11/02/2012 atualizado às 15:51

Cegueira em Santa Maria: Seis crimes em 22 minutos

O DIAP de Lisboa acusa o farmacêutico Hugo Dourado e a técnica de Farmácia Sónia Baptista de seis crimes de ofensa à integridade física grave, com dolo eventual. Terão sido responsáveis pela troca de fármacos que levou à cegueira de seis pacientes no Hospital de Santa Maria. Clique para visitar o dossiê CEGUEIRA EM SANTA MARIA

Raquel Moleiro (www.expresso.pt)
10:53 Quarta feira, 16 de dezembro de 2009

O Ministério Público acusa o farmacêutico Hugo Dourado e a técnica de Farmácia Sónia Baptista de seis crimes de ofensa à integridade física grave com dolo eventual, por alegadamente terem sido responsáveis pela troca de fármacos que provocou cegueira irreversível em seis pacientes oftalmológicos do Hospital de Santa Maria.

Clique para aceder ao índice do dossiê CEGUEIRA EM SANTA MARIA

Hugo Dourado trabalhava no Serviço de Gestão Técnico-Farmacêutica do hospital de Lisboa e tinha como funções elaborar os mapas de produção dos medicamentos, seleccionar os fármacos adequados e, principalmente, fazer a validação final dos preparados. Dele dependia a segurança do circuito de produção dos fármacos e, consequentemente, a integridade física dos doentes.

Sónia Baptista trabalhava no mesmo serviço, desde início de 2008, como técnica de farmácia, e competia-lhe a manipulação e preparação dos medicamentos de acordo com os respectivos mapas de produção.

Manual de Procedimentos não foi seguido


No dia 16 de Julho de 2009, uma quinta-feira, estavam ambos no turno da tarde. Pouco depois das 18h30, a apenas 30 minutos da hora de sairem, o farmacêutico recebeu seis prescrições médicas provenientes do serviço de Oftalmologia para preparação de oito seringas de Bevacizumab (Avastin), que se destinavam a ser inoculadas na manhã do dia seguinte.

Em apenas 12 minutos, o arguido efectuou a transcrição das prescrições, registou-as informaticamente, validou cada um dos doentes e imprimiu seis mapas de produção, produzindo 14 rótulos, um para cada seringa e mais um por doente.

A seguir, Sónia Baptista foi preparar as seringas. Contrariando o definido no Manual de Procedimentos, que determina a selecção do fármaco a preparar pelo farmacêutico, a técnica foi buscar ao frigorífico o tabuleiro onde se encontravam cerca de 15 alíquotas (sobras de fármacos extraiídos da embalagem original). Apenas uma continha Bevacizumab (Avastin).

22 minutos fatais


De acordo com o despacho da acusação, Sónia terá agido de forma apressada e, eventualmente, equivocada na leitura manuscrita do medicamento, pegou numa aliquota que continha Bortezomib, um citotóxico de administração venosa usado em oncologia e que provoca destruição celular. Preparou oito seringas oftalmológicas, e colocou tudo no frigorífico.

O farmacêutico Hugo Dourado nunca chegou a validar os preparados nem a efectuar o acondicionamento final, como lhe competia.

Às 19h05, Sónia Baptista saía do hospital, como prova o controlo biométrico. Fez tudo em 22 minutos.

No dia seguinte, de manhã, os pacientes Walter, Antónia, Américo, José, António e Maria das Dores foram injectados com o fármaco errado. Todos sofreram perdas irreversíveis e permanentes de visão.

