Perante críticas ao ordenamento do território na Madeira, Alberto João Jardim atalhou: são uma canalhice. Perante as perguntas de um jornalista a propósito da decisão de não decretar o Estado de Calamidade, o vice-presidente regional revoltou-se. Perante o que a Madeira tem pela frente, o PS, com o alívio de toda a oposição, desistiu da sua resistência à Lei das Finanças Regionais.
Não é canalhice nenhuma fazer um balanço do que aconteceu para, no processo de reconstrução que agora começa, se fazer melhor. Até porque não faltaram avisos de muitos técnicos. Vale a pena perguntar se fez sentido o estreitamento do leito e a canalização de algumas ribeiras. Se a baixa do Funchal devia ter tanta construção subterrânea. Se era necessária a construção de um centro comercial ao lado da foz de uma ribeira. Se o arquipélago tratou do ordenamento do seu território. Se a reflorestação da ilha não é uma urgência.
Não é uma canalhice pedir que seja explicado o que se perde e se ganha com a não declaração do Estado de Calamidade. O que se ganha para o turismo compensa o que se perde na ajuda directa às pessoas?
Não é uma canalhice perguntar o que raio tem a ver a Lei das Finanças Regionais com a ajuda que os madeirenses terão neste momento de receber. Se este recuo não resulta apenas do receio pelos efeitos políticos daquela posição num momento de natural simpatia e solidariedade nacional para com os madeirenses.
A Madeira precisa de ajuda. Mas não é legítimo lançar insultos contra quem tem dúvidas, faz perguntas e pede respostas. Elas são úteis para o futuro. Já as oportunistas carpideiras de serviço servem, como sempre, de muito pouco.
Incógnitas
Fernando Nobre parece jogar tudo na inexperiência e indefinição políticas. Nestes tempos, vir de fora parece ser uma qualidade. Mas entre as muitas vantagens deste candidato, estas são, na realidade, as suas maiores fragilidades. Porque quando se tratar de dissolver ou não um parlamento, de vetar ou não uma lei, são os valores políticos e não o "bom fundo" de cada um que contam.
Nobre defende que, mais do que na política, os portugueses acreditam "em pessoas com carácter e com coluna vertebral". Cunhal, Salazar, Sá Carneiro ou Eanes eram homens com coluna vertebral. Era indiferente o que pensavam? Não será apenas a seriedade de Nobre, da qual ninguém duvida, que terá de ser avaliada nestas eleições. Até porque uma campanha baseada apenas nisto teria de provar a falta de carácter e de coluna vertebral dos restantes candidatos. E não acredito que quem queira melhorar a qualidade do debate político vá por aí.
A outra incógnita é Manuel Alegre: reagirá à candidatura de Nobre como Soares reagiu à sua? Irá refugiar-se no colo de Sócrates? Se assim for, terá o mesmo destino de Soares. Alegre, que mostrou no passado autonomia em relação ao primeiro-ministro, não pode ficar em silêncio quando a democracia se degrada a olhos vistos. Vai optar pelo tacticismo, à espera da recompensa do PS, ou vai seguir as convicções que lhe garantiram o respeito de um milhão de eleitores?
Nobre e Alegre terão de clarificar as suas posições. Se um ficar à espera do voto do desespero e o outro do voto militante, Cavaco já está reeleito. Entre duas incógnitas e um presidente previsível, os portugueses jogarão pelo seguro.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010