13/02/2012 atualizado às 1:11
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Cavalinho a 270 km: vou morrer!

Como é bom viver nesta época. Aos sábados fintas a morte para 2ª ser blasé.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 3 de fevereiro de 2010

As minhas editoras, na sua imensa sabedoria, que me perdoem. Li na Única passada sobre o Medo e fiquei com a sensação de que se trata de um papão, que é uma coisa muito má, muito horrível que se deve temer. Ora tendo em conta que nesse mesmo sábado, de forma deliberada, me sujeitava a um puro, cru e azedo estado de terror esbugalhado, que seguidamente - qual soufflé de alma - se insuflou num êxtase grunho de autoconfiança tostada a endorfinas venho pois, com vossa licença, contestar. Eis-me então de mota, à pendura, a 270 km\/h, com a roda da frente no ar, numa pista com zonas ainda molhadas da chuva. Nesse momento, o cérebro envia sinais poderosos para o organismo e ali, feito vírgula esmagada sobre o piloto e coração a bombear pânico entra-se numa zona de onde há uma tranquilidade a slow motion irreal. Está-se lá, no olho do clichê: vivinho da silva porque morto de medo.

Mas isso é ao fim de dois longos minutos... Pode-se ter carta de mota, pode-se ter muito quilómetro de duas rodas... mas aquilo não tem correspondência para nada que se possa experienciar na estrada. Quando a Honda CBR1000RR, conduzida por Miguel Praia - piloto do Campeonato do Mundo de Motorsport - sai das boxes e engrena a mudança, a sensação é que vamos ser cuspidos ao som brutal do motor. E o cérebro fracciona-se em várias zonas de pensamento simultâneo. Uma área diz: "Meu grande imbecil, com tanto acidente de mota que já tiveste onde te vieste meter?" Outra zona gagueja: "Calma, calma, calma ele é profissional, sabe o que está fazer." Outra zona apenas grita de pânico, que se mistura com outra meio louca que grita e dança de prazer infantilóide... Passaram alguns segundos, estamos a tentar gerir as primeiras curvas e travagens e então... a mota vai a pique numa descida de 12% e sobe a acelerar numa curva cega. Nesse momento a parte do cérebro que diz "ele é profissional" já está agarrada ao hipotálamo a chorar. Ouço-me surpreendentemente a dizer palavrões em 43 línguas e 56 dialectos... E só um minuto depois com o tal cavalinho a 270 entro no tal nirvana sereno de horror...

O medo, este "medo-gourmet", auto-infligido, tem hoje correspondência numa indústria de fim-de-semana razoavelmente massificada mas num grau cada vez maior de sofisticação, dado que os consumidores vão ficando imunes às experiências anteriores. Ah, como éramos jovens quando saltámos pela primeira vez de bungee, gritámos sobre os céus de pára-quedas, rolámos desamparados serra abaixo de BTT, entrámos nas urgências a tirar fotos ao lanho na cabeça...

E, contudo, a "moda da adrenalina" não passou. Mudaram as formas de provocar a sua segregação hormonal ali, ao sábado, a diversos preços, no ar, na terra, no mar, a duas, quatro rodas e o que mais se inventar com asas, ou com cordas mas com gritos.

Dir-se-á que é vício, que tal como uma droga, tem a recompensa do pós. É verdade. Aqueles cinco minutos na mota com Miguel Praia têm um efeito assombroso ao nível orgânico e mental, sente-se que a pulsação fica com um timbre mais afinado e a visão mais apurada durante um ou dois dias. Mas também é o confronto com um final trágico no alcatrão que nos faz reavaliar os problemas de 2ª feira.

Aquilo a que se chama stresse é a maior parte das vezes apenas adrenalina choca e a apodrecer no organismo. São dias e dias em que o nosso australopiteco primordial nos manda atacar e respondemos tacanhamente "sim, sôtor, eu refaço o Excel". Stresse é calar quando as 160 batidas do coração nos estão a mandar cravar a lança no cachaço do bisonte. Mesmo que ele se chame Eng. Fonseca, da Contabilidade.

Pelo contrário, andar a 270 de roda no ar agarradinho ao Miguel limpa as válvulas de stresse e deixa o Homem destemido uns dois ou três dias. Fonseca: Põe-te a pau!

Miguel Praia
É um dos pilotos que faz a Táxi Experience Honda CBR1000RR (178cv, 308km\h, 0\100-3,8': 70 euros). É disponibilizado fato, botas, capacete e luvas. É possível efectuar vídeo com câmara colocada no capacete do piloto que filma expressões do pendura durante as duas voltas à pista do fantástico Autódromo Internacional do Algarve, um dos melhores da Europa e um dos preferidos de Michael Schumacher.
Marcação prévia 927 244 694

http://www.autodromoalgarve.com.pt/

http://www.miguel-praia.com/

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

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sou a rosa e pergunto se o senhor luis me roubou
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 23:51 | Sábado, 6 de fevereiro de 2010
é verdade senhor luis roubaram-me o desabafo que tinha escrito para o senhor e isso terá acontecido porque não gostou ou foi um daqueles senhores do expresso que são muito sensíveis e é que gostei muito do que escreveu e até nunca o tinha visto assim tão excitadinho e tanto que até falei no assunto com a minha prima reunião que é programadora e ela disse-me que lhe parecia que o senhor luis tinha de facto estado no algarve com o senhor miguel praia mas na opinião dela não tinha sido a andar de moto e tudo porque ela tem programas que causam as mesmas sensações e sem moto e até a minha colega zenaide do terceiro direito já pediu folga no próximo fim de semana para também ir ao algarve dar duas voltas com o tal senhor miguel e pronto e agora só espero que não me volte a roubar o desabafo
 
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sujaste a cuequinha.verdade?
S THUNDERS (seguir utilizador), 1 ponto , 17:15 | Quarta feira, 3 de fevereiro de 2010
eehehh
 
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um espectáculo
_maverick_ (seguir utilizador), 1 ponto , 18:57 | Quarta feira, 3 de fevereiro de 2010
...esta crónica do Sr Luís Pedro Nunes. Uma descrição absolutamente fantástica das sensações que uma duas rodas nos pode transmitir, em ambiente obviamente controlado de autódromo, é bom referir. Ah e o efeito de catarse de tal experiência está primorosamente descrito, os meus parabéns!
 
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