui à cata da minhoca e do lixo dos caixotes. Pardais plásticos urbanos, vítimas das alterações climáticas.

Perdi-me. Ia no inverno. Olho pela janela e chove há dias, chove há semanas. O frio é como uma noite sem luz. Uma floresta dos contos infantis. Faz tanto frio que o sem-abrigo da esquina desistiu de chamar as pessoas pelo nome, encostado às paredes, coçando os dedos avermelhados no casaco coçado. Nem um sem-abrigo aguenta a rua. Como não hão-de velhos morrer de frio? Os velhos são pássaros que deixaram de voar.

Há os que procuram epifanias no frio. Na Lapónia com as renas ou nas montanhas da Escócia com os veados e os lobos talvez houvesse epifania, a versalhada de bilhete-postal sobre o manto frio e branco e os regatos de gelo, as árvores petrificadas de neve e o céu de chumbo a pingar farrapos. E por aí fora. Eu nunca fui à Rússia por causa do inverno, e pressinto que deve ser a única altura do ano sem turistas no saldo do transiberiano.

No verão estive numa aldeia escocesa chamada Braemar. Braemar tem a distinção de ser um dos lugares mais frios no inverno. Vinte negativos. Em Agosto, oito positivos. Ao entardecer, que me colheu numa paragem de autocarro sem abrigo e ao lado de frondoso arvoredo e um regato (não concebo paisagem mais deprimente e prescindo do veado) fazia tanto frio que os nativos estavam enterrados no pub a beber whisky. E não se percebe o inverno escocês sem whisky e o russo sem vodka. Detesto whisky e vodka. Oito graus. E eu a sonhar com o Rio, o Calçadão a faiscar ao sol e as mulatinhas de Copacabana regadas por negros esqueléticos com camisetas que dizem nas costas "Fiscal da Natureza". Aquilo é que é um país. Pois em Braemar, agora, vinte e um abaixo de zero. Dizem que os lobos e os veados descem à aldeia à procura de comida. E caminham juntos pelas ruas.

E se querem saber porque é que o Eliot plagiou foi porque o inventor da frase "a cold coming we had of it", e outras, foi um tal bispo Lancelot Andrews, no dia de natal de 1622, em Whitehall, perante o rei Jaime I. "It was no summer progress. A cold coming we had of it. (...) The ways deep, the weather sharp, the days short, the sun farthest off in the solstitio brumali, the very dead of winter".

O "solstitio brumali" lixou tudo. O Eliot percebeu. É isto um poeta.

Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2010

[1383 visitas]

O terrorista perfeito

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 14 de Jan de 2010

Estar em guerra com o terror é tão estúpido como estar em guerra com o medo ou com o cancro

Afinal ainda estamos em guerra com "o terror" e acabamos de arranjar um novo inimigo, o Iémen. Tudo o que Susan Sontag escreveu sobre a doença como metáfora a propósito da sida podia agora ser escrito a propósito desta guerra antiterror e da histeria mediática que ela causa, destinada a causar ainda mais terror do que o terror propriamente dito. Estar em guerra com o terror é tão estúpido como estar em guerra com o medo ou com o cancro. São factos, não são declarações de guerra. São, às vezes, sentimentos.

Vamos ter mais medidas de segurança em aeroportos, mais scanners, mais restrições e aflições, mais investigações, mais detenções e arbitrariedades. E, como se calcula, nada disto fará, exactamente, parar a guerra com o terror que é uma guerra que por definição é intemporal e infinita. Em rigor, só acabaria quando todos os terroristas estivessem mortos e como nunca saberemos quantos são, como são e quantos restam, nunca veremos o fim desta guerra. Da sua toca, Dick Cheney esboçou o sorriso cínico e ameaçou a América de Obama de ser um país fraco e impotente, à mercê de um nigeriano da classe média que resolveu usar umas cuecas explosivas.

