A democracia e a tecnologia aliaram-se para nos dar a ilusão de que controlamos o mundo à nossa volta. De que somos parte dele, de que condicionamos as suas decisões maiores, de que participamos na marcha da história. Na democracia digital e na sociedade de informação, com tempos reais e virtuais equivalentes, e com uma aceleração brutal dos acessos aos acontecimentos e da produção de acontecimentos, criou-se o milagre da interactividade e da produção de informação para dar ao cidadão a ilusão de que ele tem poder sobre o que lhe acontece. Na verdade, esse poder é reduzido todos os dias.
O cidadão digital pode tudo: criar falsidades, cometer crimes e aliciar criminosos, inventar factos e religiões, comprar e vender coisas e seres humanos; pode vigiar, copiar, mentir, devassar, arquivar, identificar. Pode ser jornalista, juiz, polícia, político, general, assassino, espião, mafioso, ladrão, traficante, burlão, proxeneta. Pode ser o que quiser e quem quiser. Anonimamente. A sua liberdade e impunidade estão asseguradas. Pode matar, pode recrutar, pode vingar-se. Pode produzir o caos ou a ordem. E o que nos resta? O protesto e a indignação, que são geridos por uma indústria rentável, de que o jornalismo, o cinema, a literatura, as artes, a publicidade fazem parte. Vivemos na era da indignação que esconde a ausência de controlo e, pela infinita réplica e repetição, gera a indiferença. Debaixo de um indignado está muitas vezes um cobarde.
As ordens jurídicas ainda não estão na era digital. E, quando lá chegarem, tudo o que fizerem estará irremediavelmente obsoleto. Somos devorados pelo ecrã, como no filme de Cronenberg.
Não se trata de lutar contra o estado das coisas. As novas ferramentas são atraentes. Trata-se de saber que nós não controlamos o processo. E esperamos que os que o controlam saibam o que estão a fazer. O nosso problema, o das democracias civilizadas e das sociedades de abundância e direitos humanos, é o da aprendizagem com os erros e do estabelecimento dos limites. Não aprendemos e desconfiamos dos limites. Porque o ethos do tempo se resume a uma frase: quero o mundo e quero-o agora. Jim Morrison, que gritava isto, estoirou. Eram outros tempos. Agora, twittava para aliviar o stresse.
Num mundo virtual, nada mais virtual do que o dinheiro. Dantes, nos filmes policiais, os bandidos tinham malas com dólares. Agora, fazem transferências para contas secretas e paraísos fiscais. Há um ano, diziam-nos que tínhamos de poupar (dinheiro, combustível, papel, água, etc.) e que os ricos estavam a ficar pobres. Um ano depois, o que aprendemos com o crash? Nada. Os bancos continuam a fazer as trapaças que sempre fizeram, os que controlam o sistema financeiro (e a regulação) continuam a controlá-lo, os que corrompem e se deixam corromper continuam a fazer negócios, os que administram o mundo (com direito a bónus) continuam a administrá-lo. Nós continuamos sem perceber e sem querer perceber.
Envolve matemática. E pensamento. Envolve controlo. Sarkozy, um propagandista, falou em acabar com os offshores, etc. A Europa de Barroso tem uma agenda climática e digital. E deixem os bancos em paz. A crise passou. O capitalismo triunfa. Pena tantos desempregados. Madoff, o Bibi americano, foi preso. E nós, europeus insolventes, enquanto o aumento das taxas de juro, a inflação e o défice não nos comem, continuamos a pagar tudo. Os desempregados, os capitalistas, os gastos dos nossos representantes, as reformas milionárias, os privilégios corporativos, os salários dos administradores e reguladores. A crise. Nós, os contribuintes, gostamos de temas frívolos ou policiais (o drama judicial português é um reality show) para nos entretermos. Nós, os media, estamos no infotainement. E ninguém sabe muito bem o que se passa.
O filme de Michael Moore, "Capitalismo, Uma História de Amor", é muito claro. Faz a luz sobre a obscuridade. Mostra pessoas feias, gordas, pobres, desprotegidas, expulsas. Pessoas que Hollywood ignora e o sistema aniquila. Moore é um produto da liberdade do sistema, é certo. Isso não o torna menos lúcido nem mais estúpido. Nem o impede de dizer e provar que o rei vai nu. Ia nu. Irá nu.
Nota: Circula na Net mais um FALSO texto com a minha assinatura; truncado, com frases de uma crónica publicada no Expresso, uma crítica ao sistema de Justiça. A coberto de um FALSO endereço de Gmail com o meu nome, as pessoas pensam que sou eu que envio o texto. E o texto FALSO é citado, linkado, recitado, relinkado. O FALSO texto usa termos truculentos e idiotas. Que fazer? Entregar, por ironia, o caso à Justiça? Não me parece.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009