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Dolo eventual ou negligência?
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 11:31 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Dolo eventual é actuar prevendo um resultado como possível e conformando-se com ele. Ou seja, no caso concreto, acusam-se duas pessoas de terem previsto, como resultado do seu comportamento, a cegueira ou, pelo menos, graves danos para a saúde de terceiros, e se terem conformado com isso.
Salvo o devido respeito, está-se perante uma situação típica de negligência, quiçá grosseira. Na verdade, os dois acusados (a ser verdade o que se narra), actuam em contrário das regras estabelecidas, violando o dever de cuidado a que estavam sujeitos, podendo e devendo prever que de tal comportamento poderiam advir danos graves para terceiros, não se conformando com isso.
A diferença (muito importante) é que no dolo eventual uma pessoa conforma-se com o resultado que prevê como possível. O MP diz, objectivamente, que estes dois indivíduos acharam possível que seis doentes ficassem cegos e se marimbaram para o assunto!
Na negligência (muito mais plausível) a pessoa não se conforma com o resultado que nem sequer prevê (embora pudesse e devesse ter previsto).
  Nada de novo, por aqui. O Ministério Público, atiçado e condicionado pelo justicialismo histérico-mediático que se vive, que procura bodes expiatórios e sangue em todo o lado, acusa pelo máximo. Previsivelmente, o tribunal, cumprindo a lei e não se deixando afectar pelo mesmo justicialismo, irá condenar em menor medida. Comunicação social e opinião pública irão bradar que a justiça não funciona, blablablabla...
 
 Regras da comunidade
    Re: Dolo eventual ou negligência?    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 12:47 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Cegueira
ANO1933 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:41 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Este caso, parece tratar-se de um erro humano.
Toda a espécie de erros humanos, devem ter uma atenuante.
Mas só ,e nunca neste caso, que foi praticado de uma forma negligente e quase "criminosa"
Portanto, a Justiça, não pode ter mão leve.
Os pacientes ficaram privados da visão, e , pràticamente , inutilizados para toda a vida.
Este facto tem de ser levado em conta!
Esperámos que a Justiça actue actue depressa e sem contemplações .
Não esquecer, igualmente, as chefias, pois também têem a sua quota de responsabilidade.
 
 Regras da comunidade
    Re: Cegueira    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 12:58 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Tinha que ir ver o namorado ?
istoeumcaos (seguir utilizador), 1 ponto , 11:52 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Há, em primeiro lugar, a responsabilidade do estado já que são funcionários públicos.

E por fim, como é que isto se passou ? Tinham pressa para se ir embora e fizeram tudo mal. Isto é negligência grosseira e actuaram sem nenhum tipo de responsabilidade. Não perceberam que estão a lidar com medicamentos e, se têm pressa, que faça outro.

Em segundo lugar estas pessoas têm que ser despedidas para que as pessoas estejam sossegadas. De outra forma vão estar a pensar que o medicamento que lhe vão administrar foi preparado por alguma dessas pessoas.
 
 Regras da comunidade
A Justiça também parece cega
Sopinhademassa (seguir utilizador), 1 ponto , 12:05 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Realmente não podia estar mais de acordo com o NãoHáInocentes. Do que se trata é de pura negligência e não dolo, mas os senhores procuradores quiçá pressionados para darem a castanhada em alguém, meteram a pata na poça. Conheço muitos advogados que se devem fartar de rir com isto... a Justiça também é cega, não são só os pacientes.
 
 Regras da comunidade
Toda a equipe;é responsável..Todos têm que ser con
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 12:53 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Todos foram responsáveis..TODO O MUUNDO PRÓ XELINDRÓ..oU NÃO SERÁ ASSIM..??? Quem aqui ainda quer defender estes senhores que praticaram um dos maiors crimes contra pessoas inocentes;e que amanhã poderão votar a repetir este crime...??? Pois então todos têm que ser condenados;e não podem mais exercer a profissão que contribua;para mais outros eventuais crimes como este... ATÉ MAIS.. CUMPTS..KANTIFLAS.
 
