À volta do Orçamento do Estado para 2010 começou um subtil entendimento entre o PS e o PSD que nem o epifenómeno do casamento gay parece abalar. Num momento de humor raro, o líder da bancada do PCP chamou-lhe "casamento entre partidos do mesmo género" e tem razão. PS e PSD são - para o bem e para o mal (o mal, infelizmente, esteve bem presente nos últimos 10 anos) dois partidos do mesmo género.
Sendo também os partidos, de longe, mais votados, acarretam as maiores responsabilidades. E, perante o desenho da crise que o país atravessa, têm de reconhecer humildemente que não vivem um sem o outro - pelo menos na miséria e na doença, visto que na riqueza e na saúde podem ir cada um para seu lado.
Aqui reside o drama. O entendimento não é uma preferência ou uma aposta. É uma necessidade. Voltando à metáfora do casamento, é motivado não pelo amor mas pela necessidade.
Há oito meses, muito antes das eleições, neste espaço do Editorial escrevemos o seguinte: "a política é a arte do possível e quase nunca aquilo que é possível é o mais desejável (...) o Bloco Central é apenas reconhecer que o mau é, ainda assim, melhor do que o péssimo". Reafirmamos hoje, depois de todos os discursos sobre essa impossibilidade, essas palavras. Do que o país precisa não se consegue sem maioria: redução das despesas para não sermos obrigados a pagar mais impostos; reformas seguras e profundas em diversos sectores, a começar pela Justiça; atenção cuidada às verdadeiras vítimas desta crise, aos desempregados; combate ao desperdício e aos subsídiodependentes.
É um programa difícil que necessita responsabilidade e estabilidade. Os líderes parlamentares socialista e social-democrata demonstraram ter essa vontade. Será que os líderes dos respectivos partidos os acompanharão nesse caminho? Assim esperamos.