A cimeira europeia de quinta-feira passada (21 de julho) acalmou os analistas e os políticos. Os analistas acreditaram, de imediato, que o default iminente grego tinha sido afastado. Os políticos dos três países resgatados sublinharam, efusivamente, a baixa das taxas de juro dos empréstimos da FEEF (Facilidade Europeia de Estabilização Financeira) e o reescalonamento dos prazos de pagamento (de 7,5 para entre 15 e 30 anos).
Também a referência a um "Plano Marshall" - uma expressão que desapareceu do comunicado final - de realocação de fundos estruturais para a Grécia foi bem recebida.
Já os mercados da dívida começaram logo pela tarde de sexta-feira a duvidar da euforia e inverteram as tendências de descida nas yields dos títulos públicos no mercado secundário e nas probabilidades de incumprimento das dívidas soberanas de vários países da zona euro, conforme o Expresso noticiou na sexta-feira.
A novidade da reestruturação seletiva
Uma das novidades da cimeira de Bruxelas foi a inclusão de uma reestruturação da dívida grega em mão de credores privados, assumida como "solução excecional e única para a Grécia".
Ricardo Cabral, economista e professor da Universidade da Madeira, fez as contas sobre a solução de reestruturação seletiva da dívida para a Grécia e concluiu que "a proposta de reestruturação [pelos credores privados], ao contrário do que argumenta o The Institute of International Finance (IIF), é muito benéfica para os credores, porquanto, de acordo com estimativas que efetuei, não reduz o valor atual da dívida grega [em mão de privados] em 21% (haircut, "corte de cabelo", na gíria) como alegado pelo IIF, antes o aumenta significativamente. Os credores internacionais não só não perdem como ainda ganham".
A proposta de reestruturação da parte privada foi preparada pelo IIF, uma associação internacional privada de instituições do setor financeiro (bancos, companhias seguradoras, etc), e envolve €135 mil milhões de dívida soberana grega que vencerá entre 2011 e 2020.
Nas contas de Ricardo Cabral, se "se assumir uma taxa de desconto de cerca de 4,5%, que é mais razoável do que a escolhida pelo IIF [que é do dobro, 9%], o valor atual da dívida grega em mão de privados aumenta cerca de 130% - para €157 mil milhões - em relação ao valor a que estava a ser transacionada no mercado secundário antes da cimeira da semana passada (cerca de €67 mil milhões)". O economista refere, ainda, que "nessa altura, a dívida grega estava a ser transacionada com um desconto significativo, porque os mercados assumiam que ocorreria uma reestruturação de dívida".
Expetativa de ganho de 130%
E prossegue: "O que a minha estimativa indica é que quem comprou dívida grega pouco antes da cimeira europeia tem, após o acordo de reestruturação de dívida do IIF, uma expetativa de ganho, no longo prazo, de cerca de 130%. Mas, mesmo um investidor que tenha adquirido a dívida aquando da sua emissão pelo governo grego também fica a ganhar porque a divida emitida pela Grécia com um valor facial de €135 mil milhões passa, após o referido acordo, a ter um valor atual de €157 mil milhões, ou seja, mais 16%".
"A taxa de juro paga pela Grécia para os €135 mil milhões de dívida que será reestruturada sobe para um patamar entre 5.4% e 6.4%. Essa taxa de juro é o resultado da taxa de juro paga pela Grécia aos investidores privados (entre 4% e 5%) mais 36% da taxa de juro de 3,5% paga à FEEF para adquirir os novos instrumentos de dívida de rating AAA para utilizar como colateral para os credores", acrescenta o economista.
Mesmo se se utilizar a metodologia do IIF, e se assumir a taxa de 9%, escolhida pelo instituto, o valor atual da dívida grega diminui somente 7,4% e não 21%, conclui o professor da Universidade da Madeira.