Com PS e PSD a viverem um verão quente de trocas de acusações, e a nuvem carregada da ameaça de chumbo do Orçamento do Estado de 2011 a pairar no ar, a tirada de Ângelo Correia é clara: "Não me cheira a crise, o PS vai ter bom senso". Ainda a garoupa fria com salada russa não chegou à mesa e já vai bem acesa a conversa sobre a vida política portuguesa.
Ângelo Correia no seu melhor. Conversa torrencial, com a política nacional sempre como pano de fundo mas com desvios que o levam dos generais da Roma antiga ("Pompeu era o melhor") ao PREC, aos tempos dos governos de Sá Carneiro e Balsemão, passando pela filosofia e religião ("estou à procura de um chamamento para a reconversão há 15 anos, mas não o encontro"), por Angola, Moçambique ou a Líbia (sempre os árabes). Três horas sem silêncios, interrupções (só atendeu dois breves telefonemas, cada um de uma das filhas) e quase sem papas na língua de um homem que "nunca diz tudo".
À uma e quinze, hora aprazada, já um dos principais conselheiros de Pedro Passos Coelho (dos que não fazem parte dos órgãos nacionais do PSD) e seu ex-colega (Passos Coelho era também gestor na Fomentinvest) aguarda no restaurante. Mas não pára um minuto e enquanto espera senta-se à conversa noutra mesa, onde almoça Sousa Cintra.
A aposta em Passos
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| Ementa: Recheio de sapateira, presunto e espargos à entrada. Garoupa fria com salada russa e café a terminar. Um copo de vinho tinto Casa dos Gaios, do Dão, e duas Águas das Pedras |
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À mesa, lançamos o isco. "Estou menos na política do que os srs. jornalistas", solta de pronto quando se lhe pergunta qual o papel que tem hoje na vida dos sociais-democratas. O que lhe interessa, diz, "é o problema da despesa pública", a falência do Estado - "não precisamos de mais estatismo" - o beco sem saída em que Portugal se encontra: "É preciso diminuir a despesa". E como é que o PSD consegue dar respostas aos desafios. E é para isto que vê em Passos o homem certo para fazer o que tem de ser feito. Defeitos, só com ironia lhe aponta um, já a conversa ia longa: "A altura... vê-se muito." Elogia a firmeza, a capacidade de decisão e liderança de Passos - "gosto dos que me dizem não na empresa", ele é "muito afirmativo" - e, sobretudo, protesta contra uma política socialista errada, levada a cabo por um homem "que não vive neste mundo".
Mas, nem por acaso, Passos, depois de meses em crescendo, surge agora sob fogo como nunca estivera desde que foi eleito, em março. Foi a revisão constitucional, é a ameaça de crise política com o chumbo do OE. Passos, reconhece Ângelo, "assume um risco necessário, perante a falência do Estado", ao apresentar propostas difíceis. Não antevê, ainda assim, para os próximos tempos o voltar da velha agitação laranja que tantos líderes trucidou. "O partido não tem pressa" e não está aqui "para derrubar Sócrates". Se algo corresse mal a Passos neste caminho, Ângelo só vê noutro nome a capacidade de liderar o partido: "O Rio".
Voltemos ao Orçamento do Estado, e à novela da sua aprovação/ameaça de crise política. "O PSD já deu a subida de impostos ao PS", na aprovação das medidas adicionais ao Programa de Estabilidade e Crescimento (o célebre tango Passos/Sócrates), e não pode ceder mais. Ou seja, se há zanga, as culpas estão no Largo do Rato. Mesmo nas deduções fiscais na Saúde e Educação, que o Governo quer cortar, Ângelo afirma que "a margem de negociação é mínima, senão nula". E lança números para a mesa: "O PSD já permitiu um encaixe fiscal de 1,5 a 2 mil milhões de euros". "Quem é extremista? Não é o PSD", garante, fornecendo o guião laranja para os próximos tempos: os socialistas, e José Sócrates, que tentem aprovar um OE com bloquistas ou comunistas, se tanto criticam os sociais-democratas.
Dito isto, e apesar de recusar apostar que o Orçamento do Estado para 2011 vai mesmo ser aprovado, mostra-se confiante em que será viabilizado. A prova dos nove, acrescenta, serão os dois OE seguintes, para 2012 e 2013.
A revisão constitucional é outro dos temas do momento. Aqui Ângelo Correia volta a defender a proposta laranja (admitindo, no entanto, mudanças na razão atendível para o despedimento), lembrando que três dos artigos até foram redigidos por ele, mas, a custo, lá acaba por reconhecer problemas de comunicação em todo o processo. "Eu não teria apresentado a proposta" antes de ela estar finalizada.
