Com o seu início marcado para as 15 horas, a manifestação que a CGTP hoje levou às ruas de Lisboa para protestar contra o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), arrancaria um pouco mais tarde, mas não contrariou as expectativas que a própria central tinha quando afirmava esperar que este protesto fosse, em termos de participação, o maior dos últimos anos.
Multidão compacta entre Marquês e Restauradores
Reconheceu, no entanto que muito dos presentes não são habitualmente mobilizáveis pela central, mas que foram convocados pela conjuntura de crise: "A sociedade avança quando a alma colectiva desperta. São mais de 300 mil manifestantes aqui presentes e orgulhamo-nos que seja debaixo da bandeira da CGTP".
De facto, do Marquês de Pombal aos Restauradores a moldura humana compacta levou duas horas a percorrer aquele percurso e já Carvalho da Silva (o terceiro a intervir) discursava perante a multidão nos Restauradores, ainda chegavam ao Marquês, vindos de pré-concentrações noutros locais, manifestantes que acabaram por ouvir, àquela distância, as críticas do secretário-geral da central dirigidas ao Governo, ao PSD, ao CDS e até ao Presidente da República.
Um discurso, três mensagens
Um discurso dividido em três partes: um primeiro de crítica cerrada ao pacote de medidas anunciadas pelo Governo, sobretudo as que têm particular incidência no rendimento do trabalho; um segundo momento de identificação do que a CGTP considera serem as causas da crise, identificando, particularmente, "os partidos do arco de poder"; e uma terceira parte de apelo à unidade, cujos destinatários ultrapassam o âmbito estritamente sindical.
"As medidas acordadas entre PS/PSD e CDS e os pacotes complementares, não são uma inevitabilidade, são opções e são erradas", disse o líder da central, quantificando algumas delas e apontando outras como alternativa: "Com o aumento de 1 e 1,5% de IRS nos salários poupam 400 milhões de euros; com o aumento da taxa de IVA arrecadam mais 395 milhões. (...) e porque não pouparem antes nas Parcerias Público/Privadas onde gastam 28 mil milhões de euros por ano? Ou 1400 milhões na subcontratação? Ou nos 4 mil milhões ao BPN".
Mas as medidas mais contestadas prendem-se com os cortes anunciados nas prestações sociais, dando como exemplo a eliminação do prolongamento do subsídio social de desemprego: "Com isso poupam 35 milhões de euros, isto é, qualquer coisa como 0,02% do PIB. Quando mais de 50% dos desempregados recebem 419 euros por mês e 3/4 dos restantes não mais do que 428,5 euros por mês.
Os rostos partidários responsáveis pela crise
Na identificação dos que considera serem os causadores desta crise, Carvalho da Silva identificou o CDS, que, segundo o líder sindical, têm uma agenda "que há muito foi assumida pelo Governo"; o PSD, que "apoia tudo o que o Governo adopta" e o Presidente da República que "tem uma atitude de apoio implícita" às medidas do Governo, mas que, "para compor o seu papel no cenário vai fazendo uma ou outra intervenção".
Numa terceira parte do seu discurso Carvalho da Silva começou por criticar as declarações do seu homólogo da outra central (UGT), João Proença que considerou não ser esta manifestação uma resposta à crise e que agrava a imagem de Portugal no estrangeiro.
Carvalho da Silva considerou estas declarações do líder da UGT, "desadequadas e insultuosas". Porém, fez apelo à "unidade" envolvendo nesse apelo, "todos os trabalhadores independentemente das opções partidárias e sindicais (...) os pequenos e médios empresários", garantindo que o"único compromisso que a CGTP assume é o de adoptar todas as foremas de luta que a Constituição consagra e não excluindo nenhuma".