Os fabricantes de automóveis que optem por actuar no mercado dos veículos eléctricos de modo a atingirem os objectivos definidos na legislação europeia, terão de fazer um menor esforço para reduzirem as emissões de CO2 nos veículos convencionais.
A conclusão é de um relatório hoje divulgado em toda a UE pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente, que integra 50 organizações ambientalistas europeias, incluindo a portuguesa Quercus. O documento tem o sugestivo título "Como evitar um choque eléctrico - Carros eléctricos: da euforia à realidade"
E assinala que "a regulamentação actual sobre automóveis e emissões de CO2 faz com que, quanto mais veículos eléctricos forem vendidos, mais derivados de petróleo serão consumidos pela frota automóvel europeia e mais CO2 será emitido".
Este resultado paradoxal "vai contra os dois principais objectivos que presidiram à criação desta legislação: reduzir o consumo de petróleo e as emissões de dióxido de carbono", assinala o mesmo documento.
Na verdade, os regulamentos europeus contabilizam os veículos eléctricos fabricados como tendo emissões zero, o que significa que um fabricante que venda 1% de carros eléctricos num determinado ano pode vender o resto da produção com mais 1% de emissões.
Ora acontece que os automóveis eléctricos têm uma quilometragem mais baixa que os convencionais, e a electricidade que consomem pode ser de origem fóssil ou nuclear, onde existem emissões.
Por outro lado, a legislação define os chamados supercréditos para os carros com emissões abaixo dos 50 gramas de CO2 por quilómetro percorrido, permitindo que os fabricantes vendam 3,5 carros convencionais de elevado consumo, como jipes ou SUV, por cada carro eléctrico vendido em 2012 e 2013.
Esta proporção de 3,5 para um só será reduzida de um para um em 2016. Até lá, se um fabricante vender 1% de veículos eléctricos, os restantes 99% podem ser vendidos com um limite das emissões de CO2 de 134,6 gramas por quilómetro percorrido, em vez dos 130 gramas aprovados pela UE, e ainda assim cumprir a lei.
Emissões aumentam sempre
"Mesmo que os automóveis eléctricos tenham efectivamente emissões zero (electricidade totalmente de origem renovável), as emissões dos novos automóveis aumentariam em média 2,5%", explica o relatório da Federação Europeia de Transportes e Ambiente.
E dá um exemplo bem elucidativo: "Se um fabricante vender um carro eléctrico, pode vender 3,5 carros convencionais com 260 gramas de emissões de CO2 por quilómetro percorrido e mesmo assim cumprir a média europeia de 130 gramas"!
Joe Dings, director daquela federação, afirma que "o desafio do poder político europeu é cortar nas emissões poluentes e reduzir a nossa dependência do petróleo, em vez de promover os veículos eléctricos".
Com efeito, "A UE não pode afastar-se deste objectivo e deixar-se distrair por uma moda tecnológica, e para que os veículos eléctricos possam ser bem sucedidos, deve-se continuar a trabalhar no sentido de promover uma maior eficiência energética e menores emissões de CO2 para todos os veículos", pressionando os seus fabricantes.
O relatório recorda que este erro já não é novo, existindo exemplos no passado recente em que os governos e os fabricantes preferiram falar de tecnologias distantes (hidrogénio, biocombustíveis, carros eléctricos) como solução para os problemas das emissões, em vez de fixarem objectivos realistas.
Francisco Ferreira, vice-presidente da Quercus, considera também que "a aposta nos veículos eléctricos em Portugal não deve fazer esquecer a absoluta necessidade de promover o transporte colectivo. E a eficiência energética tem de ganhar prioridade ao investimento nas renováveis".