"Cardeal Cerejeira. O Príncipe da Igreja", é o título do livro da historiadora Irene Flunser Pimentel (ed. Esfera dos Livros), lançado no dia 9 numa livraria de Lisboa. A apresentação esteve a cargo de dois especialistas em história religiosa, António Matos Ferreira, da Universidade Católica Portuguesa, e Rita Almeida Carvalho, da Universidade Nova de Lisboa.
Ambos tiveram palavras elogiosas para a biografia daquele que foi uma espécie de braço religioso do Estado Novo. Amigo de Oliveira Salazar desde os tempos da faculdade em Coimbra, tiveram percursos absolutamente paralelos: Salazar na política e no Estado, Cerejeira na religião e na igreja.
Raul Rego e Mário Soares no velório
"Uma biografia política de um homem religioso", foi como António Matos Ferreira definiu o livro, enquanto notava que "a religiosidade de Cerejeira não era a religiosidade de Salazar".
Matos Ferreira afirmou que "Cerejeira era um bispo moderno" - fazendo questão de, logo a seguir, esclarecer que isso não significava que fosse "um bispo revolucionário". "Nos anos cinquenta, em França, Cerejeira era considerado um cardeal progressista. E cada vez que visitava Paris fazia questão de visitar um grupo de padres operários", explicou. A igreja e a cultura francesas eram, de resto, "algumas das suas referências".
Director-Adjunto do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica, Matos Ferreira disse que "o fim do livro é uma metáfora extraordinária", com os socialistas Raul Rego e Mário Soares, que sempre haviam criticado e combatido o patriarca de Lisboa, a comparecerem no seu velório. Antes, Cerejeira pedira "para ser sepultado numa campa rasa", mas por ironia da História acabou por ser levado "para o panteão dos cardeais". "É certo que Cerejeira tinha um lado retórico extraordinário, mas aquele seu pedido não era retórica", assegurou o professor Matos Ferreira.
Desfazer a imagem caricatural do patriarca
A doutoranda Rita Almeida Carvalho, por sua vez, disse que o livro vai ajudar "a desfazer muitas ideias feitas" sobre o cardeal Cerejeira, que foi "o maior vulto da igreja católica portuguesa do século XX". Em especial "a imagem caricatural" que circulou durante décadas, designadamente nos sectores da Oposição à ditadura.
Irene Pimentel, que fez questão de esclarecer que não é católica, reconheceu que também ela, "quando começou a fazer a investigação, tinha uma imagem caricatural" do seu biografado.