Numa demonstração de que o seu interesse por África não se limita às matérias primas, a China começará, em 2010, a reduzir as taxas alfandegárias a 60% dos produtos que importa dos países daquele continente com quem mantém relações diplomáticas.
A redução da dívida de alguns Estados e o reforço da cooperação nas infraestruturas, agricultura, saúde e educação foram igualmente anunciados pelo primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, no recente fórum sino-africano de Sharm el-Sheikh, no Egipto.
O pacote de financiamento de 10 mil milhões de dólares (cerca de 6.600 milhões de euros) de empréstimos bonificados concedido aos países africanos duplica as metas fixadas em 2006, em Pequim. Na altura, a China prometeu 5.000 milhões de dólares e a redução ou anulação da dívida a 31 países.
Recordando o facto de "ter sido um dos primeiros países a reconhecer Moçambique, logo após a independência", Luísa Dias Diogo, primeira-ministra de Moçambique, elogia a postura da China nas relações diplomáticas e de cooperação empresarial que mantém com aquele país africano: "a China nunca traz uma agenda pré-concebida. Quer saber das nossas preocupações e não tem dogmas sobre as infraestruturas que vai financiar (nomeadamente, edifícios governamentais e institucionais), uma abertura que não encontramos em todos os países".
De facto, os emissários de Pequim não questionam resultados de eleições, casos de corrupção, falta de transparência ou respeito pelos direitos humanos, nem colocam exigências como os financiadores ocidentais, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.
Convidada a intervir na sessão plenária do último Global China Business Meeting, realizado em Lisboa, a primeira-ministra de Moçambique pediu aos participantes "abordagens mais eficazes, imaginativas e solidárias para o desenvolvimento em África, mutuamente vantajosas para todos os intervenientes". No domínio do comércio bilateral com a China, "gostaríamos que fosse mais agressivo, ainda é muito suave", frisou Luísa Dias Diogo, embora reconheça que as actividades comerciais "não estão só viradas para o mercado chinês, mas para o mercado regional (SADEC - Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), que representa cerca de 200 milhões de pessoas".
Segundo o jornal "Público", as trocas comerciais entre a China e África duplicaram desde o início da década e já atingiram os 106,8 mil milhões de dólares, em 2008 (71,2 mil milhões de euros) - um aumento de 45,1%. As importações chinesas são dominadas por petróleo e minerais comprados a países como Angola, Sudão, Nigéria, Zâmbia, Congo Brazzaville e República Democrática do Congo, ascendendo a 56 mil milhões de dólares (37,8 mil milhões). As exportações foram de 50,8 mil milhões de dólares (33,8 mil milhões de euros), permitindo a milhões de africanos acederem a bens como rádios, telemóveis e televisões que a China fornece a baixo preço.
Citando o exemplo de Moçambique, Luísa Dias Diogo elogiou, igualmente, "o apoio da China ao processo de independência económica dos países africanos. Começando por beneficiar de empréstimos do Estado, depois da banca estatal e de apoio no acesso a financiamentos internacionais, vão ganhando, paulatinamente, autonomia financeira".Todavia, a relação não tem sido vantajosa para todos. Um estudo recente da Fundação Rockefeller citado pela Reuters, indica que só 15 em 53 países africanos têm um balanço positivo no relacionamento económico com Pequim.
Mesmo assim, as estatísticas chinesas citadas pela agência France Press indicam que os investimentos directos chineses em África passaram de 491 milhões de dólares (327 milhões de euros), em 2003, para 7.800 milhões de dólares (5.200 milhões de euros), no final de 2008, o que coloca a China acima dos países ocidentais.