Nunca será possível impedir a doutrinação de um jovem da classe média-alta que está entediado com a vida e sente a mesma repulsa patológica pela sociedade que os seus companheiros brigadistas dos anos 70. Nunca será possível prever todos os terroristas, todos os desocupados, todos os recrutados, todos os anarquistas, todos os psicopatas, todos os extremistas, todos os socialmente desadequados, todos os vingadores e todos os vingativos. Todos os agentes duplos. O terrorismo, tal qual o conhecemos desde o 11 de Setembro, faz parte das nossas vidas. E continuará a fazer. Se Obama ouvir o canto das sereias e dos falcões, estragará uma boa parte do trabalho que tem sido feito, e com êxito, contra actos terroristas. Se existe uma coisa que a América não suporta é o "terror", sem saber bem o que é o "terror".

O caso do nigeriano, como o dos sauditas de classe alta implicados em manobras terroristas, não faz parte dos livros e dos manuais antiterroristas. A razão pela qual o aviso do pai junto da Embaixada americana e da CIA não foi levado em conta é simples. Desde que começou a guerra antiterror que ameaças e denúncias de "terroristas" chegam às instâncias e são filtradas. Isto acontece todos os dias. A maior parte das denúncias são falsas ou pedidos de ajuda para encontrar um membro da família que desapareceu. Quando se trata de um membro de uma classe social elevada, o desconto dado é maior. Na imaginação, o terrorista não anda em colégios particulares nem usa andares luxuosos em Londres enquanto estudante. Não é filho de banqueiros e antigos ministros. No entanto, muitos dos terroristas da definição clássica, ideologizados por opção e não por imposição (como os órfãos das madrassas do Paquistão) são jovens da classe média, educados em universidades do mundo europeu ou americano.

A histeria trará consigo o desnorte. Desde o dia de Natal, data do atentado, a América esqueceu-se da crise económica, do sistema de saúde, de tudo. A gritaria nos media é tanta que Obama será empurrado para produzir afirmações inventadas pela Administração Bush para justificar o statu quo. Desde o 11 de Setembro, europeus e, sobretudo, ingleses, já abortaram e preveniram vários atentados, sem ameaçar países nem justificar guerras preventivas. Cabe aos serviços secretos e militares destes países conduzir na sombra um trabalho que deve permanecer na sombra e que, desde o 11 de Setembro, tem tido assinaláveis sucessos. Que nunca são mencionados nem devem sê-lo porque a histeria conduz à irracionalidade e à retórica republicana que condensa o pior e o mais primitivo do Partido Republicano, a níveis "palinianos" para quem se lembra da senhora. O mesmo partido que privatizou a guerra e criou task forces de extermínio, dependentes de gente como o senhor Erik Prince, o patrão da Blackwater, a empresa de mercenários que resolveu substituir o Estado e os agentes do Estado na "guerra contra o terror" usando métodos terroristas, justamente. Numa entrevista dada à "Vanity Fair", Prince (lembram-se de Ollie North?) produz afirmações que num estado de direito o deveriam levar à prisão e julgamento. Armado em cowboy, Prince construiu um serviço privado de extermínio e rapto de presumíveis terroristas, the bad guys, que vai contra a Constituição americana. Protegido pelo seu conhecimento das práticas da Administração anterior, sabe que jamais lhe tocarão. Nenhum Presidente ousa pôr em causa outro Presidente. E Cheney vive e prospera à custa disto. Este será o teste maior de Obama.

Texto publicado na edição do Expresso de 09 de Janeiro de 2010

 

[1708 visitas]

