Namoram.
"- Querida, deixa-me dar um beijinho nesse sinalzinho...
- Não deixo!
- Deixa lá dar um beijinho nesse sinalzinho...
- Não deixo!"
Casam-se.
"- Afasta para lá essa verruga!"
The honeymoon is over. Arrancam-se os cartazes das legislativas e é pedido ao líder do Partido Socialista que se concentre na formação do Governo, e na forma como nos vai Governar, não na campanha autárquica.
A vida vai voltar ao normal e a nossa situação não mudou. É como acordar depois de uma noite de festa, a casa vazia de convidados, chegar à cozinha e ver a loiça suja por todo o lado, a cozinha desalinhada, a casa do avesso. Dá vontade de voltar para a cama e voltar a sonhar com as novas auto-estradas vazias, os TGV, a terceira travessia do Tejo, o novo aeroporto de Lisboa, o povo feliz a agradecer tanta fartura.
De acordo com a Lei do Orçamento do Estado, está o Governo autorizado a aumentar a dívida do Estado em 11.807,9 milhões de euros durante este ano de 2009. Nem mais um cêntimo! Até ao fim de Agosto já esse saldo tinha aumentado 11.167 milhões, pelo que, meus amigos e compatriotas, preparemo-nos, porque daqui até ao final do ano: ou se aperta a torneira ou a Assembleia da República tem de autorizar o Governo a alterar aquele limite. Porque só a Assembleia da República pode autorizar o Governo a tal. E aqui começa o sarilho.
O Instituto de Gestão do Crédito Público, em nota recente, dá conta da sua generosa expectativa de contrair o saldo da dívida pública emitida, acabando no final do ano com um endividamento abaixo do que se verificava em final de Agosto. Mas pelas minhas contas, ou a coisa muda seriamente até fim de Outubro ou temos sarilho... Porque nos últimos dez anos, apenas durante um ano tivemos um saldo positivo de execução orçamental no último quadrimestre do ano.
Ainda por cima, com o resultado eleitoral que temos, a coisa será curiosa logo na rentrée. Vamos ter um Partido Socialista namoradeiro a arrulhar aos vizinhos? Ou vai andar sozinho a queixar-se de não o deixarem gastar dinheiro com os remédios para os velhotes, com as reformas das viúvas e com os salários dos professores? É que mesmo um 13.º mês pago aos funcionários públicos em Certificados de Aforro como já tivemos não serve, porque aumenta a dívida que está limitada no seu aumento!
Se a coisa vai dar o estoiro, e se o divórcio vem aí, que seja rápido e que não tenham meninos...
João Duque
, Professor Catedrático do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009