Esta crónica não é para ser levada a sério e é dedicada inteiramente aos amantes da teoria da conspiração e da ficção científica.
Acto I: em 2006 a Cimpor vendeu a sua participação de 49% na empresa angolana NovaCimangola. O Governo, depois de adquirir essa quota, reencaminhou-a para a empresária angolana Isabel dos Santos, associada a Américo Amorim.
Acto II: em finais de 2008 soube-se que a Cimpor e a Teixeira Duarte foram autorizadas pelas autoridades namibianas a construir uma fábrica de cimento. A sua operacionalização passará por vender mais de metade da produção a Angola e à África do Sul, reentrando deste modo e indirectamente naquele primeiro mercado
Acto III: no início deste ano a CSN brasileira lançou uma OPA sobre a Cimpor. Agitam-se o mercado, os accionistas e os interesses nacionais. Há quem defenda, há quem se oponha. Aparecem, entretanto, as também empresas brasileiras Camargo Corrêa e Votorantim interessadas no negócio. O presidente da CGD, Faria de Oliveira, que detém 9,6% da Cimpor, afirma que "preferia a solução de uma aliança estratégica" à alternativa da cedência do seu controlo. Sai a terreiro Ricardo Salgado, presidente do BES, dizendo que em termos de centros de decisão "há países e países", o que é um contributo importante em termos do pensamento de geografia variável, como observou Nicolau Santos neste jornal.
Acto IV: os bastidores agitam-se e anuncia-se um acordo entre a CGD e a Votorantim sendo que esta adquire a posição da Lafarge (17,3%). O presidente do BESI, José Maria Ricciardi, reage e afirma que isso é mau pois "não entra um único tostão em Portugal". Ainda as suas palavras ecoavam e é anunciado que a Camargo Corrêa compra a posição da Teixeira Duarte (22,9%).
Acto V: a Cimpor está em vários países africanos, deixou de estar em Angola e quer entrar neste pela Namíbia. Os brasileiros já disseram que este casamento "é uma oportunidade para os empresários explorarem o mercado emergente africano de forma complementar (Angola e Moçambique)". A luta pelo controlo da Cimpor continua e segundo se diz o Fundo de Pensões do BCP pode vender os seus 10% do mesmo modo que Manuel Fino (10,7%). Ora, uns necessitam de cash, outros defendem que há países e países e uns são irmãos, o que inclui Angola naturalmente, outros ainda querem ver investimento directo estrangeiro nesta operação e, finalmente, todos estão de acordo que o mercado angolano é muito importante e há que 'saber salvaguardar os interesses estratégicos nacionais...'.
Acto VI (cuja leitura deve ser acompanhada com música de fundo dos Led Zeppelin, 'Stairway to Heaven'): seja o comprador a NovaCimangola, seja outra empresa ou empresário angolano, seja o vendedor o BCP ou Manuel Fino ou ainda a CGD em nome do alto interesse da nação, como já anteriormente se pôs a jeito, o cenário seria (será) mais um lance na auto-estrada lusófona a caminho do paraíso...
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010