 Regras da comunidade
Anda tudo ao contrário...
Ghost Buster (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
É claro que quem acabará por pagar as "favas" serão os farmaceuticos, discutindo-se em praça pública mas muito pouco esclarecida se se trata de negligência eventual ou de dolo directo. Estes crimes previstos e puníveis pelo CP, apenas vem deitar mais lenha prá fogueira da imbecilidade reinante. Esclarecem-me:
1) como se determina que estamos perante um resultado que os agentes previram e se conformaram com o resultado? eles confessaram?
2) onde cabe a negligência médica? pois ao administrar o farmaco não detectou a equipa da cirurgia que havia uma situação de ERRO?
3) porque razão se levou tanto tempo a saber deste facto e a arranjar culpados? sendo que se gastou um fortuna com analises , contra analises e envios para laboratórios no Canadá?
4) se foi uma questão de Negligência ou dolo, não se sabe e nunca se saberá. A verdade é que me parece absurdo e de muito má_fé vir-se a terreiro acusar os farmaceuticos, não de erro grosseiro mas de actuação criminosa.

5) o que foi feito pelas vitimas? além de as relegar para uma cama de hospital e estarem 5 meses á espera de decisões.
6) as vitimas não querem "NADA" apenas pretendem justiça, e que estes casos não se repitam. Então o que pretende o presd.Assoc. de utentes do HSM? mais um ex-politico engavetado á espera de protagonismo

reflexão:
Mais uma vez a culpa não recai sobre a classe médica. São sempre os outros ainda que lhes ponham uma arma na mão, mas eles disparam quais inimputáveis ou quiçá impuniveis.

 
 Regras da comunidade
Negligência de quem?
mosava (seguir utilizador), 1 ponto , 17:06 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009
Então, a direcção clínica do hospital só descobriu às 18H43 que havia seis doentes a necessitar da tal injecção?
A incompetência dos amigalhaços colocados para a gestão dos hospitais é enciclopédica! Seja no público ou no privado, é um espectáculo... Claro que sempre se encontra um culpado lá em baixo na hierarquia, apesar de não terem conseguido acusar os médicos desta vez, pelo maior desgosto de alguns autores de comentários.
 
 Regras da comunidade
-Rodapé
Pedra-Mó (seguir utilizador), 1 ponto , 18:40 | Quarta feira, 16 de dezembro de 2009

RESPONSABILIDADES

Só a quem se propôs nada fazer na vida está vedada a hipótese de errar.

Porém, quem assume responsabilidades, e é pago para as assumir, quando erra, tem que estar preparado para arrogar as consequências do seu erro.

Os dois profissionais em causa terão decerto as habilitações académicas tendentes à profissão que exercem. Por isso, dado o exposto, não haverá que responsabilizar mais ninguém.

Nenhuma pessoa, sã de espírito, erra de propósito mas, se é verdade que a ignorância dá lugar ao Saber, o Saber não deve ignorar a Responsabilidade…
 
 Regras da comunidade
Vamos a factos!
lsreis (seguir utilizador), 1 ponto , 15:46 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Aquilo que vos vou dizer não iliba ninguém dos factos ocorridos, mas serve para dizer e afirmar que nestes casos sempre há, infelizmente, a necessidade de recorrer a meias verdades e, isto respeita a quem investiga e a quem publica notícias. Experimentem no Google a colocar a seguinte pesquisa "bevacizumab fda aproved", aparecem muitos artigos, mas aí na página 3 ou 4 aparece um artigo do "New England Journal of Medicine". O artigo é livre sob a forma de perspectiva e publicado a 5 de Outubro de 2006 - http://content.nejm.org/c...
título - "o preço da visão" - ranibizumab, bevacizumab and the treatment of macular degeneration.
Demorei um minuto a lá chegar! O que diz o artigo? O mesmo laboratório, viu aprovado pela FDA um medicamento o bevacizumab para o cancro já disseminado do cólon, o custo mensal nos USA do tratamento de quimioterapia era $4.400, forma de administração intra-venosa e, em Junho de 2006, viu aprovado outro medicamento o ranibizumab, para injecção intra-ocular e tratamento da degenerescência macular, o preço da injecção mensal $1.900(por globo ocular). De uma molécula à outra vejam as diferenças ... O bevacizumab, com uma formulação intra-venosa, pode ser preparado para injecção intra-ocular, a um custo de $17 a $50 (por globo ocular), mas essa preparação tem riscos, não só do que aconteceu em Santa Maria, mas também de infecção com a manipulação do fármaco. O resto da história está lá toda. Os direitos do ranibizumab foram vendidos
 