A década, pois

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 7 de Jan de 2010

Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais

A década, pois. Tenho de fazer o balanço. Mais logo. Agora tenho de verificar se as reservas estão ok e fazer um print. Não preciso. Está tudo em G-mail. Faço o check-in online e faço o print do cartão de embarque. Chega. O passaporte é electrónico, por causa da alfândega americana. Uma consequência do 11 de Setembro. A propósito, convém não levar aquelas botas compensadas para o aeroporto, a segurança manda descalçar. Mais uma consequência do 11/9. E a mala? Se for de cabine, nada de tesourinhas ou limas, e tenho de arranjar frasquinhos e enfiá-los numa saqueta. E a roupa? Vou checar (checar? Isto é Acordo Ortográfico, que é o ciberportuguês), dizia eu, checar (isto é acima de tudo um americanismo, o anglicismo morreu), checar o tempo no Weather Underground ou na CNN. Fiz o print da factura? Isto dos prints é obsoleto. Agora tenho duas licitações finais no Ebay e tenho de me despachar. Uma das coisas vem da Austrália, ver o fuso horário. E quanto é um dólar australiano? Abro o XE Currency Converter, o euro aguenta-se, finalmente pertenço ao clube da moeda forte. A Europa. O tempo vai estar tempestuoso. Odeio aviões em tempestades. E parece que um avião se partiu ao meio por causa da chuva. Chuva na Jamaica? Vai uma pessoa para a Jamaica para apanhar sol. Vou ver ao YouTube o que aconteceu. O pior é que abro o Youtube e fico por lá. O tempo corre. E tenho ainda de comprar uns presentes de Natal e ir ao supermercado. Abro a Amazon, os livros devem estar a chegar. A Amazon não falha. E fartei-me de comprar presentes, embora o site UK nunca seja tão bom como o USA. Montes de promoções. O Nordstrom e outra loja em Seattle têm umas ofertas incríveis, tenho de fazer o cálculo. Talvez compense. Ou espero por Janeiro. Se não fossem as taxas alfandegárias comprávamos tudo fora da Europa. Venha daí um Blackberry. Ou o novo Chocolate da LG, mais giro que o iPhone. Esta coisa do i em caixa baixa faz lembrar o ee cummings. Ninguém lê poesia. No Kindle, talvez. É como beber um Nespresso, whatelse? Ah, o supermercado, compro online, escuso de tirar o carro. Poupo o ambiente. Ah, os bilhetes. Fiz o print da reserva? Sem bilhetes não se consegue ver uma ópera, um teatro ou uma exposição. Reserva-se online, no dia vai-se à bilheteira. A única maneira de ver o tecto da Capela Sistina ou a "Última Ceia" do Leonardo em Milão (Dan Brown é o autor mais lido da década, culpa dele) é assim. Ou de comer no Adriá. Toda a gente viaja. As low cost e o Lonely Planet, culpa deles. Que fazem as agências? Os pacotes, claro. Para a Jamaica. Onde chove a potes. Deve ser do clima alterado. Abro o NY Times. Pode estar a perder dinheiro mas ainda é o melhor site de jornal do mundo. A década. Que aconteceu de mais importante esta década? Eles sabem. O 11 de Setembro, as alterações climáticas, Obama, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irão. Etc. Bush e os neocons, como é que se chamava aquele tipo que não tinha dúvidas e nunca se enganava, o accionista do Tamiflu? Rumsfeld. O que andará o Rumsfeld a fazer? O Google sabe. A propósito de Tamiflu, tenho de ver se aquelas acções dos fabricantes de líquidos antibacterianos estão a render. Abro os índices, ok, venha a gripe A e o dinheirinho a ganhar. Qual crash capitalista. E o Bush? O executor de Saddam, a quem Rumsfeld se fartou de apertar a mão noutra década. Deve estar no Google Images. Estamos todos no Google. E no GoogleEarth. Não é só o Rumsfeld. Obama também é uma consequência do Rumsfeld. Foram precisos oito anos de Bush para aqui chegar, ao Presidente Nobel da Web. Tenho de ir ao site da Atlantic, será a New Yorker?, ler o artigo que vinha reproduzido nuns blogues. O das novas guerras e armas de destruição. Maciça? As novas Daisy Cutters. Microondas. Lasers. Drones. Talvez dê para falar disso no balanço da década. O tempo corre. Ainda nem abri o mail e limpei o spam. Tenho de checar o extracto bancário. Já não há pachorra para o mail, nem para blogues. O Twitter. É mais fast. Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais. Coitadas. Com a Wikitude podemos aprender física quântica. E reproduzir o Big Bang, como o LHC. Ou fabricar uma arma de destruição. Maciça. Se inventarem uns robôs canalizadores, o mundo será perfeito na próxima década. Como dizia o Woody Allen, provar a existência de Deus é mais fácil que arranjar um canalizador ao domingo. Tenho de rever este dinossauro no video on demand. A década? Olha, o melhor é dizer que tudo foi uma consequência do 11 de Setembro. Será que dá para ir hoje ver o "Avatar"?

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009

 

 

[1330 visitas]
Pág. 1 de 16  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
PUB
Arquivo
Prémio Produto Inovação
Primus Inter Pares
Grupo ImpresaACAP