O papel de Cavaco
Se Passos é o seu candidato, e "acredito que vai ficar por lá muitos anos", e se o PSD está domesticado, qual é então a receita para tomar de assalto o poder, que Sócrates, com uma liderança "violenta e possessiva" conserva? Aqui, a resposta de Ângelo Correia é desarmante: "Não acredito na eficácia de uma moção de censura", com o argumento de que a esquerda à esquerda do PS, BE e PCP, não votaria a queda dos socialistas com uma moção apresentada por PSD ou CDS.
Convicto de que José Sócrates não aguenta a legislatura até ao fim, em 2013, qual é então a receita para lá colocar o PSD? Em primeiro lugar, Cavaco Silva, "que vai ser eleito calmamente" (e Ângelo, que nunca teve uma relação fácil com o antigo líder do PSD, não acredita que outra candidatura à direita entretanto surja), vai ter um segundo mandato "à Soares, mais interventivo". Isto é, vai apertar os calos ao Governo como até aqui não fez. Em segundo, Passos tem de conseguir afirmar a sua oposição. E, finalmente, "o PS é o inimigo de si próprio". Que quer isto dizer? É bom sublinhar que Ângelo, especialista em estratégia (área na qual vai, aliás, avançar para o doutoramento), insistiu por diversas vezes ao longo da conversa nesta tecla. Sustenta que os próximos orçamentos ainda vão ser mais duros, que o túnel está longe do fim e que é "a erosão interna de José Sócrates no Partido Socialista" que pode acelerar a sua queda. Isto é, que mais do que Cavaco ou o PSD é o PS que vai acabar por derrubar Sócrates.
Ainda sobre Cavaco Silva, assevera que o professor de Economia "já não tutela o PSD" e que o consulado de Manuela Ferreira Leite foi mesmo o "último reviver de uma conceção cavaquista".
Sobre o seu próprio papel, garante: "Nunca iria para o Governo". Fala da idade, do trabalho, dos problemas de saúde. Esse não é o seu caminho. Mas nunca nega a influência junto do líder do PSD (muitas vezes ao longo dos últimos anos apelidado de Ângelo boy). "Se falo com ele todos os dias? Oh, não, longe disso. Nem sabia o discurso do Pontal". Mas que a influência existe, existe: "Ele ouve-me quando quer... e às vezes quando não quer", atira.
Outra tirada inesperada: "Passos tem de abrir" e cativar as novas elites do país. E "não é depois das eleições, é antes". Isto é, não chega a nova geração que agora está na liderança do PSD, é preciso ir à sociedade civil e tirar dela o que de melhor tem. Para o Governo, assume sem complexos um acordo com o CDS. Portas a ministro? Sem dúvida, "mas na Administração Interna, a prender bandidos e a apagar incêndios, e não no Ministério dos Negócios Estrangeiros", a chefiar a diplomacia nacional.
Idade: 65 anos.
Fala nela, e na saúde, como argumentos para nunca vir a integrar um governo de Passos Coelho
Profissão: Gestor.
Lidera a holding Fomentinvest, onde Passos Coelho esteve sete anos antes de chegar à liderança do PSD
Cargos políticos
Foi ministro da Administração Interna no início dos anos 80. Foi muito tempo deputado mas afastou-se em 1995. Regressou aos cargos no PSD com Luís Filipe Menezes mas agora, com Passos, é conselheiro, não ocupando cargos formais
Formação: Engenheiro
Voltou, há poucos anos, a estudar filosofia, uma paixão antiga. Mas para o doutoramento vai avançar na área da estratégia. É especialista em questões de segurança e defesa
Frases
Não estamos ainda num buraco, porque o país não tem perceção disso
José Sócrates não vive neste mundo
Qualificar de chantagem a posição do PSD é um profundo condicionamento
à vida democrática
As presidenciais vão ser muito bonitas. Vai ser um desfile patriótico de Cavaco
Cavaco já não tutela o PSD
A grande virtude de Sócrates é a forma como exerce o poder: violenta, afirmativa, possessiva
A razão mais óbvia para Sócrates cair é a erosão interna
Ferreira Leite foi o último reviver de uma certa conceção cavaquista do PSD
O Pedro ouve-me quando quer. E às vezes quando não quer
Eu não irei nunca para o governo. Não tenho condições para ser ministro
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010