 Regras da comunidade
Vamos a factos II
lsreis (seguir utilizador), 1 ponto , 16:33 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
(Cont.) Os direitos comerciais do ranibizumab (como já devem ter percebido para injecção intra-ocular em formulação apropriada, sem riscos de engano ou de infecção) na Europa foram vendidos a outro Laboratório. O preço continua "exorbitante".
Três perguntas:
Porque a FDA e o governo Americano permite isto?
Porque a agência europeia do medicamento e o Infarmed permitem isto?
Porque os Governos permitem isto?
Porque não actuaram como no caso da sida, obrigando a baixar os preços ou a "criar" genéricos?
No artigo há uma frase eloquente " ... In many parts of the world, a medication that costs $1,950 for a monthly injection is unaffordable ..."
Quem sofre? Os doentes em primeiro lugar! Mas, também os profissionais de saúde que trabalham neste terreno "pantanoso"! Para quê? Talvez para tentar oferecer aos portugueses cuidados de saúde a $1.756 per capita em 2006, que outros não conseguem com $3.658 ( média da CEE a 15 em 2006) ou com $6.719 ( USA 2006).
Não me venham é com mais histórias de "desperdício" no nosso SNS e aumentos da despesa.
Antes de publicar notícias assim ... informem-se!
 
 Regras da comunidade
Vamos a factos factos III
lsreis (seguir utilizador), 1 ponto , 17:51 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
Já estava à espera ...
A notícia deixou de ser notícia ... porquê? Desapareceu da primeira página do expresso online!
Ainda estão a digerir os factos ...?
Olhem! O que está em causa é um direito de cidadania ... a minha opinião como cidadão!
O acesso à informação que obtive, qualquer português a tem! A net é o espaço mais democrático que existe, e quem assina a notícia "6 crimes em vinte e dois minutos", também deveria saber que uma pesquisa na net se efectua em 1 minuto, e que o acidente da A23 ocorreu se calhar em menor período de tempo ...
Desculpem, mas não existe um código deontológico ou de ética no jornalismo?
 
 Regras da comunidade
Importa-se de repetir?
peliteiro (seguir utilizador), 1 ponto , 18:04 | Sábado, 19 de dezembro de 2009
Sobras de fármacos??? Extraídos da embalagem original??? Tabuleiro com 15 alíquotas??? Citotóxicos "à solta"??? Rotulagem manuscrita??? Esborratada? E a câmara de fluxo laminar? E a validação farmacêutica? E os 24 anos? Mas estamos a falar da Farmácia de um hospital de referência de Portugal ou da Guiné-Bissau?

www.peliteiro.com Impressões de um Boticário de Província
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
1. Toni 2 ( 297pts )
2. carlos-carlos ( 170pts )
3. moncarapacho ( 167pts )
4. Runaldinho ( 163pts )
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Cegueira em Santa Maria: Debate instrutório a 5 de janeiro
15:32 Terça feira, 30 de novembro de 2010,
Cegueira: Tragédia em Santa Maria transforma-se em caso exemplar
8:22 Sexta feira, 16 de julho de 2010,
Cegos de Santa Maria recebem hoje indemnização
15:51 Quinta feira, 29 de abril de 2010, 1
Santa Maria: Cegos aceitaram indemnizações
22:05 Segunda feira, 26 de abril de 2010, 4
Quatro doentes cegos aceitaram indemnização
16:05 Segunda feira, 29 de março de 2010, 13
Cegueira em Santa Maria: Seis crimes em 22 minutos
10:53 Quarta feira, 16 de dezembro de 2009, 14
Farmacêutico e técnica de farmácia podem apanhar 10 anos de prisão
18:15 Terça feira, 15 de dezembro de 2009, 1
Cegos de Santa Maria: Farmacêuticos acusados pelo MP
14:40 Terça feira, 15 de dezembro de 2009, 27
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP