I. Ontem, em entrevista a Judite de Sousa, na RTP 1, Cavaco Silva foi bastante claro em dois pontos. Em primeiro lugar, não acredita que o Governo não conhecesse os contornos do negócio PT/TVI. No campo das possibilidades, esta operação não podia acontecer sem o conhecimento do primeiro-ministro. Aliás, Henrique Monteiro afirmou o mesmo na comissão de ética no parlamento.
II. Em segundo lugar, Cavaco Silva disse que - no plano ético - um negócio que envolva a compra de uma TV tem de ser transparente. Não é apenas o Governo que tem de estar a par do dito negócio. Toda a opinião pública deve ser informada atempadamente. Porque a compra de uma TV não é bem a mesma coisa que a compra de uma cadeia de supermercados.
III. Parece-me evidente que Cavaco Silva perdeu qualquer confiança em José Sócrates (quem não perdeu que levante o braço). Muitos - como eu - pediam que o Presidente actuasse em conformidade perante esta falta de confiança. A estes pedidos, Cavaco Silva tem uma resposta elucidativa: "O Presidente não pode demitir o Governo por falta de confiança política". O Presidente já não confia no Governo, mas não o demite. Porquê? Há três hipóteses: (1) ao contrário dos seus antecessores, Cavaco tem uma visão minimalista dos seus poderes; (2) Cavaco Silva já está em campanha eleitoral, e a demissão de um primeiro-ministro - que faltou às mais elementares regras de transparência - estragaria a festa da reeleição; (3) Cavaco Silva quer que José Sócrates passe pelas passas do Algarve, ou seja, Cavaco quer queimar em lume brando o Governo nesta crise. Resta saber se José Sócrates vai nesta conversa.