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Centro vital

8:00 Segunda feira, 27 de outubro de 2008

A recente declaração pública de apoio ao senador Obama por parte do general Colin Powell, antigo secretário de Estado do Presidente Bush, sugere importantes questões políticas sobre o que está actualmente em jogo na América. Não se trata apenas da batalha eleitoral. Trata-se de saber se os contornos do mapa político americano estão ou não em mutação.

A grande coligação republicana posta em marcha por Ronald Reagan em 1980 - e que, intelectualmente, vem dominando o país desde essa época - assenta em três sectores distintos. Em primeiro lugar, vêm os liberais clássicos (também designados por conservadores fiscais), cuja principal motivação reside em travar o activismo do Estado. Em segundo lugar, vêm os conservadores sociais, sobretudo de inspiração religiosa, cuja principal preocupação consiste em travar a erosão das virtudes morais. Em terceiro lugar, vêm os chamados republicanos moderados, geralmente da velha aristocracia WASP ("white anglo-saxon protestant"), os quais sempre conviveram com alguma dificuldade com os outros dois sectores.

Estes republicanos moderados não tiveram grande contribuição, no plano intelectual, para a coligação gerada por Reagan. Mas a sua presença exprime um importante ingrediente político daquela coligação: a sua natureza defensiva, ou antiactivista, ou não revolucionária. De certa forma, é esta natureza defensiva que permite manter coligados três sectores tão distintos. Eles estão unidos numa reacção contra a engenharia social ideologicamente desenhada por burocracias activistas, ou militantes - associadas, mal ou bem, aos democratas (Bill Clinton foi o líder democrata que melhor compreendeu este fenómeno, tentando invertê-lo).

É esta natureza defensiva que tem permitido, em meu entender, a dinâmica ganhadora da coligação republicana. Os republicanos moderados têm vindo um pouco a reboque dos outros, mas dão-lhe uma âncora ao centro. Se esta âncora se soltar, a coligação republicana perderá a dimensão defensiva e surgirá aos olhos do eleitorado como uma plataforma ideológica activista.

Se for esse o significado da mudança de campo de Colin Powell - o que não podemos por enquanto saber - o mapa político americano mudará profundamente. Se isso acontecer, é uma injustiça para John McCain - que é um dos líderes republicanos menos ideológicos, desde George Bush pai. Será também uma ironia para o senador Obama - um dos candidatos democratas com uma base de apoio mais ideológica desde McGovern.

No imediato, a esperança de McCain reside na capacidade de mobilização eleitoral de conservadores e liberais clássicos. Mas, se isso acontecer à custa do 'centro vital', o mapa político da América pode estar à beira de uma profunda mutação estrutural.

João Carlos Espada

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